Tempos de mediocridade

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 19 de Outubro de 2020

Há alguns dias os jornais deram destaque ao drama da modelo Elisa Pontes, 26 anos, que até semana passada estava internada no Instituto Philippe Pinel, em Botafogo, Zona Sul do Rio, após ter sido encontrada vagando na favela do Cantagalo, localizada  também na Zona Sul. A modelo - que, conforme foi divulgado, já desfilou várias vezes no exterior - foi mais uma vítima de aproveitadores alienados que pululam na internet. Usaram a imagem da modelo em tela para criar perfis fakes no Instagram, com o objetivo de acumular possíveis  seguidores.

É a exposição a qualquer custo. Insensibilidade total para o drama pessoal, de caráter familiar da modelo. Grassa na internet a superficialidade na maioria dos assuntos, a falta de respeito, de ética. Vivemos tempos de mediocridade.

Na verdade, a internet piorou o que já era ruim: o relacionamento interpessoal.

As pessoas ficaram mais individualistas e egoístas. Por isso, entre outras coisas, os consultórios dos psicanalistas estão cheios.

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Quem mandou matar Marielle? Por quê?

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 14 de Outubro de 2020

 

Um crime de repercussão internacional ainda não tototalmente desvendado

O povo quer saber: quem mandou matar Marielle Franco e por quê?

945 dias

 

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Ministério Público pede que Google seja multado por não fornecer dados sobre caso Marielle

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 12 de Outubro de 2020

 

Publicado no  site  Brasil 247

O Ministério Público do Rio de Janeiro (MP-RJ) pediu à Justiça que seja aplicada uma multa diária contra o Google por não fornecer dados de usuários que realizaram pesquisas pelo nome da vereadora Marielle Franco em datas próximas a sua execução.

O valor da multa pode variar entre R$ 100 mil e R$ 5 milhões.

Procuradores argumentam que os dados são fundamentais para a localização e identificação dos demais envolvidos no assassinto de Marielle.

O Google alega que o fornecimento dos dados fere a privacidade dos usuários.

 

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Mulher presa por matar o marido fazia sexo com colegas de trabalho da vítima, segundo decisão judicial

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 7 de Outubro de 2020

 

Matéria publicada no site do jornal Extra

Depois de 11 anos foragida, Monica Maria Santiago, de 52 anos, foi presa na última segunda-feira, dia 5, por policiais da Delegacia de Homicídios da Baixada Fluminense (DHBF). Ela foi condenada em março de 2009, pela 4ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio, a 16 anos de prisão pelo assassinato do marido, Wellington Franklin Bezerra, ocorrido em maio de 2002. Monica, segundo a denúncia do Ministério Público, matou Wellington para receber o seguro de vida do marido, do qual ela e a filha do casal eram beneficiárias.

De acordo com o acórdão do TJ que aumentou a pena imposta a Monica — ela havia sido condenada pelo 4º Tribunal do Júri da capital, em novembro de 2007, a 14 anos de reclusão por homicídio duplamente qualificado — ela tinha uma conduta social “desabonadora”, “pois realizava festas no apartamento do casal quando o companheiro estava ausente e tinha relações sexuais com vários colegas de trabalho dele, o que causava danos vexatórios à imagem do ofendido”.

Segundo a sentença de pronúncia de Monica no 4º Tribunal do Júri, ela matou Wellington com três tiros, na cabeça e no peito, na madrugada de 3 de maio de 2002, no apartamento onde o casal morava com a filha, na Estrada do Portela, em Madureira, Zona Norte do Rio. A vítima foi baleada enquanto dormia. Sua filha estava na casa da família no momento do crime.

Monica foi presa na favela da Mangueirinha, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense.

 

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Balneário de gângsteres

Postado por Paulo Cezar Soares | Quinta-feira, 1 de Outubro de 2020

A canção “Rio Antigo” foi escrita pelo cearense Chico Anísio (1931- 2012) e o maranhense Nonato Buzar. Como o próprio nome diz, relata o estilo de vida, o charme, o glamour e a efervescência cultural da cidade há algumas décadas do século passado, exemplo para o país e o mundo.

Bons tempos! Mas que fazem parte do passado. O Rio charmoso – que ganhou o epíteto de Cidade Maravilhosa – e tambor cultural do país – como, não raro, costumava dizer o governador Leonel Brizola ( 1922-2004 ) – infelizmente acabou. E, já há algumas décadas, figura entre as mais violentas do país, refém da bandidagem – traficantes e milicianos, grupos formados por policiais civis e militares, inicialmente dispostos a erradicar os traficantes das comunidades, mais hoje tão criminosos quantos eles.

Tudo isso está relatado no livro A República das Milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro, do jornalista Bruno Paes Manso. Editora Todavia.

