Crescimento sem qualidade

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 25 de Janeiro de 2021

 Não raro, os jornais que ainda restam no Rio de Janeiro, estampam nas suas páginas a frase - traficantes evangélicos.

Não eciste isso! Ou o cidadão é traficante ou é evangélico. Não se misturam.

A frase em tela surgiu há alguns anos, a partir de diversos atos de intolerância religiosa, protagonizados por traficantes que invadem  recintos sagrados das religiões de matriz africana.

Vários envolvidos com o tráfico de drogas frequentam igrejas evangélicas, cujos pastores são fundamentalistas, desprovidos dos mais elementares conhecimentos biblícos e, claro, sem estofo cultural.

Não estão preocupados com a conversão de ninguém, muito menos  daqueles que trilham o caminho do crime. Na verdade, de uma forma ou  de outra, tentam usufruir de alguma maneira com a presença de  traficantes que vão à igreja, principalmene na questão dos dízimos e das ofertas.

Isso deixa à mostra a dimensão da crise que envolve o universo evangélico brasileiro, o que ficou explicíto na eleição do presidente Bolsonaro.

Como um cristão pode apoiar um adepto da tortura, das armas, e que durante a campanha, entre outras coisas, abasou das manipulações e mentiras políticas nas redes sociais?

Abrir uma igreja evangélica é mais fácil que abrir um botequim. Neste, pelo menos, o cidadão não será enganado.

Nem sempre o crescimento numérico consegue produzir qualidade. E os evangélicos são uma prova disso.

Não é pandemia, é sindemia

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 19 de Janeiro de 2021

 

Publicado originalmente no site Amaivos

 Por Frei Betto

É possível erradicar a pandemia de Covid-19 e preservar o capitalismo? A resposta à pergunta foi dada em setembro de 2019, na prestigiosa revista científica The lancet, por Richard Horton, professor da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e da Universidade de Oslo.

Em artigo intitulado Não é uma pandemia, longe de se posicionar ao lado dos negacionistas, Horton afirma que ocorre mais do que uma pandemia, há uma sindemia, conceito forjado em 1990 pelo epidemiologista Merrill Singer.

Sindemia significa que a doença infecciosa não pode ser encarada isoladamente. Ela se entrelaça com fatores sociais, políticos e econômicos, como desigualdade social, distribuição de riqueza, acesso a bens essenciais, como moradia e saneamento.

O problema, portanto, não é apenas a Covid-19. É o capitalismo sindêmico que, em tudo, prioriza a perversa lógica da acumulação privada da riqueza. Temos visto isso no Brasil, tanto nas propostas que com frequência aparecem na grande mídia, de privatização do SUS disfarçada de parceria público-privada, quanto na corrida empreendida pela iniciativa privada para importar vacinas que estariam ao alcance somente de quem possui recursos para frequentar hospitais e clínicas particulares.

Os ricos podem pagar pela vacina e, assim, furar a fila dos que merecem prioridade, como profissionais da saúde e idosos. Mas investirão também na imunização de seus motoristas, faxineiras, cozinheiras e cuidadores de piscinas?

É sabido que endemias, como a gripe aviária e a SARS (Síndrome respiratória aguda grave), tiveram origem na criação intensiva de animais em cativeiro e destinados ao consumo humano, e nos processamentos da indústria alimentícia.

No livro Grandes granjas, grandes gripes, Rob Wallace, epidemiologista especialista em agroecologia, descreve como são processados os animais consumidos por humanos e como isso facilita o surgimento de novas modalidades de vírus. O capitalismo transformou a natureza em laboratório, onde são aplicados todos os tipos de procedimentos para forçar o aumento da produção e do monopólio sobre os bens naturais, como é o caso dos transgênicos e das sementes “suicidas”, aquelas que o agricultor não consegue reproduzir e se vê obrigado a adquiri-las das gigantes dos venenos agrícolas, como a Monsanto.

Santiago Alba Rico, filósofo espanhol, no artigo Capitalismo pandêmico ressalta que, hoje em dia, há mais mortes causadas por infecções hospitalares que gripes, apesar de todos os protocolos higiênicos adotados. Se ocorre em hospitais, diz ele, imagina nas granjas! O que esperar de animais submetidos a confinamento, iluminação permanente, coquetéis de antibióticos e rações químicas? Wallace afirma: “Ao tornar a natureza capitalista, o capitalismo passa a ser considerado algo natural”.

