Reunião decidirá se o caso Flordelis irá para o Conselho de Ética

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 27 de Outubro de 2020

 

Na última segunda-feira postei um artigo para este blog a respeito da demora do caso da pastora, cantora gospel e deputada federal(PSD) Flordelis, acusa de ser a mandante do assassinato do marido, o pastor Anderson do Carmo, em junho  de 2019, crime ocorrido na casa do casal, no bairro de Pendotiba, Região Oceânica de Niterói.

No dia seguinte ao meu artigo, a Mesa Diretora da Câmara adiou para esta quarta-feira (29) a reunião que decidirá - é o que se espera - se o  caso da pastora seguirá para o Conselho de Ética, o que poderá levar à cassação do mandato  da deputada.

Flordelis, em função da imunidade parlamentar, segue em liberdade, mas faz uso de uma tornozeleira eletrônica desde o último dia 8 de setembro. 

 

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Por que tanta demora?

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 26 de Outubro de 2020

 

Mudam-se os hábitos comportamentais, ocorrem progressos tecnológicos em diversas áreas mas, a despeito disso, a Justiça brasileira continua como sempre foi: elitista e morosa. Apenas para citar citar um exemplo entre muitos, temos o caso da pastora, cantora gospel e deputada federal, Flordelis - (PSD)

Acusada de ser a mandante do assassinato do marido, o também pastor Anderson do Carmo, em junho de 2019, e obrigada a usar tornozeleira eletrônica desde o início deste mês, responde a um processo por falta de decoro que pode  acarretar a perda do seu mandato. Só não  está presa por  ter imunidade parlamentar. Sete filhos e uma neta também respondem pelo crime.

O que está faltando para que o processo seja concluído? Por que tanta demora?  

E se Flordelis fosse do PT?

Tenho a mais absoluta das certezas que já teria perdido o mandato

 

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A história da história que não quiseram te contar

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 20 de Outubro de 2020

Uma sugestão: procure ler este texto sem preconceito, baseado apenas na razão, não na emoção. Tente sinceramente agir dessa forma. Principalmente se você tiver filhos e netos.

Publicado no site Brasil 247

Desmontaram o pequeno estado de bem-estar social rapidamente e com extrema violência, em pouquíssimo tempo, sendo que o tempo para tentar construir uma sociedade mais solidária e justa se deu início após a promulgação da Constituição de 1988

Por Davis Sena Filho - editor do blog Palavra Livre

A direita brasileira e agora, com mais ênfase, insensatez e fanatismo, a extrema direita que está no poder, representada na figura de Jair Bolsonaro, sempre acusaram a esquerda de três coisas basilares em suas distorções, manipulações e mentiras com intenções políticas e ideológicas: 1) corrupção; 2) aparelhamento do Estado; e 3) criminalização e judicialização de ações e atos governamentais de mandatários e políticos de esquerda. E assim se desenvolve o processo maquiavélico: Dilma Rousseff foi deposta por um golpe terceiro-mundista, assim como Lula foi injustamente e covardemente preso.

São tão visíveis e notórias tais criminalizações e judicializações, que são também perceptíveis por parte da população brasileira ser o Poder Judiciário, em todas suas instâncias, e a PGR, que tem sob seu comando os MPF em todos os estados da Federação, as valências de combate político, a usar o Direito como instrumento de perseguição, intimidação e de repressão àqueles políticos e partidos que são por eles considerados inimigos. Esta realidade mórbida aconteceu e continua a acontecer com o PT e suas principais lideranças, com maior evidência e força, a partir de 2013.

Trata-se de processo tão escandaloso e escabroso que, após dois anos de governo Bolsonaro, os denominados homens e mulheres da lei não tomaram nenhuma atitude realmente efetiva para investigar incontáveis denúncias graves contra membros importantes do governo de extrema direita, que adota como políticas públicas o desmonte do Estado nacional, a concentração brutal de renda e riqueza para transferir recursos trilionários às multinacionais, à burguesia brasileira e às “elites” do funcionalismo público dos Três Poderes e das Forças Armadas.

São os “bem nascidos”, os que podem mais e os que traem a Nação para viver com fartura e bem- estar, porque, além de tudo, têm influência e, por sua vez, ficaram livres das reformas draconianas impostas pelos governos Temer e Bolsonaro, além de manter seus benefícios e privilégios, assim como tiveram seus altos salários aumentados.

