A crise do Rio é a crise do Brasil

Postado por Paulo Cezar Soares | Quinta-feira, 31 de Maio de 2018

 

Artigo publicado no site Brasil247

Por Emir Sader*

O Rio sempre foi o espelho do Brasil. Quem quiser degradar a imagem do Brasil, começa por degradar a imagem do Rio. Quem não gosta do Brasil expressa esse sentimiento ruim, antes de tudo odiando o Rio.

A crise atual do Rio, a mais profunda e prolongada que o Rio já viveu, está intrinsecamente vinculada à mais profunda prologada crise que o Brasil já viveu. E, assim, a crise do Rio só será superada com a superação positiva da crise atual do Brasil.

O apodrecimento do MDB do Rio é apenas um ramo do apodrecimento do MDB em escala nacional. A desagregação do poder público no Rio é uma expressão concentrada da desagregação do poder público nacional.

A estagnação da economia do Rio é um resultado da estagnação da economia brasileira como um todo. O monstruoso desemprego no Rio é parte do monstruoso desemprego no Brasil.

A violência que campeia no Rio é parte indissolúvel da violência que campeia por todo o Brasil. As famílias que, cada vez mais, voltaram a dormir e a viver nas ruas é apenas parte da imensa quantidade de gente passou a viver e a dormir pelas ruas e praças de todo o Brasil.

Todos sabem que as políticas federais que promovem a retração da Petrobras em seus investimentos, do BNDES em suas políticas de financiamento para o crescimento, da indústria naval, entre outros setores que serviram de instrumentos fundamentais para o crescimento econômico do Rio são fatores fundamentais para sua estagnação e retração econômica. São decisões tomadas pelo governo surgido do impeachment, com efeitos diretos e multiplicados sobre o Rio.

A crise do Rio, assim, não pode ser resolvida só no Rio e pelo Rio. A crise do Rio não será superada se não for superada a crise brasileira. Não será um candidato que ficou famoso fora da política, que tem mandato já há vários anos e não fez nada pelo Rio e nem diz o que pretende fazer, que pode comandar a recuperação do Rio. Tampouco quem fez parte do partido que dilapidou e desmontou o governo do Rio e está fazendo o mesmo com o Brasil, que pode consertar o que eles mesmos desmontaram.

Sem o retorno de um governo federal que se empenhe fortemente na recuperação da Petrobras, do BNDES, da indústria naval, que retome vigorosamente as políticas sociais, que termine de vez com a intervenção militar, que só piora os problemas da violência no Rio, que resgate o potencial de crescimento econômico do Rio, que se empenhe em incentivar e apoiar a extraordinária capacidade criativa do Rio no plano cultural, nas suas distintas dimensões, coordenado com um governo carioca que esteja sintonizado com essas políticas, que o Rio, junto com o Brasil, poderão sair finalmente dessa crise, retomando seu caminho democrático, solidário, de progresso e de felicidade.

Emir Sader - Colunista do 247,  é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros

 

Povo na rua

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 29 de Maio de 2018

Responda com imparcialidade: a intervenção federal no Rio de Janeiro está fazendo algo digno de nota? Ao meu juízo a resposta é não. Tudo não passa de um jogo político. Com exceção de algumas circunstâncias muito específicas, um evento como a Copa do Mundo, por exemplo, os militares não possuem preparo para atuarem administrativamente na questão da segurança. A bandidagem continua atuante - tráfico e milícias - as balas perdidas fazendo suas vítimas, PMs sendo mortos praticamente toda semana, os responsáveis pela execução  da vereadora Mariele e seu motorista continuam soltos. Uma crise sem precedentes na história do Rio de Janeiro.  Grassa o desemprego, a desesperança, o desalento. O mesmo ocorre ocorre no Brasil como um todo. A greve dos caminhoneiros deixou à mostra a incompetência do governo golpista do senhor Michel Temer.

Diante do  caos reinante, o que fazer? O povo tem que ir para as ruas e exigir não só a saída do presidente Temer e sua turma, assim como revogação de todos os seus atos e eleições diretas. Restaure-se a democracia em toda a sua plenitude. Não há outra saída. O sofrimento do povo já extrapolou todos os limites.

Não há mais nada a perder. Só resta a luta. Diante do caos, se tiver que morrer, é melhor morrer lutando do que morrer sem fazer nada.

 

Arquivos da Ditadura e Memória Subversiva

Postado por Paulo Cezar Soares | Sábado, 26 de Maio de 2018

Publicado originalmente no site Amaivos

Por Frei Betto

 As Forças Armadas brasileiras preferem tergiversar a respeito dos arquivos da ditadura. Insistem na versão de que foram queimados. Não haveria nada a ser trazido a público. Ora, impossível apagar a memória daqueles 21 anos de atrocidades.