À debilidade de nossas defesas imunológicas frente às novas ondas virais, acresce-se o apartheid produzido pela desigualdade social. Os “laboratórios naturais” de granjas, currais e frigoríficos geram vírus que infectam sobretudo aqueles que, por razões sociais e etárias, possuem menos defesas naturais: os pobres e idosos. Como diz Rico, “os vírus passam de animais maltratados a humanos maltratados, numa sinergia potencialmente apocalíptica”.

Desde que a OMS declarou o caráter pandêmico da Covi-19, em março de 2020, diferentes países adotaram diferentes maneiras de tentar deter o seu avanço. A China investiu em controle social e tecnológico. A União Europeia adotou medidas sanitárias combinadas com restrições que reduziram a mobilidade e o consumo. EUA e Brasil decidiram priorizar a economia em detrimento de vidas humanas.

Eis um falso dilema: salvar vidas ou a economia? A pergunta embute a odiosa discriminação de classe social, já que só os privilegiados podem se dar ao luxo de ficar confinados em casa e, ao mesmo tempo, trabalhar via online e consumir graças às entregas em domicílio. A questão encobre a sentença de morte aos mais pobres, já que o desconfinamento será inevitavelmente praticado por quem só sobrevive se sair à rua e utilizar transporte coletivo.

A lógica capitalista reforça a sindemia ao aplicar a moderna separação entre Estado e religiões à suposta separação entre economia e política (daí a ênfase na autonomia dos bancos centrais). Como se uma esfera pudesse se distanciar minimamente da outra. E outro dualismo, introduzido pelos negacionistas, é ignorar a palavra da ciência. Isso favorece a relativização das medidas restritivas recomendadas pelos cientistas.

Mais uma vez o capitalismo fala mais alto, já que ignorar a ciência permite não destinar recursos públicos a auxílios emergenciais, hospitais de campanha, importação de insumos sanitários e vacinas etc.

Somado à descredibilidade da política, esse negacionismo favorece as aglomerações, em especial a indiferença dos jovens frente à ameaça do vírus. Para eles, tudo se explica por alguma teoria conspiratória, como o “comunavírus” denunciado pelo chanceler brasileiro Ernesto Araújo.

Frei Betto  - Frade dominicano, jornalista graduado e escritor brasileiro. É adepto da Teologia da Libertação, militante de movimentos pastorais e sociais. Foi coordenador de Mobilização Social do programa Fome Zero.

 

 

 

 

Rio de Janeiro já foi o “tambor” do Brasil

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 12 de Janeiro de 2021

 

 

Não adianta fazer propaganda institucional, como fez recentemente uma emissora de televisão, tentando exaltar as qualidades do Rio de Janeiro, e dos cariocas.

Não resta dúvida que a maioria dos problemas que o Rio enfrenta - como de resto todo o país - piorou com a pandemia. A degradação da cidade, em todos os níveis, vem piorando a cada ano, sem nenhuma perspectiva de melhora.

Mais uma vez o Estado teve um governador afastado das suas funções, acusado de corrupção. E o ex-prefeito, derrotado na última eleição, quando tentou a reeleição, cumpre prisão domiciliar. Crivella é investigado em um esquema de corrupção conhecido como “QG da propina”, resultado da Operação Hades - que, além do prefeito, envolve uma série de outros acusados denunciados pelos crimes de organização criminosa, lavagem de dinheiro, corrupção ativa e passiva - uma ação conjunta entre a Polícia Civil do Rio de Janeiro e o Ministérios Público.  

Não há notícia boa. De novo, só 2021. Quando o novo ano rompeu, uma menina de 5 anos, que estava no colo da mãe, Franciely Silva - que foi assistir ao espocar dos fogos na casa de parentes -  no Morro do Turano, Rio Comprido, Zona Norte do Rio, foi atingida por uma bala perdida no pescoço, chegou a ser levada para o hospital, mas não resistiu.

Milicianos e traficantes fazem parceira, e a PM continua errando o alvo, ou seja: matando inocentes, como ocorreu em dezembro último com os jovens Edson Arguinez Júnior, 20 anos,  e Jhordan Luiz Natividade, de 17,  que, após terem sido abordados por policiais militares do 39 BPM ( Belford Roxo, Baixada Fluminense), apareceram mortos, fato ocorrido em dezembro último.