Trata-se do butim do golpe de direita de 2016, dos regalos e galardões concedidos àqueles que estão e sempre estiveram por cima da carne seca, a apoiar estupidamente as privatizações criminosas, a extinção de direitos conquistados há décadas pela população, e o desmonte dos programas de inclusão social, além da destruição irresponsável e deliberada de grandes empresas nacionais, em nome da corrupção à moda Sergio Moro, a dar fim a dezenas de milhões de empregos tão caros ao povo brasileiro.

Desmontaram o pequeno estado de bem-estar social rapidamente e com extrema violência, em pouquíssimo tempo, sendo que o tempo para tentar construir uma sociedade mais solidária e justa se deu início após a promulgação da Constituição de 1988, Carta Magna odiada e sabotada pela burguesia deste País, a mais atrasada e reacionária do mundo ocidental. A casa grande, controladora do sistema de capitais e chefe efetiva dos tribunais, que jamais aceitou os avanços constitucionais constantes da Carta chamada por Ulysses Guimarães de Cidadã.

Implantou-se, a partir de 2016, com maior violência do que as privatizações deletérias da Era Fernando Henrique Cardoso. Michel Temer, político medíocre e de poucos votos, mas um dos principais inquilinos dos subterrâneos da polícia nacional conquista, como todo autor de patifarias, o poder por meio de conspiração e traição ao se transformar um dos protagonistas da deposição de Dilma Rousseff.

A intenção, de maneira rápida e violenta, era efetivar políticas públicas, monetárias e fiscais ultraliberais, a propiciar o retorno radical do neoliberalismo, um modelo de rapinagem e pirataria das riquezas do Brasil e de exploração do povo brasileiro, a ter como prioridade atender, principalmente, os interesses geopolíticos e econômicos dos EUA.

Enquanto os países desenvolvidos e o próprio FMI estão a abandonar tal estupidez e burrice que é o neoliberalismo, porque não deu certo até nos países desenvolvidos, Michel Temer e seu bando, para logo depois Bolsonaro e seu estúpido ministro da Economia, Paulo Guedes, implantam no Brasil a política mais radical de lesa-pátria de todos os tempos, que, se acontecesse nos EUA, até o Donald Trump, uma águia do capitalismo internacional, seria duramente e fortemente questionado se tentasse privatizar as principais estatais do país imperialista.

E toda essa ignomínia e irresponsabilidade com a aquiescência da pior geração de generais que este país já produziu. Lamentável! Atitudes indiscutíveis e somente realizadas por governos párias, entreguistas e contrários à soberania do Brasil, que é o caso de Jair Bolsonaro e seus apoiadores, que são totalmente dissociados dos valores republicanos voltados à igualdade de oportunidades, à democracia e ao Estado de Direito, como reza a Constituição.

A conclusão é que os conspiradores, que agem como inimigos internos da soberania brasileira são governos antinacionalistas, antipopulares e antidemocráticos, com perfis similares ao de Jair Bolsonaro. Tais governos, no decorrer da República, vilipendiaram a segurança nacional, sendo que em nome dela cometeram todo tipo de crimes e arbitrariedades, das quais até hoje parcela da sociedade civil brasileira não se recuperou, pois cicatrizes não cicatrizadas e algozes da repressão não punidos. Portanto, nada será resolvido, porque a chaga sangra e a inconformidade vilipendia àqueles que são consideram injustiçados. Sem justiça não há paz!

Este é o País que jamais olha para dentro de si, com o propósito de resolver pendências graves e históricas. Sem chance de reconciliação de grupos sociais antagônicos para que se compreenda o que é ter paz, pois o status quo golpeia historicamente para não ser punido, bem como só cede quando está por demais desmoralizado, como ocorreu com os militares, em 1985, quando saíram pela porta dos fundos do poder após longos 21 anos, sem os generais terem um único voto das urnas populares.

Por isto que os correligionários e apoiadores do presidente fascista, Jair Bolsonaro, e seu desgoverno fadado ao fracasso retumbante, que apostam na continuidade da divisão da sociedade brasileira, insistem no conflito permanente, pois sem projeto de desenvolvimento socioeconômico, como se recusam, terminantemente, a pensar o País.   

As denúncias perpetradas por órgãos e instituições da sociedade civil organizada também não conseguiram atingir os apoiadores do governo extremista à direita, de forma a dar fim a uma série casuísmos de autoria de políticos que se dizem conservadores apenas no que diz respeito à (falsa) moralidade comportamental, uma forma de colocar no bridão, como se fossem cavalos os setores mais progressistas da sociedade, a se utilizar de fakes news, de maneira a demonizá-los para desmoralizá-los perante a sociedade brasileira, que está a enfrentar a crise moral mais grave de sua existência.

