Só polícia não resolve!

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 31 de Outubro de 2016

Há coisas que só acontecem ao Botafogo. A frase é conhecida no mundo do futebol. Pode ser adaptada para o Rio de Janeiro. Senão, vejamos: há algum tempo um cidadão foi assaltado. Ao se encaminhar para a delegacia foi  assaltado de novo; durante um velório, o morto foi atingido por uma bala perdida; o ator Older Cazarré, 57 anos, também foi vítima de uma bala perdida, que o atingiu quando estava dormindo em seu apartamento, no bairo de Copacabana, Zona Sul do Rio;  o casal resolve ir a um circo. Sentado na arquibancada, alegre e descontraído ao lado  da sua amante, o cidadão foi atingido por uma bala perdida. O tiro partiu de um morro próximo ao circo.

Na última sexta-feira ocorreu o enterro de Bruna Lace de Freitas, 21 anos, no Cemitério de Inhaúma, Zona Norte do Rio. Bruna foi mais uma das inúmeras vítimas de bala perdida. Foi atingida  dentro da sua casa, na frente da sua filha de 2 anos, no bairro Engenho da Rainha, também localizado na Zona Norte do Rio. Evangélica, morava na favela e, com medo dos tiroteios, intensos e praticamente diários, resolveu mudar para o “asfalto”, em busca de mais  segurança.

Assim como Bruna, Kátia Hamed Garcia deixou o bairro Adriana, em Campo Grande, Zona Oeste do Rio, com o objetivo  de fugir da violência e foi para Copacabana, Zona Sul da cidade, onde foi baleada por assaltantes quando saía das Lojas Americanas. Levada para o hospital Miguel Couto na Gávea, Zona Sul do Rio, foi operada e, na última sexta-feira seu quadro de saúde era estável.

De acordo com o fato em tela, a bandidagem ataca em todos os locais e de várias formas, tanto nos bairros mais pobres, quanto nos mais ricos. Na verdade, todos sofrem com a violência. Independe de classe social. 

Mais repressão e polícia, só polícia, não vai resolver a questão que, a cada ano que passa fica pior. Evidentemente, não há solução fácil, como alguns advogam, achando por exemplo, que a pena de morte é a solução para o problema.
Uma sugestão para nossas autoridades: um bom caminho seria passar das promessas para a ação, ou seja: respeitar os moradores das favelas e realizar investimentos sociais dignos de nota, que posam de fato mudar a vida das pessoas.

 

Em tempo: Parabéns pela vitória, senador Marcelo Crivella. Boa sorte no novo cargo!    

Reformas já!

Postado por Paulo Cezar Soares | Quinta-feira, 27 de Outubro de 2016

Você deixaria seu filho fazer concurso para a PM carioca? Penso que não. Por todos os problemas que a envolvem, entre eles, a corrupção e a morte de policiais pela bandidagem, qualquer pai digno desse nome iria de todas as formas tentar demover o filho da ideia.

E sugerir um outro tipo de trabalho, menos perigoso e estressante. E, claro, com uma  remuneração melhor. Segundo dados da Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj,) de janeiro a outubro 115 policiais - civis e militares - foram mortos e 556 feridos.

A credibilidade da PM perante a população é ruim. Fato que afeta a autoestima da tropa. E acaba criando graves entraves para reivindicações de todos os matizes diante do Poder Público.

Alguns estudiosos da segurança pública defendem a extinção da PM. Argumentam que, no seu lugar, deveríamos ter uma polícia fardada. Respeito a opinião dos que advogam a tese. Por ora, penso diferente, ou seja: sou contra a extinção. Mas defendo uma reforma geral. Não dá para continuar retroalimentando os mesmos problemas de sempre.

O momento talvez não seja o mais adequado por causa da grave crise ecnômica que o Estado está enfrentando. Mas, a despeito disso, muita coisa pode ser feita sem envolver grandes gastos. O importante é que, do soldado ao coronel, todos defendam reformas estruturais. Entre elas, aumentar o período  de treinamento dos novatos. E maior valorização dos PMs experientes.

Acomodar-se ou ficar omisso diante do quadro atual não é bom para ninguém. Ao fim e ao cabo todos perdem - os policiais e a sociedade.

Portanto, reformas já!