Os primórdios da violência urbana tiveram início com os grupos de extermínio que faziam a segurança para os comerciantes, executavam ladrões, assaltantes e desafetos. E também prestavam seus serviços para os bicheiros do jogo do bicho. Os bicheiros dos românticos anos 40 e 50 deram lugar à nova geração, com ideais diferentes e métodos de ação violentos. Para alguns desses contraventores, drogas e máquinas de vídeo pôquer passaram a fazer parte dos seus negócios.

O submundo do crime, sua infraestrutura e conexões, tudo isso é revelado pelo autor por meio das suas fontes. Depoimentos impactantes, que explicam o crescimento do crime na cidade, de forma avassaladora. A partir da década dos anos 2000, além do tráfico de drogas surgem as milícias, a primeira delas na favela Rio das Pedras, bairro Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio, fato que inspirou outros grupos de milicianos.

O termo milícia passou a ser conhecido do grande público em 2005, a partir de uma matéria da repórter Vera Araújo, no jornal O Globo. “A ligação do clã Bolsonaro com a rede de paramilitares e milicianos que se formava na zona oeste se estreitou em 2002, com a eleição de Flávio Bolsonaro para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O deputado de apenas 22 anos, neófito no Parlamento, pretendia se vender como o representante político e ideológico dos “guerreiros fardados” que lutavam por espaço e poder nos territórios do Rio” – página 42.  “Dois anos antes, Carlos Bolsonaro, o zero dois, tinha sido o mais jovem vereador eleito da história do Brasil, com dezessete anos” - página 43

No Congresso, Bolsonaro sempre defendeu os grupos de extermínio e a pena de morte para conter a violência urbana. E os seus colegas parlamentares nunca reagiram à altura. Ficaram omissos a seus discursos contra os mais elementares postulados democráticos e aos   direitos humanos.

A situação da segurança pública carioca só piorava, a ponto de o governo estadual solicitar ajuda do Exército, o que ocorreu com a intervenção federal, em 16 de fevereiro, de 2018, comandada por um general do Exército.

Soldados posicionados em diversos pontos da cidade, assim como a realização de blitzes, geraram apenas uma falsa sensação de segurança – um efeito psicológico. Todo o aparato militar não conseguiu evitar o assassinato da vereadora Marielle Franco, e do seu motorista Anderson Gomes, crime que teve repercussão internacional. Os militares também não conseguiram descobrir quem mandou matar e por quê.  

“A indignação se espalhou e Marielle se tornaria símbolo da resistência contra a violência policial, o machismo e o racismo. Para agravar a situação política o assassinato ocorreu no primeiro mês da intervenção federal no Rio de Janeiro. Parecia lançar um desafio direto aos militares, ao governo federal, à imprensa. Como se os assassinos dissessem: “Não importa que a atenção de todo Brasil esteja voltada para o Rio. Quem manda neste estado somos nós” – página 189.

Um quadro angustiante, desalentador, que parece não ter fim. Não seria exagero definir a cidade como um balneário de gângsteres.