Mais de 70 anos após o inferno nazista, novos dados ainda vêm à tona. Não será aqui no Brasil que haverão de borrar da história o longo período no qual crimes hediondos foram cometidos pelo Estado, em nome do Estado e por ordem do Estado chefiado por militares, como constam nos documentos da CIA.

À semelhança do genocídio nazista, aqui também vítimas sobrevivem. E jamais haverão de esquecer o tempo em que a arma do Direito deu lugar ao direito das armas. Há mortos e desaparecidos, conforme apurou a Comissão da Verdade, e seus parentes e amigos não admitem que se adicione à supressão de suas vidas o selo indelével do silêncio.

O governo dos EUA, que patrocinou o golpe militar de 1964 e adestrou muitos de seus oficiais, mantém robusto arquivo com o registro das confissões dos algozes. A história é feita de fatos cujos significados dependem de versões. Raramente a versão do poder prevalece sobre a dos vencidos, ainda que esta última demore a emergir, como foi o caso do genocídio indígena cometido por espanhóis e portugueses na colonização da América Latina.

O exemplo emblemático de memória subversiva é a que coloca no centro da história do Ocidente um jovem palestino preso, torturado e assassinado na cruz há mais de dois mil anos. Tudo se fez para que as versões do Império Romano prevalecessem. Os discípulos de Jesus de Nazaré foram perseguidos e mortos, a cidade na qual ele morreu foi invadida e arrasada no ano 70, e os historiadores da época, como Flávio Josefo e Plínio, não lhe dedicaram mais do que uma linha.

Seus feitos e suas palavras, no entanto, não caíram no olvido. As comunidades mediterrâneas que nele reconheceram Deus encarnado preservaram os relatos daqueles que com ele conviveram. Trinta anos depois de o pregarem na cruz, as narrativas, hoje conhecidas como evangelhos, se difundiram. O que se tentou apagar veio à luz.

As Forças Armadas brasileiras podem insistir em não separar o joio do trigo, ao contrário do que fizeram os militares da Argentina, do Uruguai e do Chile, que se livraram do estigma de cumplicidade com o horror. Jamais, porém, haverão de apagar da memória nacional as graves violações dos direitos humanos cometidas pela ditadura.

O pacto de silêncio não cala a voz da história. A memória subversiva não confunde anistia com amnésia. Somente o silêncio das vítimas poderia salvar os algozes. Mas isso é impossível. O grito parado no ar ressoa. E exige justiça.

É preciso agir

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 23 de Maio de 2018

Há alguns dias, durante uma conversa informal com um colega fotógrafo a respeito da violência urbana carioca, na sua opinião a imprensa não deveria divulgar o numero de PMs que são mortos pela bandidagem. Sabe-se que a maioria dos bandidos são estimulados a matar PMs e, na sua alienação de robôs desgovernados, executam os policiais pelo simples fato de serem policiais. E quando leem nas páginas policiais dos nossos o jornais o número crescente de PMs mortos, as estatísticas ano a ano, devem comemorar. A que ponto chegamos!

A ideia do meu colega a princípio não é ruim. Penso que vale a pena ser discutida com seriedade. Não há processos em segredo de justiça? Caso seja colocada em prática pode ajudar a combater o problema. A despeito da grave crise econômica que o Estado está enfrentando, com a policia sem condições de desempenhar seu trabalho de forma mais efetiva por causa da infraestrutura deficiente em todos os quesitos- treinamento, equipamentos, viaturas adequadas, melhores salários - alguma coisa tem que ser feita. Não adianta ficar só lamentando.

Golpe do falso sequestro se moderniza e continua a fazer vítimas

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 22 de Maio de 2018

Mesmo com a ampla divulgação da modalidade de crime, muita gente ainda cai na lábia dos bandidos. Há uma semana, adolescente acreditava que avó e mãe tinham sido sequestradas

Reportagem publicada no jornal O DIA

Por Adriano Araujo

Há duas semanas, um adolescente de 16 anos recebeu um telefonema assustador. Sua avó havia sido sequestrada e os bandidos queriam joias e outros pertences valiosos para pagar o resgate. O jovem foi vítima do golpe do falso sequestro, e permaneceu 10 horas sob forte pressão psicológica, ao mesmo tempo que sua mãe também era enganada: por meio de uma conferência telefônica, os criminosos a fizeram acreditar que seu filho é quem estava em apuros e exigiram dinheiro para “libertá-lo”.  O caso mostra que a ampla divulgação dos cuidados para não cair no golpe não impede que pessoas de todas as idades continuem caindo na armadilha.

A forma como mãe e filho foram envolvidos no golpe chamou a atenção da Divisão Antissequestro (DAS). A ordem para ambos era dizer que estavam bem e que o outro deveria fazer o que eles mandassem. “Isso ocorre por conta da tecnologia, é uma modernização do golpe original, um outro mecanismo para fazer as vítimas acreditarem que o sequestro é real”, explica o delegado Cláudio Gois, chefe da DAS.