Um vídeo mostra que, no momento da abordagem, os dois jovens seguiam de moto, quando ocorre um clarão na imagem, semelhante a um tiro. Os dois caem com a moto e, em seguida, são revistados, algemados e levados para a viatura da PM. Um dos policiais deixa o local dirigindo a viatura, enquanto seu colega sai pilotando a moto. Os dois rapazes - que não tinham passagem pela polícia - não foram levados para a delegacia e apareceram mortos.

Nem a pandemia conseguiu diminuir a violência carioca.

O Rio vive do seu passado glorioso, na cultura, nos esportes, na música - etc. Era o Estado mais charmoso do país. Vanguarda intelectual e política. O “tambor” do Brasil. A maioria dos brasileiros de outros estados eram doidos para conhecer o Rio. Muitos vieram e, mais do que uma simples visita, aqui se estabeleceram. Bons tempos!

A pergunta certamente já foi feita diversas vezes. Por mais óbvia que seja, de vez em quando convém repetir o óbvio. Até quando o Rio de Janeiro vai conviver com essa situação?  

Tem saída? Tem! Um dos caminhos é votar de forma séria, consciente, não com a emoção, mas sim com a razão.

Pense nisso!

 

 

Cartão de Natal

Postado por Paulo Cezar Soares | Sexta-feira, 18 de Dezembro de 2020

Publicado no site Brasil 247

Por Frei Beto

Feliz Natal aos que secam lágrimas no consolo da fé e plantam no chão da vida as sementes do porvir. E aos que criam hipocampos em aquários de mistério e conhecem a geometria da quadratura do círculo

Feliz Natal a quem não planta corvos nas janelas da alma, nem
embebe o coração de cicuta e ousa sair pelas ruas a transpirar bom humor.

Feliz Natal a quem cultiva ninhos de pássaros no beiral da
utopia e coleciona no espírito as aquarelas do arco-íris. E a todos que trafegam pelas vias interiores e não temem as curvas abissais da oração.

Feliz Natal aos que reverenciam o silêncio como matéria-prima do amor e arrancam das cordas da dor melódicas esperanças. Também aos que se recostam em leitos de hortênsias e bordam, com os delicados fios dos sentimentos, alfombras de ternura.

 Feliz Natal aos que trazem às costas aljavas repletas de
relâmpagos, aspiram o perfume da rosa-dos-ventos e trazem no peito a saudade do futuro. Também aos que semeiam indignações, mergulham todas as manhãs nas fontes da verdade e, no labirinto da vida, identificam a porta que os sentidos não vêem e a razão não alcança.

Feliz Natal a todos que dançam embalados pelos próprios sonhos e nunca dizem sim às artimanhas do desejo. Aos que ignoram o alfabeto da vingança e jamais pisam na armadilha do desamor, pois sabem que o ódio destrói primeiro a quem odeia.

Feliz Natal a quem acorda todas as manhãs a criança adormecida em si e, moleque, sai pelas esquinas quebrando convenções que só obrigam a quem carece de convicções. E aos artífices da alegria que no calor da dúvida dão linha à manivela da fé.

Feliz Natal a quem recolhe cacos de mágoas pelas ruas a fim de atirá-los no lixo do olvido e guardam recatados os seus olhos no recanto da sobriedade. A quem resguarda-se em câmaras secretas para reaprender a gostar de si e, diante do espelho, descobre-se belo na face do próximo.

Feliz Natal a todos que pulam corda com a linha do horizonte e
riem à sobeja dos que apregoam o fim da história. E aos que suprimem a letra erre do verbo armar e se recusam a ser reféns do pessimismo.

Feliz Natal aos que fazem do estrume adubo de seu canteiro de
lírios. Também aos poetas sem poemas, aos músicos sem melodias, aos pintores sem cores e aos escritores sem palavras. E a todos que jamais encontraram a pessoa a quem declarar todo o amor que os fecunda em gravidez inefável.

Feliz Natal aos ébrios de transcendência e aos filhos da
misericórdia que dormem acobertados pela compaixão. E a todos que contemplam ociosos o entardecer, observando como o Menino entra na boca da noite montado em seu monociclo solar.

Feliz Natal a quem não se deixa seduzir pelo perfume das alturas e nem escala os picos em que os abutres chocam ovos. E a todos que destelham os tetos da ambição e edificam suas casas em torno da cozinha.

