Operação que vitimou inocentes

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 29 de Agosto de 2017

No último dia 11, o policial civil Bruno Guimarrães Buthler, 36 anos, morreu ao ser atingido por um tiro no pescoço, na favela do Jacarezinho, Zona Norte do Rio,durante uma operação policial. O fato desencadeou uma caçada aos assassinos e a polícia ocupou o local por mais de uma semana, mudando totalmente a rotina dos moradores. Crianças não puderam ir à escola e comerciantes tiveram prejuízo financeiro. 

O clima emocional tomou conta dos polciais. Entende-se a revolta ao perder um colega de trabalho, morto em serviço pela bandidagem. Mas nesta hora, apesar da dor de cada policial, é preciso ter sangue-frio, bom senso e agir profissionalmente, tendo como base as investigações, sem emocionalismos desnecessários que não levam a nada. A presença diária de policiais civis na favela serviu apenas para aumentar o sofrimento dos moradores, já bem espezinhados pela sua condição social, vítimas de um sistema injusto, hipócrita e excludente.

A realização da operação após a morte do policial Bruno acabou ocasionando a morte de três inocentes:Sebastião Sabino daSilva, 46 anos, que ganhava a vida vendendo verduras; o mototaxista André Luis Medeiros, atingido por três tiros e Georgina Maria Pereira. 

O método obsoleto usado no Jacarezinho é bem conhecido dos cariocas. Lembrei-me - guardadas  as devidas proporções -  da chachina praticada na favela  de Vigário Geral - localizada na Zona Norte do Rio -  em 29  de março de 1993, quando 21 moradores, todos inocentes, sem nunca  terem tido nenhuma passagem pela polícia, foram executados de forma aleatória, por um  grupo  de policiais civis e militares denominado Cavalos Corredores, pois  tinham o hábito de entrar em favelas correndo e atirando.

No dia anterior, o sargento Ailton Fereira dos Santos  e mais três policiais foram  até o principal ponto de drogas da favela, comandada à época por Flávio Pires da Silva, o Flávio Negão, com o objetivo de pegar o dinheiro da propina, paga  para aliviar a repressão. Quando chegaram na praça Catolé do Rocha, foram supreendidos por uma emboscada arquitetada por Flávio Negão e seus comparsas, que executaram os quatro com tiros  de AR-15 e de pistolas automáticas. A vingança veio rápida: no dia  seguinte, com a chacina.

O episódio teve repercussão nacional e internacional.

Não é agindo assim que iremos reduzir a violência urbana. É óbvio, dirá o leitor com um mínimo de consciência crítica. E é! Mas às vezes convém ressaltar o óbvio.
   

Mais um PM assassinado

Postado por Paulo Cezar Soares | Domingo, 27 de Agosto de 2017

No último sábado,Fábio José Cavalcante, 39 anos, sargento da PM, foi assassinado por bandidos em São João de Meriti, Baixada Fluminense. Foi o centésimo PM vítima da violência urbana carioca. E ainda faltam quatro meses para o ano terminar. Em que Estado do Brasil isso acontece? Em que país do mundo  um policial é assassinado a cada dois dias?

Como não poderia deixar de ser, a questão tem sido muito falada, analisada em várias instâncias. Mas, infelizmente, não há solução à vista.

Você, leitor, deixaria seu filho entrar para a PM?

Não adianta descobrir um santo para cobrir o outro.

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 23 de Agosto de 2017

 

.As mudanças anunciadas no projeto das UPPs são paliativas, perfumarias. para dizer o mínimo. Pressionados pelos autos ínices da violência urbana, entre eles os roubos de carga, as autoridades da área de segurança do Estado do Rio de Janeiro, como se diz no jargão do futebol, estão jogando para a arquibancada.

A policia de pacificação é uma quimera. E as UPPS, por falta de infraestrutura e policiais mais preparados para a difícil função num terreno hostil, estão desgastadas perante a população. Isso sem contar que o governo estadual não cumpre o seu papel, ou seja: investimento social paa o povão.

