Problema Retroalimentado

Postado por Paulo Cezar Soares | Quinta-feira, 20 de Setembro de 2018

 

 Artigo publicado na última terça-feira no Jornal do Brasil - muito bom, manda a verdade que se diga - com o título Muito Além da Intervenção Federal, autoria de Luiz Carlos Cavalcante que, além de agente da Polícia Federal, é também vice-presidente do Sindicato dos Servidores do Departamento de Polícia  Federal do Estado  do Rio.
Texto claro, objetivo, que vai direto ao ponto, questiona a eficiência e o custo da intervenção militar na área da segurança pública do Rio  de Janeiro.

As medidas adotadas até momento, de acordo com o articulista, “não foram capazes de interferir na dinâmica do  tráfico  de drogas e no poder pararelo atuante em alguns  territórios, onde grupos de criminosos, sob o regime da violência, decretaram uma espécie de novo regime político de governança. É o mais do mesmo ou o chamado museu de grandes novidades. Perfeito!   

 Compartilho com a opinião do autor, quando ele diz que “as propostas dedicadas à estruturação e ao fortalecimento das corporações policiais capazes de criar melhorias para o  trabalho policial não ganharam prioridade sob o regime da intervenção federal.” E ressalta no penúltimo parágrafo. “Perde-se com isso oportunidade ímpar para configuração de uma nova visão  de defesa social, que inclui a implementação do Ciclo Completo de Polícia  e a valorização do servidor de segurança pública, com a criação da carreira única como ingresso, por concurso público, exclusivamente na base das corporações. Como já vem ocorrendo através de iniciativas em Alagoas e no Piauí, onde já se discute abertamente a carreira única nos moldes do Federal Bureau of Investigation (FBI); e em Santa Catarina, com o Termo Circunstanciado  de Ocorrência (TCO ) elaborado não exclusivamente pela Polícia Civil, um caminho sem volta para o sistema do Ciclo Completo da Plícia”.

Entra governo, sai governo, e ninguém consegue mudar a história da segurança pública do Rio. E quando a situação tende a ficar fora de controle, o governo apela para as Forças Armadas. Um ciclo vicioso. E inoperante! 

Caso Marielle pode fazer parte da lista dos crimes sem solução

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 17 de Setembro de 2018

 

A partir do final da década de 70, um detetive ganhou notoriedade no Rio de Janeiro. Desvendou diversos crimes, entre eles, o assassinato de Claudia Lessin Rodrigues, em 1977, violentada e estrangulada, irmã da atriz Márcia Rodrigues, crime que teve repercussão nacional e virou filme - O Caso Claudia. Refiro-me a Jamil Warwar. De temperamento calmo, fala mansa, não usava métodos violentos no seu trabalho. Discordava da filosofia facista que bandido tem mais é que morrer.

Lembrei dele na última sexta-feira, dia 14, quando completou seis meses do  assassinato  da vereadora Marielle Franco, e do seu motorista Anderson Gomes, crime ainda não desvendado e sério candidato a entrar na lista de crimes não solucionados, como por exemplo, o sequestro do menino Carlos Ramires da Costa, ocorrido no Rio de Janeiro, em 1973. O sequestrador não apareceu no local marcado para pegar o dinheiro do resgaste e Carlinhos jamais foi encontrado, assim como o corpo do ajudante de pedreiro Amarildo Dias de Souza, morador  da favela  da Rocinha, Zona Sul do Rio, que desapareceu após ter sido levado por PMs da Unidade de Polícia Pacificadora - UPP - local para “averiguações”. O caso, que ganhou repercussão internacional, ocorreu em 14 de julho de 2013. Embora os responsáveis tenham sido presos, o corpo de Amarildo não foi encontrado. Um cadáver insepulto.

  Com o seu talento e criatividade para o trabalho investigativo, Jamil certamente já teria descoberto os assassinos de Marielle, cujas investigações têm sido mantidas no mais absoluto sigilo. Isso é bom: evita especulações, polêmicas desnecessárias que não levam a nada. Só servem para vender jornal. Mas, a despeito disso, seis meses é tempo mais do que suficiente para desvendar o crime.