Feliz Natal a quem, no leito de núpcias, promove uma despudorada liturgia eucarística, transubstanciando o corpo em copo inundado do vinho embriagador da perda de si no outro. E a quem corrige o equívoco do poeta e sabe que o amor não é eterno enquanto dura, mas dura enquanto é terno.

Feliz Natal aos que repartem Deus em fatias de pão e convocam os famélicos à mesa feita com as tábuas da justiça e coberta com a toalha bordada de cumplicidades.

Feliz Natal aos que secam lágrimas no consolo da fé e plantam no chão da vida as sementes do porvir. E aos que criam hipocampos em aquários de mistério e conhecem a geometria da quadratura do círculo.

Feliz Natal a quem se embebeda de chocolate na esbórnia pascal da lucidez crítica e não receia pronunciar palavras onde a mentira costura bocas e enjaula consciências. E a todos que com o rosto lavado das maquiagens de Narciso dobram os joelhos à dignidade dos carvoeiros.

Feliz Natal a todos que sabem voar sem exibir as asas e abrem
caminhos com os próprios passos, inebriados pelos ecos de profundas nostalgias. E aos que decifram enigmas sem revelar inconfidências e, nus, abraçam epifanias sob cachoeiras de magnólias.

Feliz Natal aos que saboreiam alvíssaras nos bosques onde
vicejam anjos barrocos e nadam suas gorduras deixando os cabelos brancos flutuarem sobre a saciedade de anos bem vividos. E a todos que dão ouvidos à sinfonia cósmica e nos salões da Via Láctea bailam com os astros ao ritmo de siderais incertezas.

Feliz Natal também aos infelizes, aos tíbios e aos pusilânimes,
aos que deixam a vida escorrer pelo ralo da mesquinhez e, no calor de seus apegos, vêem seus dias evaporar como o orvalho aquecido pelo alvorecer do verão. Queira Deus que renasçam com o Menino que se aconchega em corações desenhados na forma de presépios.

 

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Descatável como uma embalagem de chocolate

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 14 de Dezembro de 2020

 

UMA SOCIEDADE QUE  SE DIZ CRISTÃ ESTÁ PERDENDO SEUS MAIS NOBRES VALORES. ESTAMOS VIVENDO A COISIFICAÇÃO DO  SER HUMANO. É ISSO QUE QUEREMOS DEIXAR PARA OS NOSSOS FILHOS E NETOS?

A cena é triste. chocante. Deixa à mostra, entre outras coisas, a total falta de sensibilidade, de solidariedade humana.

Morador de rua, Carlos Eduardo de Magalhães, como costumava fazer todos os dias, foi à padaria do bairro onde vivia de doações e dormia em frente de uma agência bancária. Era um sujeito tranquilo que, ao contrário do que o preconceito de muitos certamente supunha, não oferecia nenhum tipo de perigo para ninguém. Nos últmos meses, Carlos passou a cuspir sangue com frequência. Estava com  tuberculose.

Ao chegar na padaria, localizada no sofisticado bairro de Ipanema, Zona Sul do Rio, sentiu-se mal e morreu no local. O fato, que acontceu em 27 de novembro último, não alterou a rotina do  estabelecimento. Rapidamente foi providenciado um saco preto que foi colocado em cima do corpo, cercado por cadeiras de plástico. Duas portas de correr foram fechadas, para que os passantes, por um determinado ângulo, não vissem o corpo estendido no chão.

Ninguém parou de saborear o seu lanche ou coisa que o valha. Fregueses continuaram entrando na padaria para comprar, beber ou comer alguma coisa, como se nada de anormal  tivesse ocorrido. Afinal, era um um morador de rua, um zé ruela, descartável como uma embalagem de chocolate.

Recentemente, num supermercado Carrefour em Porto Alegre, dois “seguranças” brancos espancaram e mataram João Alberto Freitas - um homem negro - na véspera do dia da Consciência Negra. Em Recife - também no Carrefour, que coincidência! - um homem, representante  de vendas, infartou, morreu no local e  seu corpo  foi coberto por guarda-sóis, caixas de papelão e engradados de cerveja.

Em Caxias, Baixada Fluminese, no bairro Jardim Gramacho, as primas Rebeca - sete anos e Emily de quatro, foram mortas a tiros quando brincavam em frente do portão da casa de uma delas. Um tiro de fuzil, que os moradores disseram que partiram de policiais militares, atravessou a cabeça de Emily e atingiu Rebeca. A PM nega.

