Quem você prefere morto?

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 27 de Junho de 2016

 Publicado no site Amaivos. Por Frei Betto

Frei Guilherme, professor de filosofia, nos dava aulas de sabedoria. Introduziu-nos no tema “preconceito e discriminação”, evocando Sócrates, Platão e Aristóteles. Frisava: “É fácil saber se nutrimos preconceito ou discriminação a uma pessoa ou grupo social. Basta se fazer a pergunta: quem eu gostaria de ver morto? Talvez você não se imagine portando uma arma e atirando contra quem, por alguma razão, lhe causa repugnância. Mas ficaria satisfeito se outro o fizesse?”

Suas lições me vieram à lembrança por ocasião do massacre na boate Pulse, em Orlando (EUA), na madrugada de 12 de junho. Omar Mateen, de 29 anos, desafogou todo o seu ódio aos gays ao disparar, a esmo, um fuzil e uma pistola. Tirou a vida de 49 pessoas e feriu 53.

É fácil lamentar a morte de tantas vítimas inocentes da homofobia extrema. Difícil é responder no íntimo ao questionamento de frei Guilherme. No entanto, a história está repleta de respostas.

Sócrates foi “suicidado” por priorizar a própria consciência. Jesus, assassinado, por rejeitar o reino de César e preconizar o de Deus. As Cruzadas mataram muçulmanos por não acatarem a autoridade do pontífice romano. A Inquisição levou à fogueira todos os suspeitos de professarem uma crença que não correspondia à ortodoxia católica.

Colonizadores ibéricos dizimaram aldeias indígenas por julgarem que aqueles selvagens nada valiam comparados à prata e ao ouro que se avizinhavam de suas aldeias. Ingleses, portugueses e espanhóis capturaram africanos para escravizá-los em suas colônias, convencidos de que negros são subespécie humana e, quiçá, nem alma possuem. Hitler exterminou milhões de judeus, comunistas, homossexuais e ciganos, por estar convencido de que ameaçavam a pureza da raça ariana.

Talvez um de nós diga: eu não faria nada disso. Contudo, a indagação de frei Guilherme ecoa ainda hoje: daria a sua aprovação a quem o fez? Ora, tão ou mais culpados são aqueles que, por omissão ou aprovação, são cúmplices dos que apontam armas em nome da defesa de gênero, etnia, patrimônio, crença religiosa ou posição política. Aprovam ou ficam indiferentes à exclusão e morte de quem não corresponde ao figurino dos algozes.

Todo preconceito ou discriminação resulta do caldo de cultura aquecido pela cultura necrófila que, aos poucos, destila o veneno do ódio. Quando se admite que um torcedor atire bananas a um jogador negro; um país de cristãos feche as portas aos refugiados muçulmanos; a família tente impedir que o filho assuma a sua homossexualidade; a escola seja criticada por ensinar identidades de gênero; a polícia trate jovens pobres como potenciais bandidos; o fazendeiro adote em sua propriedade trabalho similar ao escravo; então, todos os ingredientes de um caldo de cultura explosivo estão devidamente preparados. E a violência impera.

 

 

Invasão à moda dos gângsteres

Postado por Paulo Cezar Soares | Sábado, 25 de Junho de 2016

 

Até quando a bandidagem vai impor o pânico na cidade?

O principal assunto na área policial que marcou a semana foi a invasão do hospital Souza Aguiar, centro do Rio. na madruagada do último dia 19, por um bando de traficantes armados de fuzis e granadas, com o objetivo de resgatar um assecla, Nicolas Labre de Jesus, 28 anos, que atende pelo apelido de Fat Family, chefe do tráfico no Morro Santo Amaro, bairro do Catete, Zona Sul do Rio, ferido no rosto durante um tiroteio com a polícia.

Ousados e violentos, certamente confiantes na vulnerabilidade do hospital, na saída os bandidos atiraram no carro onde o segurança Ronaldo Luiz Marriel de Souza, 35 anos, estava sendo socorrido pelo soldado PM Fábio Ferreira da Silva, que também foi atingido, o mesmo ocorrendo com o enfermeiro Júlio Cesar dos Santos Basílio, baleado dentro do hospital. Ronaldo Luiz Marriel não resistiu aos ferimentos e morreu.