     Três mil militares deixarão o efetivo das UPPs   composto por 9.500PMs -  para trabalharem nas ruas. “As comunidades não ficarão desassistidas e os projetos sociais das UPPs serão mantidos” - ressaltou o comandante-geral da Policia Militar do Estado do Rio  de Janeiro, coronel Wolney Dias. As favelas - esse é o nome correto; comunidades é frescura de tecnocrata -  ficarão mais vulneráveis e, em relação aos projetos sociais das UPPs, certamente sofrerão problemas na sua execução


De acordo com o planejado, 1.100 policiais irão para as ruas do Rio; 900 para a Baixada Fluminense; 300 atuarão enm Vias Expressas; 150 para o Batalhão de Turismo e 550 para os municípios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí.
O município de São Gonçalo, que só tem um batalhão da PM, possui mais de um milhão de habitantes. Só perde para a capital. Um dos mais violentos do Estado, onde existe um bairro chamado Salgueiro que, de tão violento, é temido por todos, até mesmo pela polícia. Há décadas é assim. E nossas autoridades nunca fizeram nada. Mas, a despeito disso, as autoridades de segurança colocaram apenas 550 homens para três municípios

  Tudo isso, anunciado com grande destaque nos nossos jornalões, não vai dar em nada.

Não adianta descobrir um santo para cobrir o outro.

Caminhoneiro: profissão de risco

Postado por Paulo Cezar Soares | Sábado, 19 de Agosto de 2017

Coronel diz que os constantes assaltos aos caminhões de cargas podem ocasionar desabastecimento de alimentos no Rio. E critica as Unidades de Polícia Pacificadora - UPPs. A UPP é um projeto falido que está na hora de acabar

Diretor de segurança do Sindicato das Empresas de Transporte Rodoviário e Logística do Rio (Sindicarga), o coronel Venâncio Moura revela que, a partir de 2014 o tráfico de drogas passou a roubar caminhões de cargas, pois viram nessa modalidade de crime um lucro muito maior do  que o tráfico e um risco menor. “No primeiro semestre deste ano já ocorreram 5.502 roubos de cargas O que dá uma média  de 32 roubos por dia. Um aumento de quase 25% em relação ao ano passado” .

A ação dos bandidos ocorre na área do Complexo do Chapadão e da Pedreira, Zona Norte do Rio, conjunto de favelas que serpenteia os bairros de Costa barros, Pavuna, Anchieta, Guadalupe e Ricardo de Albuquerque. “A Pedreira e o Chapadão estão em local estratégico. Próximo à Via Dutra, Washington Luís e Avenda Brasil, onde circulam milhares de caminhões diariamente” - frisa o coronel.

De acordo com dados divulgados pelo Portal Guia do Transportador, em 2014 ocorreram 17.500 roubos de cargas no Brasil. Um aumento siginificativo  em relação ao ano anterior, cujo registro é de 15.200.  À época, as cargas mais procuradas pelos bandidos eram produtos farmacêuticos,  químicos e autopeças. Mas isso mudou, principalmente no Rio, onde a bandidagem assalta os caminhões, independete da mercadoria.

-  Hoje eles estão pegando qualquer carga porque existe um grande mercado, tanto de ambulantes que estão vendendo produtos roubados,  como no entorno e dentro da própria comunidade. Então, qualquer produto está sendo aproveitado. Não existe mais aquela seleção que havia anteriormente - revela o coronel.

Ex - comandante do Batalhão de Operações Policiais Especiais - Bope -  o coronel Venâncio Moura garante que uma das maiores dificuldades no combate ao roubo de cargas no Rio de Janeiro é a falta de policiamento nas ruas, em função do reduzido efetivo da PM. E critca as Unidades de Polícia Pacificadora - UPPs.

- Foi um grande erro a criação das UPPs, na minha opinião. Hoje nós temos 9.500 homens envolvidos com as UPPs. Caso estivessem sido distribuídos pelos batalhões, teríamos efetivo de 800 homens em um batalhão. A média hoje é de 300, 400 homens em um batalhão. É impossível patrulhar toda a cidade. Antigamente, o marginal ficava encurralado na favela e a polícia no asfalto. Quando o bandido descia, geralmente era preso. Hoje as coisas se inverteram; quem está encurralado é o policial lá em cima morro, e os bandidos estão no asfalto. Para que a gente consiga diminuir esses números alarmantes está comprovado que tem que ter policial circulando para diminuir os espaços deles - explica.