 Emily foi enterrada com o caixão fechado porque o tiro destruiu seu rosto.

A tragédia, que atinge mais uma família pobre no Rio de Janeiro, ocorreu no último dia 4. Os culpados serão punidos? Pouco provável.

Triste país, que está à deriva.

O que nos aguarda no próximo ano?

Pense nisso!

 

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A mentira como arma eleitoral do fascismo

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2020

 

Publicado no site Carta Maior

Por Armando Januário dos Santos*

Em Duas mentiras contadas por crianças, texto publicado em 1913, Sigmund Freud (1856-1939) salienta como a mentira está conectada a forças preponderantes, as quais podem ser o prenúncio de vindouras neuroses. Destaca-se, aqui, o aspecto infantil da mentira, como alternativa a verdade e que pode ser utilizada para atingir interesses, manobrar situações a seu próprio favor e, sobretudo, conquistar o poder.

Assistimos pelo menos em duas capitais, no último 29 de novembro, a ocorrência da mentira como instrumento para auferir vantagens eleitorais. Nesse cenário, muitas foram as mentiras utilizadas pelos adversários das candidatas às prefeituras de Porto Alegre e Recife, Manuela D’ávila e Marília Arraes, respectivamente. Na contemporaneidade, a mentira ganhou um termo agradável aos ouvidos: fake news.

Vendo os resultados positivos que esse tipo de tática conquistou nas eleições presidenciais de 2018 – mamadeira de piroca e kit gay são exemplos – o adversário de Marília Arraes disseminou mentiras nas redes sociais, a exemplo da candidata ser contra a Bíblia, mesmo sendo ela cristã. Mais que isso: afirmou, sem provas, que Marília tinha empregado funcionários fantasmas.

Em relação a Manuela D’ávila, a situação foi ainda mais grave. Só no primeiro turno, a Justiça determinou a exclusão de 91 links que disseminaram mentiras contra a candidata, entre elas, montagens que retratam a candidata com foto e brinquedo de martelo no Dia das Crianças. Mesmo assim, Manuela chegou ao segundo turno, contudo, a máquina de fake news já havia feito estrago suficiente para lhe retirar a vitória.

Mentir sempre foi um recurso humano para levar vantagem em qualquer área. Não obstante, o que percebemos é a mentira intimamente ligada a incitação ao medo, ao ódio e a violência de gênero. Nesse ponto, voltamos a Duas mentiras contadas por crianças, texto no qual o autor retrata o mentir como algo pueril, que pode desencadear no futuro, neuroses. Ora, o fascismo é uma neurose causadora do ódio, amplamente debatido por Freud, tanto em O mal-estar na civilização (1930) quanto em Moisés e o monoteísmo (1939). Se no primeiro texto, o fundador da psicanálise aborda a capacidade de ser hostil que todo ser humano possui, no segundo, ele reflete sobre o ódio a um grupo específico, os judeus. Trazendo essas reflexões para as eleições em Recife e São Paulo, podemos afirmar que as mentiras criadas por fascistas se direcionaram a um grupo específico: as mulheres.

Infelizmente, a mentira venceu. Contudo, os efeitos por ela desencadeados logo serão notados, haja vista ela abrir espaço para uma exponencial intolerância e selvageria.

*Armando Januário dos Santos é mestrando em Psicologia pela UFBA. Psicólogo graduado pela UNEB. Pós-graduado em Psicanálise; em Gênero e Sexualidade; e em Literatura. Graduado em Letras com Inglês. Autor do livro Por que a norma? Identidades Trans, Política e Psicanálise. e-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br | Instagram: @januario.psicologo

Em tempo: Além do que retrata este artigo, fatos da mesma natureza ocorreram no município de Feira de Santana na Bahia, onde expedientes antiéticos foram colocados em prática para prejudicar o candidato da oposição, o petista Zé Neto, conforme revela o jornalista Paulo Moreira Leite, no site Brasil 247.  ( www.brasil247.com.br) .  “Na véspera da votação pelo menos 26 000 cestas básicas foram distribuídas à população carente. Os ônibus fretados pela Justiça Eleitoral para transportar moradores que residem em locais distantes amanheceram com todos os pneus furados”.
Diante de tudo isso, cabe uma pergunta: Afinal, para que serve o Tribunal Superior Eleitoral e os respectivos Tribunais Regionais Eleitorais?

 

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