Houve muita discussão a respeito da omissão da PM que, comunicada sobre a presença - e periculosidade - de Nicolas no hospital, e a possibilidade de um possível resgate, não tomou as providências à altura da importância do caso, que foi repassado pela Delegacia de Combate às Drogas (Dcod), não só para a PM, mas também para os serviços de inteligência da Polícia Civil.

Todo esse imbróglio acabou custando o cargo do comandante do 5º BPM - Praça da Harmonia, tenete-coronel Wagner Guerci Nunes, exonerado pelo secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame.

Não foi a primeira vez - e tudo indica que não será a última - que um marginal é resgastado pelos seus companheiros de crime de um hospital. Mas, a despeito disso, o Estado, burocrático e pouco eficiente, ainda não conseguiu implantar um procedimento padrão para evitar ocorrências dignas de um filme de gângsteres.

Uma cidade com a importãncia do Rio de Janeiro, que será palco de uma Olimpíada, não pode conviver com o nível de insegurança atual. A bandidagem tem agido com uma  desenvoltura assustadora.

Diante do fato em tela, concordo plenamente com o secretário Beltrame, quando afirmou que   “ o Rio é uma verdadeira esculhambação urbanística. ”

E no momento tudo está ainda mais difícil, pois o Estado enfrenta uma crise econômica sem precedentes na sua história.

Orlando ou a vida em contínuo sobressalto

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 20 de Junho de 2016

 

Texto publicado no site Amaivos

Por: Maria Clara Bingemer

Orlando ou a vida em contínuo sobressalto

De novo, o horror, gratuito e inexplicável. Em uma boate gay de Orlando, o afegão Omar Mateen, de 29 anos, disparou sua poderosa metralhadora sobre os frequentadores. Era sábado à noite, o local estava cheio de jovens. Saldo de 50 mortos e 53 feridos. O atirador, casado e pai de família, figura entre os mortos. Quando a polícia entrou, tirou-lhe a vida.

Mais um massacre, mais uma declaração de fracasso da humanidade em sua dignidade. Novamente o relato da dor, as imagens do sofrimento estampadas na mídia. As lágrimas, as mensagens antes da morte, as fotos. Tudo horrível.

Mas o que mais me impressionou desta feita foi ler que a mulher de Omar sabia de seus planos e havia mesmo ido com ele mapear a Disney, lugar onde, pelo visto, ele pretendia realizar outro massacre. Algo o fez optar pela boate gay, mas um dos alvos planejados era a Disney.

Isso me encheu de horror e me convenceu que a vida hoje é um contínuo e ininterrupto sobressalto, um nunca mais ter sossego nem tranquilidade apenas devido ao fato de ser humano e viver neste planeta. Por maior que seja minha implicância contra o parque temático da Disneylandia, que acho fútil, idiotizador, levando seus frequentadores apenas a consumir mais e mais ideologia, brinquedos inúteis e outros fetiches pós-modernos, meu horror persiste por se tratar de um lugar onde comparecem majoritariamente crianças.

Isso revela que Omar Mateen tinha entre seus alvos principais e deliberados crianças da idade de seu filho ou mesmo mais novas. Mapeava o local para fazer seus planos macabros e acionar ali sua metralhadora, se não houvesse sido abatido pela polícia na boate gay. Este lugar onde meus netos já foram mais de uma vez, já que meus filhos não participam de minha antipatia pelo local, podia ter sido o palco onde o atirador pretendia espetacularizar suas frustrações e recalques vários de vida inteira. E com as minhas amadas crianças lá dentro.

É claro que quando penso em meus netos a barbárie me dói mais no peito. Me atinge mais, na medida do amor por eles. Mas o fato é aterrador em si mesmo, ainda que meus netos não fossem personagens, ainda que a tragédia não fosse com os seres que amo.