Objetivo nas suas colocações,  o coronel diz que a UPP é um projeto falido e que está na hora de acabar. “Outro dia houve uma operação envolvendo centenas de militares e tanques de guerra, no morro Camarista Méier, no Complexo do Lins e São João - Zona Norte do Rio- que são áreas pacificadas. Para que tanque de guerra se a área é pacificada?” - questiona.

Além de mais policiais na ruas para combater os constantes assaltos a caminhões de carga, o coronel compartilha da opinião da ex-chefe da Polícia Civil, e hoje deputada estadual Martha Rocha que, num artigo publicado num jornal carioca em maio último, sugeriu que a Delegacia de Roubos e Furtos de Cargas fosse transformada em Divisão de Roubos e Furtos de Cargas, com maior estrutura de recursos humanos e tecnológicos.

 - Acho  uma ideia excelente porque hoje a Delegacia de Roubos e Furtos de cargas , responsável por todo o Rio de Janeiro é composta por 60 policias. Divididos em escala de serviço e com o volume de roubo de cargas que nós enfrentamos atualmente é impossível  eles prenderem grandes quadrilhas e receptadores. Com a criação de uma Divisão, como existe hoje a Divisão de Homicídios, que coordena ações de várias delegacias, isso daria mais condições para investigar e prender os responsáveis pelos roubos de carga. Da forma que está hoje é praticamente impossível  os policiais obterem bons resultados. 

A violência urbana expande seus tentáculos em várias direções: os assaltos a caminhões de cargas é um deles. O Rio em particular, e o país como um todo, têm sido prejudicados.  O mesmo ocorre com as empresas. Muitas não querem mais enviar cargas para o Rio.

- As empresas de fora do Rio de Janeiro estão  negando a entregar seus produtos para o  Rio  de Janeiro. Não só porque os motoristas estão em pânico, pois só no Rio os roubos ocorrem com a violência de traficantes de drogas. Os motoristas são feitos de reféns, levados para dentro das comunidades enquanto descarregam a carga, uma situção dramática para os caminhoneiros que não estão acostumados a conviver com  esse tipo de crime nos estados deles - lembra o coronel.

Por parte das empresas as seguradoras já não querem renovar a apólice de seguro.Determinadas cargas não são mais asseguradas. E o empresário não vai arcar com os prejuízos. A tendência é: ou fecha as portas, ou deixa de transportar para o Rio de Janeiro.

Em junho último mais de cem caminhoneiros realizaram um protesto - organizado pelos empresários do setor de carga - na Avenida Brasil, cujo objetivo foi pedir ajuda do governo federal. Mas até agora nada foi feito. E a crise não dá trégua. Amplia-se cada vez mais 

 - Quando a seguradora renova a apólice, dobra o preço - dobra o valor do seguro, dobra a franquia. E isso tudo é repassado para o consumidor final, que somos nós. As pessoas não  estão percebendo, mas os produtos acabam mais caros, ou então podem começar a faltar nas prateleiras. A médio prazo  todos vão começar a perceber isso claramente. É inevitável - adverte o coronel.

Burocracia ampliada

Postado por Paulo Cezar Soares | Domingo, 13 de Agosto de 2017

Já fiz referência aqui neste blog a respeito das tornozeleiras eletrônicas. Acho  uma medida desnecessária. Mais do que isso: inoportuna. Nosso sistema prisional tem vários e graves problemas. Jamais deveria estar gastando dinheiro com as tornozeleiras.

O preso que está cumprindo prisão no regime semiaberto ou saiu para passar o Natal em casa, por exemplo, caso ele queira descumprir as regras, não será uma tornozeleira que irá impedi-lo. Como já aconteceu.