Ternura e compaixão

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 24 de Outubro de 2016

1) Diante da tragédia ocorrida em São João  de Meriti, na Baixada Fluminense, na quarta-feira (19), quando a família de um sargento da PM foi assassinada a golpes de faca e enxada. Na sua fúria macabra, o assassino usou também o estrangulamento. Além da mãe e do irmão do sargento, não poupou as duas crianças que viviam na casa, assim como os dois cães. 2) Diante de um humilde trabalhador que, depois de 12 anos trabalhando numa instituição estadual carioca, por causa de cinco meses de salário atrasado, os problemas cresceram de uma forma que não deu mais para administrar. Foi expulso de casa pela esposa e hoje mora na rua. 3) Diante de uma mulher de 34anos, moradora no município de São Gonçalo, bairro Lagoinha, Região Metropolitana do Rio, vítima de vários estupros coletivos. O último ocorreu na madrugada da segunda-feira (17) . 4) E diante do taxista Willians Lopes da Silva que agrediu fisicamente a jogadora de vôlei Lucina Severo, do Fluminense, na quinta-feira (20), em Ipanema, Zona Sul do Rio, lembrei do livro Desumanização, do escritor português Valter Hugo Mãe.

O tema é a desilusão com o ser humano. O desencanto com a vida. Em uma entrevista o autor afirma que ficou menos sensível com o passar dos anos. “Deveria ocorrer justamente o contrário”, frisa.

O estado de espírito do escritor é normal. Difícil uma pessoa com consciência crítica não sentir uma revolta interior diante de tanta tragédia, diante da insensibilidade do ser humano, da violência de todos os matizes.

De que adianta o avanço tecnológico que a sociedade tem experimentado, se o ser humano, tudo indica, está involuindo? Falta respeito pelo semelhante, crassa o egoísmo e o preconceito de classe cada vez mais acirrado. A elite demoniza qualquer projeto que tenha cunho social. E aí esta um fato que colabora com a violência. A discriminação, a falta de oportunidades, o preconceito e o racismo, tudo isso gera marginalização, exclusão e revolta. As vítimas partem para a violência e para ações de 171. Ninguém confia em ninguém, as relações interpessoais estão cada vez mais difíceis, os casamentos duram pouco tempo, o sexo promíscuo e as drogas ampliam seus tentáculos e servem como fuga, evasão, diante da crise moral, ética, econômica e política.

 Que sociedade é esta?

Para alguns pode parecer démodé. Tudo bem! Respeito a opinião alheia. Mas estamos precisando urgentemente exercitar a ternura e a compaixão.  

Pense nisso!

A trajetória de Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem.

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 19 de Outubro de 2016

Considerada a maior favela do país, a Rocinha fica localizada na Zona Sul do Rio de Janeiro, vizinha ao Vidigal, uma outra favela, e aos bairros de São Conrado e Gávea. De acordo com o último censo realizado pelo Instituto de Geografia e Estatística (IBGE), realizado em 2010, possui uma população de 70.000 moradores. No local sempre existiu um atuante e lucrativo  tráfico de drogas. Não raro, ocorrem confrontos entre facções rivais.

Foi nesse cenário que surgiu Antônio Francisco Bonfim Lopes, o Nem, um dos mais polêmicos e emblemáticos - como o definiu certa vez o ex-secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame- chefes do tráfico. Seu perfil, ascensão e queda estão retratadas no livro O Dono do Morro - Um homem e a batalha pelo Rio -, do jornalista e historiador britânico, Misha Glenny. Editora Companhia das Letras.

O autor, que entrevistou Nem numa prisão de segurança máxima - Penitenciária Federal de Campo Grande, Mato Grosso do Sul, inaugurada em dezembro de 2006, onde o traficante cumpre pena - faz um histórico do crescimento do tráfico na Rocinha, como a bandidagem foi ganhando estrutura, a corrupção policial que mantém o tráfico e o aumento do volume financeiro e das armas. Com uma apuração primorosa e texto objetivo, que prende o leitor do início ao fim da leitura, o livro revela como Nem, um homem comum e dedicado ao trabalho, muda completamente sua trajetória de vida e entra para o tráfico de drogas da favela. Ao ser preso, em novembro de 2011, era considerado o inimigo público número 1 do Rio.
 
O livro é leitura obrigatória para todos aqueles que desejam saber como o tráfico de drogas ampliou seus tentáculos no cenário carioca, a ponto de dominar o Estado. Deveria ser roteirizado para o cinema.
Quem se habilita?

Trechos do livro

1) À meia-noite e meia, Antônio, com doze anos, voltou do Hotel Intercontinental - uma caminhada de dez minutos, no bairro rico de São Conrado. Ele havia abandonado os estudos para trabalhar. Um de seus serviços era apanhar bolas nas quadraa do Intercontinetal. Trabalhava como boleiro seis horas por dia, a partir das seis da tarde, pegando bolas para os tenistas amadores do Rio. Correr e pegar. Pegar e correr. Em dezoito meses de serviço, os integrantes da elite tenista de São Conrado raramente haviam trocado alguma palavra com o menino, exceto para pedir que pegasse a bola. “ Eu me sentia como um daqueles disparadores automáticos de bolas”,  diz ele, e afasta o pensamento como se fosse algo natural. Os jogadores de tênis a que ele servia faziam parte da classe média alta do Rio, mas, para Antônio, era como se viessem  de outro planeta.