Um ser humano armar-se com a mais requintada e poderosa das metralhadoras e planejar cuidadosamente o assassinato de pessoas indefesas é algo monstruoso. O fato de que tudo isso possa ser dirigido a crianças é mais monstruoso ainda. Crianças pequenas, incapazes de se defender, pois não têm ainda sequer entendimento. Os frequentadores da boate Pulse também foram tomados totalmente de surpresa. Até porque o atirador frequentava a boate. Apesar de casado, Omar Mateen era usuário de sites de relacionamento gay e frequentador da boate.

Sobre sua vida privada, não queremos nem devemos comentar, embora inevitavelmente detalhes de sua infância e adolescência tenham vindo à tona após o massacre que perpetrou. E esses nos dizem ter sido Omar vítima de cruel e constante bullying na escola que frequentava. A hostilidade dos colegas, que chegava até a agressão física, se devia à sua aparência: gordinho e “de outra raça”, descendente de afegãos. Mais uma vítima da discriminação e do racismo que impera na sociedade onde vivia e que se vinga de sua frustração e sua dor provocando a dor alheia.

Preocupado em afirmar sua masculinidade, Omar Mateen trabalhava como segurança, andava armado, carregava em si todos os símbolos do macho americano. Mas quando a pressão dentro de si ameaçava explodir frequentava sites de relacionamento gays e boates gays. Sua homofobia transbordava em identidade bem próxima daqueles a quem tanto odiava e tanto desejava exterminar e combater. E na boate Pulse, no último sábado, explodiu pela última e definitiva vez, matando os que formavam parte do grupo que lhe ensinaram a odiar, mas ao qual temia pertencer.

Omar Mateen, o assassino de 49 pessoas cuja maneira de amar odiava, é um produto típico do processo para formar homens em um sistema machista. E o adulto Omar, que não hesitou em descarregar sua arma sobre pessoas indefesas e pretendia fazer o mesmo com crianças na Disney, carregava em si o menino machucado pelas cruéis brincadeiras dos colegas sobre sua raça, sua cor, seu corpo.

A impressão é que não estamos minimamente seguros em lugar algum. Queremos proteger os que amamos, mas não temos poder para isso. A qualquer momento pode cruzar nosso caminho um ser cruelmente ferido pela sociedade que construímos. Um ser como Omar Mateen. E seremos as vítimas de nossa própria intolerância, nosso racismo, nosso machismo, nossa aversão às diferenças dos outros. É bom parar enquanto é tempo…se é que ainda é tempo.

 

 

Paz!

Postado por Paulo Cezar Soares | Sábado, 18 de Junho de 2016

A tragédia ocorrida na madruaga do último dia 11, nos Estados Unidos, em Orlando, Flórida, quando um desequilibrado mental, Omar Mateen, 29 anos, portanto uma AR-15 matou 50 pesssoas e feriu 53, na boate gay Pulse, deixa à mostra, mais uma vez, que armas não devem ser vendidas como se fossem um aparelho eletrodoméstico. Espara-se que o fato, que causou comoção no país e no mundo, sirva de alerta e reflexão para aqueles que defendem modificações no Estatuto do Desarrmamento.

Facilitar a venda de armas no Brasil, como defendem os políticos membros da “bancada da bala” , é uma irresponsabilidade, para dizer o mínimo.

O mundo não precisa de mais armas, e sim de paz. 

Estupro Geral

Postado por Paulo Cezar Soares | Domingo, 12 de Junho de 2016

Publicado no site Amaivos

Por Frei Betto

Estupra-se uma moça de 16 anos, em uma favela do Rio, vítima de 33 tarados que, com certeza, tiveram castrada sua escolaridade e qualificação profissional devido ao descaso com que os nossos políticos tratam a educação.

Estupra-se a cidadania com unidades de polícia pacificadora que adentram comunidades carentes disparando a esmo balas que ceifam vidas e são computadas como “perdidas”.

Estupra-se o futuro de milhares de crianças e jovens que, na periferia, veem chegar a polícia e o narcotráfico, mas não escolas, teatros, cinemas, salas de dança, praças de esportes, oficinas musicais e literárias.

Estupra-se a nação quando se lhe impõe uma meta fiscal que amputa o orçamento da saúde e da educação, da cultura e dos programas sociais.