São políticos que participaram do golpe de estado contra um governo legítimo e trabalhista de Dilma Rousseff, que estão encastelados no Congresso e na sociedade civil, principalmente no que é relativo a empresários bolsonaristas e internautas aloprados e ensandecidos, alguns deles famosos fanfarrões midiáticos, que se sentem livres e autorizados para cometer, principalmente, crimes fiscais e de sonegação, que em um país sério a Justiça, com o apoio do MP e da polícia, colocaria essa gente criminosa e golpista na cadeia. Porém, no Brasil tais delinquentes têm status e admiração.

Tudo isto acontece porque vive no País um povo sem acesso real à informação, pois distorcidas e manipuladas pelos grandes meios de comunicação privados desde os tempos do início do rádio, porque porta-vozes que são dos interesses econômicos e políticos da burguesia brasileira associada à Plutocracia internacional.

Temos no Brasil uma classe alta que vê o Brasil pela ótica do colonizador, ao tempo que, além de nunca ter tido um projeto nacional de independência para o País, recorre a artimanhas para que o Estado nacional se transforme em um guardião de seus interesses, a seu serviço político e econômico, bem como de repressão policial, a ter ainda as Forças Armadas como capitólios da ideologia supremacista e hegemônica, no que dispõe a combater a luta de classe, as esquerdas e, consequentemente, se perpetuar no poder.

E atrás disso está a extrema direita brasileira, que sabe ter apenas 20% da população, contudo não tão fiel, a partir da hora que tal governo militarista e elitista liderado por Bolsonaro chegar ao limite de sua intenção de desmontar o cinturão de proteção social, cultural e econômico, exemplificado nas perdas sociais e trabalhistas, previdenciárias e empregatícias, que já estão, nitidamente e verdadeiramente, a deixar o povo despido até de suas vestes.

Ainda faltam ainda dois anos e dois meses para o pior governo da história do País, cujas autoridades chegaram ao poder por meio de um golpe de estado, que se desenrolou na prisão covarde e injusta de Lula, chegue à bancarrota, desmoralizado, e com a população em petição de miséria, pois neste momento o Brasil já tem cerca de 50 milhões de desempregados e subempregados, além da violência endêmica que supera qualquer índice sobre o assunto no mundo. Vergonhoso. Quase todos os números e índices econômicos e sociais são negativos, desde os ambientais aos sanitários, comerciais e industriais, além da falta de investimentos estrangeiro e desemprego galopante.

Se o inferno existe, ele é o Brasil atual. Crises gigantescas na saúde e educação, porque políticos moleques e bandidos, com o apoio da grande imprensa tradicional com ações similares a de um delinquente ou marginal de alta periculosidade, congelaram por 20 anos os recursos da educação e da saúde, além do desamparo moral e espiritual ao povo brasileiro, que se tornou dividido, triste, agressivo, violento e, ao que parece, totalmente intolerante e confuso.

O Brasil dobrou o cabo da esperança e está à deriva no meio do oceano, sem perspectiva de avanços econômicos e justiça social. Existe uma atmosfera de cansaço, mas prestes a explodir. O País vive sob uma plúmbea nuvem sempre a maltratar o chão com raios, em uma intolerância que leva à renúncia do que é racional e ponderado, sensato e inteligente.

O barbarismo e o fracasso do golpe de estado de 2016 se expande, além das fronteiras e avisa, definitivamente, que o Brasil necessita urgentemente ser pacificado e afastar, por meio da democracia que está às voltas com todo tipo de golpe contra ela, o governante fascista, seus generais e empresários suicidas da vitória eleitoral em segundo mandato. O povo brasileiro precisa de uma maneira ou outra lutar pelo que é civilizado e justo, aceitável e compreendido.

Não se compreende a selvageria que campeia e a derrota proposital quanto ao desenvolvimento do País e a recuperação da autoestima do povo brasileiro, independente se ele, porventura, titubeou e apostou contra o amor próprio, a prejudicar seriamente seus interesses de cidadania.

O Partido dos Trabalhadores tem de fazer política urgentemente, explicar o que acontece para os trabalhadores, donas de casa, estudantes, aposentados e toda a sociedade civil organizada, de maneira assertiva, direta e corajosa. A esquerda tem de voltar a se mobilizar e explicar… explicar… explicar…, incansavelmente, o porquê de o Brasil ter sido alvo de um golpe do capital internacional associado à burguesia tupiniquim. Fazer o povo entender!