2) No segundo encontro, Nem de fato se abre. Há algumas revelações notáveis. Ele conta um  caso, sobre como certa ocasião mandou que seus soldados entregassem um estuprador à Polícia Militar. Seus homens voltaram e disseram que os PMS estavam exigindo 10 mil  reais.“Não”, respondeu Nem, furioso. “ Não queremos que soltem o cara. Voltem lá e expliquem que a gente quer que prendam ele!” Mas então seus homens explicaram que os policiais queriam 10 mil reais para prender o estuprador. “ Em que tipo de mundo estamos vivendo”, pergunta Nem a Otávio e Renata, em tom desesperançado, “quando a gente precisa pagar a polícia para prender os criminosos?”

A crise será vencida

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 17 de Outubro de 2016

No último sábado, um artigo de Antônio Carlos Costa, fundador da ONG Rio da Paz, publicado no jornal O Globo, com o título - UPP, o colapso do sonho de paz - retrata com  objetividade, sem maiores delongas, discursos preconceituosos ou de cunho partidário, o  desgaste e a perda da credibilidade perante a população, de mais um projeto para a área de segurança.

Por que não deu certo? - pergunta o autor do artigo, que enumera vinte tópicos que contribuíram, como diz o título do artigo - por sinal muito bom, diga-se de passagem - para o colapso do sonho de paz.

Destaco quatro deles, que, na minha opinião, contribuíram de forma decisiva para a atual  crise das UPPs

Topico 3 -  porque não foi dada condição digna de trabalho aos policiais que atuavam na ponta; 14 - porque toleramos sistema prisional transformado em campo de concentração; 17 - porque policiais jovens e despreparados tiveram que lidar com a complexidade da vida na favela, sendo forçados a cumprir tarefas que não são da polícia, num ambiente marcado pelo histórico de violações de direitos humanos cometidas pelos policiais  do passado; 20 - porque julgamos que foi justo e oportuno investirmos fortuna de verba pública em grandes eventos esportivos numa cidade marcada pela privação, exclusão, vulnerabilidade, de milhões de seres humanos.

Não é apenas o projeto das UPPs que enfrenta uma crise. Infelizmente, é todo o Estado do Rio de Janeiro. Diante disso, o povo está sofrendo. Muito! E nesta hora é preciso manter a coragem da esperança. Pouco importa saber de quem é a culpa, embora ela tenha nome e sobrenome.

Críticas à parte, a despeito de todas as dificuldades, em respeito a cada funcionário público em particular, e ao povo carioca, penso que todos devem trabalhar com afinco, na marca, sem mumurações.

A crise será vencida. Creia nisso.

Não desista. Vá à luta.

Que Deus proteja o Rio de Janeiro. E o Brasil.

Boa sorte, secretário Roberto Sá!

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 12 de Outubro de 2016

O intenso tiroteio entre traficantes e policiais ocorrido na última segunda-feira nos bairros de Copacabana e Ipanema, Zona Sul do Rio, deixou à mostra, mais uma vez, a vulnerabilidade das UPPs, projeto que não  teve um acompanhamento, por parte do governo estadual, à altura da sua importância. Questiona-se até que, se o Brasil não fosse sediar uma Copa do Mundo, haveria UPPs?

Já há algum tempo as UPPs necessitam passar por uma profunda reformulação, principalmente no treinamenrto dos policiais, armamentos mais modernos, além de condições de trabalho mais adequadas.

Mas tudo isso no momento é apenas um sonho. Infelizmente! Com o Estado convivendo  com uma profunda crise financeira, os problemas assumiram uma dimensão ainda maior. E não  estão restritos apenas no campo da segurança. Na verdade, o Rio de Janeiro está caminho para o fundo do poço. Ou será que já o alcançou?

Responsável pela Secretária de Segurança Pública do Estado há 10 anos, o secretário José Mariano Beltrame pediu exoneração do cargo e, a partir da próxima segunda-feira, o subsecretário de Planejamento e Integração Operacional Roberto Sá assumirá o cargo.

Tarefa difícil. Não só porque a área da segurança sempre foi o maior problema do Rio  de Janeiro, mas pela crise financeira que o Estado enfrenta, e o momento político difícil que o país está passando, com um presidente sem votos no poder. O futuro é sombrio, para dizer o mínimo.

Secretário Roberto Sá: que Deus ilumine seus passos. Boa sorte!