TRECHO DO LIVRO - Anthony e Rosinha Garotinho, os governadores que sucederam a Marcello Alencar, fecharam os olhos para o avanço da banda podre que envolvia a estrutura que sustentava as instituições. Quando assumiu, em 1999, Garotinho mostrou disposição para enfrentar os problemas de segurança. Chamou para a Subsecretaria de Segurança, Justiça e Cidadania, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, que levou para a pasta um grupo comprometido com reformas estruturais na polícia. Soares teve a liberdade de indicar os chefes da Polícia Militar e da Polícia Civil, escolhidos com a missão de reduzir a violência e a corrupção nas suas corporações. Medidas foram tomadas, como o fortalecimento da ouvidoria da polícia; a criação do Instituto de Segurança Pública, responsável pelo levantamento de dados sobre crime no estado; a formação das Áreas Integradas de Segurança, para que a administração tivesse mais informação e capacidade de gestão sobre os territórios; os mutirões pela paz, que propunham um policiamento mais próximo da vizinhança dessas áreas e que seria um dos embriões das UPPs; e as delegacias legais, que buscavam informatizar e modernizar os processos de investigação para tornar os resultados transparentes e minar os esquemas viciados de delegados e investigadores. A pressão política dos policiais que tiveram seus interesses atingidos, alguns deles atuavam dentro da própria Secretaria de Segurança, levou o governador a interromper as reformas e a demitir Luiz Eduardo Soares um ano e três meses depois da posse. Com a mudança, o delegado Álvaro Lins, que mais tarde seria acusado de proteger empresários da contravenção, e de se juntar a outros policiais para lotear as delegacias em troca de propinas, ganhou espaço no governo. Ao ser demitido, Soares avisou que o governador tinha se aliado à banda podre da polícia. Passou a sofrer diversas ameaças de morte e precisou deixar o Brasil com a família, quando escreveu o livro Meu casaco de general: Quinhentos dias no front da Segurança Pública do Rio de Janeiro, em que conta sua experiência. No governo de Rosinha Garotinho, a banda podre continuou empoderada. O delegado Álvaro Lins se tornou chefe da Polícia Civil e o modelo de negócio miliciano viveria seu momento inicial de expansão. Na CPI das Milícias, o ex-secretário de Segurança de Rosinha Garotinho, Marcelo Itagiba, foi acusado de fazer campanha com o apoio dos paramilitares de Rio das Pedras — ele se elegeu deputado federal pelo PMDB em 2006. Cristiano Girão, que na CPI das Milícias foi apontado como um dos chefes da comunidade da Gardênia Azul, trabalhou como assessor especial de Rosinha Garotinho e levava parceiros do governo para buscar votos na comunidade. Esse processo descontrolado se agravou no fim do segundo mandato do governo de Sérgio Cabral Filho. O novo governador assumiu num momento econômico favorável, beneficiado pelo alto valor das commodities no mundo, em especial do petróleo, que tinha se tornado o carro-chefe da economia fluminense. Em 2008, o preço do barril estava acima de cem dólares e os royalties adquiridos com a venda do produto correspondiam a 16% de toda a receita do governo. Para ajudar, as UPPs saíram do papel, com bons resultados iniciais. A situação política também favorecia o governador, graças à proximidade com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fortalecia a liderança de Cabral. Tudo parecia dar certo. Vieram os anúncios da escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas, os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal, a construção do teleférico no Complexo do Alemão, notícias grandiosas que passaram a ideia de um futuro promissor para o Rio de Janeiro. O governador gastava como um novo-rico deslumbrado, mas a cobrança da conta ainda demoraria a aparecer. Por algum tempo, Cabral desfrutou a fama de estadista; em 2009, a revista inglesa The Economist estampou na capa um Cristo Redentor com jatos propulsores sob os pés, decolando como um foguete no Corcovado. Essa imagem de prosperidade começou a ruir quatro anos depois, em junho de 2013, quando milhões de brasileiros foram às ruas protestar contra o aumento das passagens de ônibus. Os limites da bonança carioca tornavam-se claros. Naquele ano, a revista inglesa dedicou outra capa ao Rio de Janeiro, então com o Cristo Redentor se descontrolando logo depois da decolagem e descendo em queda livre. Em abril de 2014, diante da pressão popular que cresceu depois do assassinato do pedreiro Amarildo na UPP da Rocinha e com a expectativa de se candidatar ao Senado, Cabral renunciou ao cargo de governador, cedendo a cadeira ao vice, Luiz Fernando Pezão. A crise econômica e política do Rio de Janeiro, no entanto, avançava com velocidade.

Por que o Brasil voltou ao Mapa da Fome?

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 28 de Setembro de 2020

 

Artigo originalmente publicado no jornal Valor Econômico, em 25 de setembro de 2020.

OBS - Nota do  editor  do blog -  O artigo em  tela revela uma questão de extrema gravidade, que é uma  vergonha para o nosso país. Pode é deve ser incluída no  campo dos Direitos Humanos.

Por José Graziano da Silva*

Em artigo, o ex-diretor-geral da FAO trata da crise brasileira e da fome no país. “O governo Bolsonaro segue com o desmonte do que ainda restou da política de segurança alimentar implantada no Brasil a partir do primeiro governo Lula”, aponta

Os resultados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) recentemente divulgada pelo IBGE, realizada entre junho de 2017 a julho de 2018, apontaram que a fome (insegurança alimentar grave) atingiu mais de 10 milhões de brasileiros nesse período, representando uma fatia de 4,6% da população de nosso país. A pesquisa também mostrou que a insegurança alimentar grave é ainda maior em domicílios chefiados por negros, mulheres e na região Nordeste. No meio rural, a fome ultrapassa a 7%.

O anúncio ocorreu cinco anos depois de a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) declarar que o Brasil não fazia mais parte do Mapa da Fome Mundial. Segundo o IBGE, a insegurança alimentar grave no Brasil havia caído de 6,9% da população em 2004, para 5% em 2009 e para 3,2% em 2013.

Muita gente confunde as coisas e correlaciona nossa alta produção de alimentos com a ausência da fome no país

Se fizermos uma simples projeção linear, ou seja, se admitirmos que essa tendência de crescimento verificada a partir de 2013 se manteve, os números em julho de 2020 alcançariam algo como 6,6% da população brasileira de 213 milhões de habitantes, ou seja, cerca de 15 milhões de brasileiros estariam passando fome, hoje!