 “Não xiste crime perfeito; existe investigação bem feita” - Jamil Warwar

“Cada macaco no seu galho”

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 11 de Setembro de 2018

 A intervenção militar no Estado do Rio de Janeiro, prevista para acabar em dezembro próximo, não ocasinou nenhuma novidade digna de nota, ou seja: os bandidos continuam  atuando  com desenvoltura, exibindo seus fuzis nos bailes de funk que varam a madrugada, num flagrante desrespeito aos moradores das favelas. A violência se manifesta em qualquer hora e lugar

Os militares têm feito o que é possível fazer diante do mais sério problema diante do qual o carioca convive há décadas - a violência urbana. E neste momento tudo fica ainda mais complicado, pois o Estado enfrenta uma crise econômica sem precedentes.

Tropas militares devem ser chamadas apenas em ocasiões muito específicas, como por exemplo, ajudar na segurança de uma Olimpíada ou de um evento de grande porte.

Virou moda chamar os militares para combater a violência urbana em alguns Estados. Isso tem que acabar. Entre outras coisas, por uma questão de economia.

No caso em tela, convém colocar em prática o dito popular - cada macaco no seu galho.

Como Semear a Violência

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 3 de Setembro de 2018

Artigo publicado no site Amaivos

Frei Beto

Tome-se um país de 208 milhões de habitantes. Desses, 104 milhões e 200 mil se encontram em idade laboral. Mas o país não oferece trabalho para todos. Estão desempregados 12 milhões e 966 mil. E 65 milhões e 642 mil se encontram fora do mercado de trabalho. (IBGE 31.07.2018). De que vive tanta gente?

Desses 65,6 milhões que não estão empregados nem à procura de empregos, há jovens que preferem se dedicar aos estudos, aposentados e desalentados, ou seja, os que cansaram de buscar emprego. Vivem de quê?

Qualquer anúncio de vagas de emprego atrai milhares de pessoas. Filas quilométricas se formam. A maioria deixa o local sem contratação. São mulheres chefes de família que, ao declararem terem filhos pequenos, são preteridas; jovens sem qualificação profissional; analfabetos funcionais (eles são 15 milhões no país, pessoas com mais de 15 anos que mal sabem ler e escrever).

Hoje, são 17,9 milhões de trabalhadores sem carteira assinada. E o número de trabalhadores com carteira assinada no Brasil é de apenas 35,9 milhões.

O rendimento médio mensal dos trabalhadores ocupados gira em torno de R$ 2.095. Como comparação, o salário mínimo necessário, calculado pelo DIEESE, deveria ser de R$ 3.674 – quase duas vezes mais que a renda média dos ocupados, e quase quatro vezes o salário mínimo nacional, de R$ 954,00. Ou seja, somos uma nação de salários muito baixos.

Um dos fatores que levam empregadores a diminuírem contratações com carteira assinada é a reforma trabalhista do governo Temer, que “flexibilizou” (leia-se: precarizou) as condições de trabalho e aumentou os direitos dos patrões ao reduzir os dos empregados.

Ora, se há cerca de 105 milhões de pessoas em idade laboral no Brasil, das quais 12,9 milhões estão sem emprego e 65,6 milhões sobrevivem da economia informal; se há 15 milhões de analfabetos funcionais; se 63,6 milhões de brasileiros(as) são considerados “ficha suja” pelo mercado, enquadrados no SPC por endividamento; o que esperar do futuro desta nação? O Unicef divulgou, em 13 de agosto, que 60 milhões de crianças e jovens brasileiros vivem na pobreza.

No Enem de 2017, a nota máxima em redação era 1.000. Foram entregues 4 milhões de redações. Apenas 53 mereceram a nota máxima. Como obter emprego qualificado e salário digno quando sequer se sabe redigir?

Para muitos jovens semianalfabetos e excluídos do mercado de trabalho – e eles são milhões – a “saída” é ingressar na criminalidade, em especial no narcotráfico. Não adianta o governo atuar apenas nos efeitos, como aumentar o efetivo policial e multiplicar o número de cadeias. Há que enfrentar as causas. A principal delas é a desigualdade social, seguida da falta de escola pública gratuita e de qualidade.