A esquerda tem de recuperar seu fôlego e fibra históricos e tirar do poder os políticos malandros da direita e extrema direita, que tomaram a fórceps o Palácio do Planalto e fingem que governam o Brasil por meio da democracia, que tanto desprezam e odeiam, porque democracia significa dar oportunidade a todas as pessoas e, definitivamente, a direita sempre combaterá a cidadania, pois intrinsecamente sectária e fundamentalmente concentradora de renda e riqueza. O PT é luta, pois que lute o PT! É Isso aí. 

 

 

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Tempos de mediocridade

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 19 de Outubro de 2020

Há alguns dias os jornais deram destaque ao drama da modelo Elisa Pontes, 26 anos, que até semana passada estava internada no Instituto Philippe Pinel, em Botafogo, Zona Sul do Rio, após ter sido encontrada vagando na favela do Cantagalo, localizada  também na Zona Sul. A modelo - que, conforme foi divulgado, já desfilou várias vezes no exterior - foi mais uma vítima de aproveitadores alienados que pululam na internet. Usaram a imagem da modelo em tela para criar perfis fakes no Instagram, com o objetivo de acumular possíveis  seguidores.

É a exposição a qualquer custo. Insensibilidade total para o drama pessoal, de caráter familiar da modelo. Grassa na internet a superficialidade na maioria dos assuntos, a falta de respeito, de ética. Vivemos tempos de mediocridade.

Na verdade, a internet piorou o que já era ruim: o relacionamento interpessoal.

As pessoas ficaram mais individualistas e egoístas. Por isso, entre outras coisas, os consultórios dos psicanalistas estão cheios.

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Quem mandou matar Marielle? Por quê?

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 14 de Outubro de 2020

 

Um crime de repercussão internacional ainda não tototalmente desvendado

O povo quer saber: quem mandou matar Marielle Franco e por quê?

945 dias

 

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Por que o Brasil voltou ao Mapa da Fome?

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 28 de Setembro de 2020

 

Artigo originalmente publicado no jornal Valor Econômico, em 25 de setembro de 2020.

OBS - Nota do  editor  do blog -  O artigo em  tela revela uma questão de extrema gravidade, que é uma  vergonha para o nosso país. Pode é deve ser incluída no  campo dos Direitos Humanos.

Por José Graziano da Silva*

Em artigo, o ex-diretor-geral da FAO trata da crise brasileira e da fome no país. “O governo Bolsonaro segue com o desmonte do que ainda restou da política de segurança alimentar implantada no Brasil a partir do primeiro governo Lula”, aponta

Os resultados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) recentemente divulgada pelo IBGE, realizada entre junho de 2017 a julho de 2018, apontaram que a fome (insegurança alimentar grave) atingiu mais de 10 milhões de brasileiros nesse período, representando uma fatia de 4,6% da população de nosso país. A pesquisa também mostrou que a insegurança alimentar grave é ainda maior em domicílios chefiados por negros, mulheres e na região Nordeste. No meio rural, a fome ultrapassa a 7%.

O anúncio ocorreu cinco anos depois de a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) declarar que o Brasil não fazia mais parte do Mapa da Fome Mundial. Segundo o IBGE, a insegurança alimentar grave no Brasil havia caído de 6,9% da população em 2004, para 5% em 2009 e para 3,2% em 2013.

Muita gente confunde as coisas e correlaciona nossa alta produção de alimentos com a ausência da fome no país

Se fizermos uma simples projeção linear, ou seja, se admitirmos que essa tendência de crescimento verificada a partir de 2013 se manteve, os números em julho de 2020 alcançariam algo como 6,6% da população brasileira de 213 milhões de habitantes, ou seja, cerca de 15 milhões de brasileiros estariam passando fome, hoje!

Na verdade, esses números tendem a ser ainda mais alarmantes, já que não consideram o impacto da crise econômica agravada pela pandemia da covid-19. O aumento do desemprego atingiu 13,7 milhões de pessoas procurando trabalho no final de agosto – alcançando o recorde de 14,3% da forca de trabalho; isso sem considerar os milhões de ocupados informais que vivem com salários miseráveis além de todos aqueles que estavam em “desalento com a pandemia e estão voltando a procurar trabalho”.