Morador da Zona Oeste, o adolescente foi aterrorizado pelos bandidos pelo telefone e recebeu ordem para não entrar em contato com a polícia ou familiares, ou a avó teria o braço arrancado. Ao chegar em casa, a mãe encontrou o quarto revirado.

“Ninguém conseguiu falar com ele o dia inteiro. Quando a mãe chegou em casa e viu tudo bagunçado, ficou desesperada. Depois ligaram para ela dizendo que estavam com ele e ela saiu para sacar dinheiro no banco”, contou o pai do garoto, que não quis se identificar.

Com auxílio tecnológico, os policiais da DAS conseguiram localizar o rapaz e a sua mãe. Ele foi encontrado no Madureira Shopping, por volta das 22h, após ter entregue um cordão de ouro e uma quantia em dólares a criminosos em Rocha Miranda. Já a mãe foi interceptada em Inhaúma, a bordo de um táxi que pegara no Aeroporto Internacional Tom Jobim, no Galeão, onde fora para sacar dois mil dólares. Ela já tinha transferido cerca de R$ 1,5 mil para os bandidos, mas eles exigiram mais dinheiro.
A investigação da DAS já identificou o presídio de onde vieram as ligações e está próximo de identificar os envolvidos no crime. Para não atrapalhar, as diligências são realizadas em sigilo.

Golpes são impedidos pela polícia

De acordo com Cláudio Gois, os casos de falso sequestro que chegam à DAS sempre são impedidos e, muitas vezes, os agentes conseguem descobrir os criminosos. Por isso, ele reforça a importância de procurar a polícia, em qualquer delegacia, e fazer a denúncia. ”Os criminosos fazem muitas ligações antes de conseguirem uma que dê certo. O importante é que qualquer pessoa que receba um destes telefonemas não tome nenhuma atitude antes de tentar contato com a pretensa vítima. Caso não consiga avisar o fato a familiares e ou amigos, tem que se dirigir imediatamente a uma delegacia policial”, reforça o chefe da DAS.

Não existem números disponibilizados sobre casos de falso sequestro, já que ele é tipificado como extorsão, o que engloba outras modalidades de crimes, segundo dados do Instituto de Segurança Pública (ISP). A maioria das ligações são feitas das cadeias e conta com a participação de pessoas de fora da prisão.

DAS recebeu ligação de golpistas

Recentemente, uma das chamadas realizadas por bandidos de forma aleatória caiu numa linha da própria Divisão Antissequestro (DAS). O agente que atendeu a ligação entrou no jogo dos golpistas, que estavam presos em um presídio. Os policiais marcaram um encontro para entregar o “resgate” e um taxista acabou preso. Três detentos de uma cadeia de Japeri foram identificados e cada um tinha uma função: um imitava a voz da “mulher sequestrada”, um fazia as ameaças, enquanto um terceiro emprestou o aparelho telefônico para a realização do golpe. 
 

 

Guerra civil

Postado por Paulo Cezar Soares | Sábado, 19 de Maio de 2018

Às vezes, a frieza dos números, das estatísticas, não retratam com exatidão a dura realidade de determinadas situações. É o caso, por exemplo, de certas características da violência urbana do Rio de Janeiro, há décadas uma mazela que é uma espécie de cartão postal às avessas. No último dia 17, o jornal O Globo,  em um dos seus editoriais o tema foi o número alarmante de tiroteios e balas perdidas que, no último dia 14, a vítima foi um bebê que estava no interior de um colégio.

O editorial é oportuno e objetivo, manda a verdade que se diga. E, no último parágrafo, faz um apelo ao gabinete de intervenção militar “que precisa ter um plano específico para o problema”.

Mas a solução não é uma tarefa fácil. Trata-se de um problema complexo e amplo, não restrito apenas aos quesitos da repressão. E, além disso, todo o trabalho da área de segurança do Estado - como de resto de todas as áreas - enfrenta circunstâncias adversas, em função da falta de dinheiro. O Rio está falido, tanto do ponto de vista econômico - e também moral. As instituições não funcionam a contento. Grassa o desemprego, e a maioria do povão está vivendo praticamente entregue à própria sorte. O quadro é tenebroso, triste. Diante disso, a polícia, mal remunerada e mal treinada, pouco pode fazer. Espera-se que o caos que o Rio está enfrentando sirva de lição para os membros da nossa elite e nossas autoridades.

O preconceito de classes levado às últimas consequências e a exclusão social são as sementes do abismo que o Rio enfrenta - e o país também.  Ou respeita-se os postulados democráticos na marca, em toda a sua plenitude, sem jogo de bastidores, sem ilações, sem golpes, ou então, teremos num futuro próximo, uma guerra civil.