Segundo o Fórum Brasileiro de Segurança Pública, em 2017 ocorreram 63.880 assassinatos no Brasil. São 175 mortes por dia! Em comparação com 2016 houve aumento de 2,9%.

Como deter essa escalada da violência? Entregando uma arma a cada cidadão, como propõe certo candidato à presidência da República? Instituindo a pena de morte? Ora, se tais medidas fossem eficazes os EUA não seriam um país violento, com a maior população carcerária do mundo: mais de 2 milhões de prisioneiros (o Brasil ocupa o terceiro lugar, logo após a China).

Conclusão: para semear a violência bastam um governo desprovido de políticas sociais; o ensino sucateado; leis trabalhistas que protegem o capital e prejudicam o trabalhador; políticos indiferentes ao bem comum; e cidadãos incapazes de transformar sua indignação em luta por um país melhor.

violência urbana: prioridade para o novo governador do RJ

Postado por Paulo Cezar Soares | Sábado, 1 de Setembro de 2018

 

O candidato que vencer a eleição para o governo do Estado do Rio de Janeiro será obrigado  a priorizar a questão da segurança pública. Claro que há outras questões importantes, como o desemprego, a saúde e a educação.  Mas nada  será tão importante quanto melhorar a infraestrutura da polícia, combater os desvios  de conduta na instituição, e fazer com que o carioca ande na sua cidade, em qualquer lugar, com um mínimo de segurança. Este será o maior desafio do novo governador. Tarefa árdua.

O Estado não pode continuar convivendo como refém da bandidagem, com pessoas morrendo, quase todos os dias, vítimas de balas perdidas, fato que já está banalizado.

Que cidade é esta, que um cidadão trabalhador sai pela manhã para comprar pães e é atingido por uma bala perdida? Foi o que ocorreu com o porteiro Nelson Farias Barros, 62 anos, que morreu na última segunda-feira (27). O fato ocorreu pela manhã, por volta das 8hs, no bairro de Triagem, Zona Norte do Rio. De acordo com  a sua filha, ocorreu uma troca  de tiros entre bandidos e PMs que estavam num caveirão. A PM realizava uma operação no Condomínio Morar Carioca, quando foram recebidos a tiros. A corporação nega que os PMs tenham revidado os tiros.

Virar a página

Postado por Paulo Cezar Soares | Sábado, 25 de Agosto de 2018

 

O Rio de Janeiro conviveu, no início dos anos 90, com uma onda de sequestros. A polícia investigava vários ao mesmo tempo. Em 1989 foram registrados 40. Neste ano surge o que se convencionou chamar à época, a indústria do sequestro. Entre 1990 e 95 ocorreram 479 sequestros.

É obvio que pessoas de alto poder aquisitivo eram os alvos principais, como por exemplo, Eduardo Eugênio Gouvêa Filho, filho do presidente da Federação das Indústria do Rio de Janeiro, fato ocorrido em janeiro de 1995. O Rio chegou a ter mais de 100 pessoas em cativeiro. Lideranças empresariais resolveram juntar forças para combater o problema. E, como as principais vítimas eram da elite, medidas objetivas foram tomadas com a rapidez que o problema exigia. Tudo sem alarde, sem divulgação para a opinião pública.

A policia - leia-se Delegacia Anti- Sequestro - conseguiu acabar com a crise que vinha efrentando -  com denúncias, entre outras,  de violência e corrupção - com a indicação do delegado Hélio Luz para dirigi-la, em maio de 1995.” A partir de agora, a Anti-Sequestro não sequesrta mais” - afirmou o delegado.

A partir daí, tudo mudou: aaos poucos a delegacia foi equipada com o que há de mais moderno em termos de tecnologia, e um bom número de policiais altamente treinados. A estratégia deu certo.  A indústria do sequestro foi à falência.

Portanto, quando há vontade política para resolver - sem conotações políticas, ideológicas, ou coisa que o valha - é possível virar a página, ou seja: resolver questões que, à primeira vista, parecem impossíveis.

A mesma estratégia poderia ser usada para combater - sem politicagem - a bandidagem carioca. A cidade pode virar a página da sua pior mazela - a violência urbana.