Some-se a isso as restrições à distribuição da merenda escolar, pois as escolas permanecem fechadas; e ao desmonte das políticas de segurança alimentar como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) – quase sem recursos orçamentários – e os estoques reguladores da Conab praticamente zerados. Tudo isso mais o aumento generalizado de preços dos produtos da cesta básica, entre eles a dobradinha arroz-feijão, base do sistema alimentar dos brasileiros durante a pandemia.

Mas a covid-19 não pode ser considerada o principal vilão dessa história, até porque o crescimento da fome registrado pelo IBGE ocorreu antes da pandemia. Os avanços na erradicação da fome se deveram, no passado, à implantação de uma política de segurança alimentar e nutricional a partir de 2003 no primeiro governo Lula, com a aplicação de políticas públicas de transferência de renda, com os aumentos reais do salário mínimo, com a geração de empregos de qualidade e com a implementação da estratégia Fome Zero, como o fortalecimento dos programas já citados anteriormente que hoje estão à míngua.

Mas a covid-19 não pode ser considerada o principal vilão dessa história, até porque o crescimento da fome registrado pelo IBGE ocorreu antes da pandemia

O que de fato aconteceu? Infelizmente, o combate à fome deixou de ser prioridade de governo depois de 2016. Como o Brasil é um grande produtor e exportador mundial de alimentos, muita gente – incluindo o atual presidente da República – confunde as coisas e correlaciona a nossa alta produção de alimentos com a ausência da fome no nosso país. Açúcar, café, suco de laranja, carne bovina e de frango, milho e soja são apenas alguns dos produtos onde o Brasil é o maior (ou o segundo) produtor e exportador mundial hoje em dia. Ocorre que, a fome no Brasil, como na maior parte do mundo, não é oriunda da falta de alimentos produzidos, mas de alimentos consumidos dada impossibilidade dos mais pobres de ter acesso a eles.

Em poucas palavras, não faltam alimentos, mas falta dinheiro para comprá-los! Os dados da FAO mostram que produzimos mais do que o suficiente para alimentar a todos com uma dieta mínima e ainda se joga fora cerca de um terço do que produzimos, acentuando de forma desnecessária o impacto da agricultura no meio ambiente.

Esse não é o único paradoxo do caso brasileiro de existir fome num país com abundância de produção de alimentos. Além disso, temos também 20% da nossa população adulta obesa e outros tantos com sobrepeso. É o outro lado da mesma moeda: comemos pouco e muito mal. Fome e obesidade são dois extremos de um contínuo de má nutrição, que afeta os brasileiros por falta de uma política ativa de educação alimentar.

O governo Bolsonaro segue com o desmonte do que ainda restou da política de segurança alimentar implantada no Brasil a partir do primeiro governo Lula

Com a pandemia, vimos multiplicar os programas de rádio e de TV procurando ensinar as pessoas a fazerem comida em casa. Essa situação emergencial deveria ser uma prática permanente, como parte das ementas escolares já a partir do ensino fundamental. Somos um país de obesos e de pessoas acima do peso porque comemos muito açúcar, sal, gorduras saturadas contidos em alimentos ultraprocessados de baixo valor nutricional e muitas farinhas de todos os tipos de alto teor calórico, mas baixo conteúdo proteico.

Mas porque o governo Bolsonaro segue com o desmonte do que ainda restou da política de segurança alimentar implantada no Brasil a partir do primeiro governo Lula, ainda mais agora quando uma boa alimentação é arma fundamental para prevenir a covid-19? Já está mais do que provado que a obesidade, junto com a idade mais avançada, estão entre as mais graves comorbidades associadas à doença.

Orientar as pessoas a comerem bem, de forma saudável e nutricionalmente balanceada, é dever de Estado. Esse direito humano à alimentação saudável está inscrito na nossa Constituição, e deveria ser zelado por todos os governos, independentemente de afiliação político-partidária. Não encontro outra resposta: existe uma crença cega e dogmática na atual administração federal de que a alimentação é um problema de cada um de nós e que o governo não tem nada a ver com isso. Pior: de que não deve atrapalhar o bom funcionamento da lei da oferta e procura no melhor estilo ultra-neoliberal, onde os mercados são soberanos e devem comandar a economia e a política.

Jose Graziano da Silva foi diretor-geral da FAO e é consultor do Instituto Comida do Amanhã.

Artigo originalmente publicado no jornal Valor Econômico, em 25 de setembro de 2020.

 

 

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