Grande parte dos Estados estão com problemas com os fabricantes das tornozeleiras, que não têm sido enviadas por falta de pagamento.  Quem fica prejudicado com isso é o preso. Muitos estão aptos para deixarem temporariamente a prisão  - ou cumprir prisão domiciliar - mas não podem sairr porque não há tornozeleiras suficientes.

Burocratizou-se ainda mais o sistema prisional. Coisa de tecnocrata. Quem lucra com as tornozeleiras eletrônicas?

O país precisa de iniciativas que ajudem a resolver os problemas, e não complicá-los ainda mais.

Em relação aoassunto em tela, se os presos continuarem sendo prejudicados, podemos ter rebeliões em várias unidades prisionais.

O mais sensato é abolir as malditas tornozeleiras.

Ao fim e ao cabo, não servem para nada.  

Até quando o povão vai continuar sofrendo?

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 7 de Agosto de 2017

 

Quando os maus sobem ao poder, o povo se esconde de medo; quando eles caem do poder, o número de pessoas honestas aumenta (Provérbios 28.28)

Não raro, leio opiniões de alguns policiais afirmando que a bandidagem perdeu o medo da polícia. Mas perderam o medo por quê? Particularmente, prefiro trocar medo por respeito. A análise é ampla, abrange vários campos de atividade. No âmbito deste artigo, de forma resumida, vou analisar alguns deles.

Em primeiro lugar, condição fundamental, para combater a violência urbana é preciso deixar de lado qualquer tipo de preconceito e medidas ao arrepio da lei. Caso isso não seja feito, nada dará resultado, e o Rio de Janeiro vai continuar convivendo com a violência de forma cada vez mais intensa. Vale para todo o Brasil, diga-se de passagem.

Outros pontos que precisam mudar com urgência: a falta de treinamento mais intensivo para policia - não é possível que o cidadão, ao ingressar na PM, faça  apenas seis meses de curso e treinamentos, e depois seja designado para trabalhar numa UPP qualquer - melhorar a infraestrutura, com equipamentos e armamentos, melhores salários e, claro, um combate sem tréguas contra a corrupção, fato que ao longo do tempo desgastou,  e continua desgastando a imagem da polícia - tanto civil quanto militar - perante a população.

Além disso, o que não é pouca coisa, a violência urbana tem  se ampliado de forma sistemática pela falta de investimentos sociais para os mais necessitados por parte das nossas autoridades, omissas e preconceituosas, para dizer o mínimo, quando o assunto diz respeito ao povão. A cidade foi praticamente toda remodelada para a Copa do Mundo e as Olimpíadas - tem trenzinho circulando pelo centro  da cidade - mas para a raia miúda - nada 

Quando um governo toma medidas sem levar em conta o interesse público, a conta sempre chega. A violência, como tudo na vida, tem um motivo. Ela não surge do nada. 

Quando o saudoso governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola (1922-2004)  implantou os Cieps, verdadeira revolução educacional, onde as crianças passavam o dia inteiro na escola, e não nas ruas. E, antes de irem embora, por volta das 18hs, primeiro lanchavam e depois saíam.

 Mas, o que deveria ser incentivado, pois não existe investimento maior do que a educação, sofreu toda a sorte de críticas por parte das nossas elites. Só os filhos deles têm direito em estudar em boas escolas. Infelizmente, com a saída de Brizola do governo, acabaram com os Cieps. Caso os Cieps tivessem recebido por parte de outros governos o apoio e o investimento necessário, certamente o Rio de Janeio hoje estaria vivendo uma outra história. Nossos jovens que fazem parte da base da pirâmide,socialmente falando, estão  sem perspectivas, num país onde grassa o desemprego. São cooptados com facilidade para o tráfico, que se fortalece e amplia seus tentáculos.

A verdade é essa! O resto é discurso inócuo e de perfil tecnocrata, como por exemplo, do ministro da Defesa, Raul Jungmann.

O povo está cansado de discursos Quer soluções.

Solução existe. Mas tem que mudar o foco. Não será com um governo golpista que iremos avançar. Portanto, o primeiro passo para mudar tudo isso que ai está, é a realização de eleições diretas. Caso contrário, o sofrimento vai continuar.