Na verdade, esses números tendem a ser ainda mais alarmantes, já que não consideram o impacto da crise econômica agravada pela pandemia da covid-19. O aumento do desemprego atingiu 13,7 milhões de pessoas procurando trabalho no final de agosto – alcançando o recorde de 14,3% da forca de trabalho; isso sem considerar os milhões de ocupados informais que vivem com salários miseráveis além de todos aqueles que estavam em “desalento com a pandemia e estão voltando a procurar trabalho”.

Some-se a isso as restrições à distribuição da merenda escolar, pois as escolas permanecem fechadas; e ao desmonte das políticas de segurança alimentar como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) – quase sem recursos orçamentários – e os estoques reguladores da Conab praticamente zerados. Tudo isso mais o aumento generalizado de preços dos produtos da cesta básica, entre eles a dobradinha arroz-feijão, base do sistema alimentar dos brasileiros durante a pandemia.

Mas a covid-19 não pode ser considerada o principal vilão dessa história, até porque o crescimento da fome registrado pelo IBGE ocorreu antes da pandemia. Os avanços na erradicação da fome se deveram, no passado, à implantação de uma política de segurança alimentar e nutricional a partir de 2003 no primeiro governo Lula, com a aplicação de políticas públicas de transferência de renda, com os aumentos reais do salário mínimo, com a geração de empregos de qualidade e com a implementação da estratégia Fome Zero, como o fortalecimento dos programas já citados anteriormente que hoje estão à míngua.

Mas a covid-19 não pode ser considerada o principal vilão dessa história, até porque o crescimento da fome registrado pelo IBGE ocorreu antes da pandemia

O que de fato aconteceu? Infelizmente, o combate à fome deixou de ser prioridade de governo depois de 2016. Como o Brasil é um grande produtor e exportador mundial de alimentos, muita gente – incluindo o atual presidente da República – confunde as coisas e correlaciona a nossa alta produção de alimentos com a ausência da fome no nosso país. Açúcar, café, suco de laranja, carne bovina e de frango, milho e soja são apenas alguns dos produtos onde o Brasil é o maior (ou o segundo) produtor e exportador mundial hoje em dia. Ocorre que, a fome no Brasil, como na maior parte do mundo, não é oriunda da falta de alimentos produzidos, mas de alimentos consumidos dada impossibilidade dos mais pobres de ter acesso a eles.

Em poucas palavras, não faltam alimentos, mas falta dinheiro para comprá-los! Os dados da FAO mostram que produzimos mais do que o suficiente para alimentar a todos com uma dieta mínima e ainda se joga fora cerca de um terço do que produzimos, acentuando de forma desnecessária o impacto da agricultura no meio ambiente.

Esse não é o único paradoxo do caso brasileiro de existir fome num país com abundância de produção de alimentos. Além disso, temos também 20% da nossa população adulta obesa e outros tantos com sobrepeso. É o outro lado da mesma moeda: comemos pouco e muito mal. Fome e obesidade são dois extremos de um contínuo de má nutrição, que afeta os brasileiros por falta de uma política ativa de educação alimentar.

O governo Bolsonaro segue com o desmonte do que ainda restou da política de segurança alimentar implantada no Brasil a partir do primeiro governo Lula

Com a pandemia, vimos multiplicar os programas de rádio e de TV procurando ensinar as pessoas a fazerem comida em casa. Essa situação emergencial deveria ser uma prática permanente, como parte das ementas escolares já a partir do ensino fundamental. Somos um país de obesos e de pessoas acima do peso porque comemos muito açúcar, sal, gorduras saturadas contidos em alimentos ultraprocessados de baixo valor nutricional e muitas farinhas de todos os tipos de alto teor calórico, mas baixo conteúdo proteico.

Mas porque o governo Bolsonaro segue com o desmonte do que ainda restou da política de segurança alimentar implantada no Brasil a partir do primeiro governo Lula, ainda mais agora quando uma boa alimentação é arma fundamental para prevenir a covid-19? Já está mais do que provado que a obesidade, junto com a idade mais avançada, estão entre as mais graves comorbidades associadas à doença.

Orientar as pessoas a comerem bem, de forma saudável e nutricionalmente balanceada, é dever de Estado. Esse direito humano à alimentação saudável está inscrito na nossa Constituição, e deveria ser zelado por todos os governos, independentemente de afiliação político-partidária. Não encontro outra resposta: existe uma crença cega e dogmática na atual administração federal de que a alimentação é um problema de cada um de nós e que o governo não tem nada a ver com isso. Pior: de que não deve atrapalhar o bom funcionamento da lei da oferta e procura no melhor estilo ultra-neoliberal, onde os mercados são soberanos e devem comandar a economia e a política.

Jose Graziano da Silva foi diretor-geral da FAO e é consultor do Instituto Comida do Amanhã.

Artigo originalmente publicado no jornal Valor Econômico, em 25 de setembro de 2020.

 

 

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