Estupra-se a democracia quando políticos se locupletam em negociatas, estufam os bolsos de propinas, conspiram para sabotar a Lava Jato e ainda promovem um golpe parlamentar para tentar desviar o rumo das investigações.

Estupra-se o contribuinte honesto quando o ajuste fiscal não cria o imposto progressivo e são mantidas desonerações tributárias e juros baixos para empresas e latifúndios que se gabam de sonegar.

Estupra-se a decência pública quando o ministro da Educação recebe um ator de filmes pornôs que lhe propõe, em nome da “moralidade ideológica”, vetar nas escolas qualquer tema de conteúdo político.

Estupra-se a possibilidade de se evitar estupros quando peças publicitárias e programas de TV reduzem a mulher a um atraente naco de carne destinado a servir de isca ao consumismo.

Estupra-se a vida afetiva saudável quando a sexualidade resvala para o prazer descartável a cada nova experiência, e os inacessíveis padrões de beleza causam frustração.

Estupra-se a moral dos jovens quando são mais estimulados à competitividade que à solidariedade; ao alpinismo social que ao interesse pelo bem comum; a valorizar mais o mercado que os direitos humanos.

Estupra-se a subjetividade de uma geração quando, na família e na escola, não há formação ética, a espiritualidade é confundida com religião e as utopias libertárias estigmatizadas como ultrapassadas e nocivas.

Estupram-se os valores quando as amizades virtuais prevalecem sobre as reais, e os apetrechos eletrônicos servem de biombo para se evitar a sociabilidade, a partilha, a ação comunitária, resguardando o usuário na redoma do individualismo egolátrico.

Estupra-se um país quando seus dirigentes são, em maioria, estupradores de cofres públicos, da ética e da democracia, dedicados a fazer na vida pública o que se habituaram a fazer na privada…

 

 

Um Brasil Igual para todos

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 7 de Junho de 2016

O preconceito de classe sempre foi uma das principais mazelas do nosso país. Está entranhado na nossa cultura. Manifesta-se, na maioria das vezes, de forma velada. Anda de mãos dadas com a corrupção e a burocracia. E a violência urbana é fruto de tudo isso.

A vida para as classes populares é mais difícil. Claro, a falta de dinheiro é o principal problema, mas a infraestrutura do país não contribui para elevar o padrão social do povão. Projetos sociais são sempre criticados; rotulados de eleitoreiros ou paternalistas por uma parte  da nossa sociedade.

 Mesmo projetos de sucesso, como por exemplo,  os CIEPS do governo de Leonel Brizola (1922-2004), e de Darcy Ribeiro (1922-1997) -  projeto educacional em tempo integral nunca antes realizado no Brasil, quando entrou o outro governo estadual (Moreira Franco) os CIEPS foram paulatinamente esvaziados e hoje não existem mais. Os prédios servem para outras finalidades. O Bolsa Família do ex-presidente Luiz Inácio da Silva, que durante seus dois mandatos investiu em projetos sociais bem elaborados, sempre foi criticado pelos mais conservadores e por políticos de direita.

O atual governo, do presidente interino Michel Temer está interferindo de forma deletéria em todos os programas sociais petistas, em especial no Bolsa Família e no Minha Casa, Minha Vida. Faz isso em função de um preconceito exacerbado, que gera um ódio a tudo que lhe é diferente, que não faz parte do seu mundinho elitizado. A ponto de demitir um garçom do Palácio do Planalto, que trabalhou para o ex-presidente Lula, e a presidente afastada temporariamente pelo golpe, Dilma Rousseff.

Preferências políticas à parte, você acha isso normal? Como melhorar um país quando um presidente age desta forma? Trata-se, para dizer o mínimo, de uma atitude mesquinha.

Diante de dificuldades de toda ordem, entre elas o desemprego e o subemprego, o povão faz uma verdadeira ginástica para sobreviver.Nas favelas não existe a presença do Estado - com a exceção da polícia. Prevalece a informalidade. Alguns até tentam trabalhar de forma correta, mas muitas vezes a burocracia impede. Abrir qualquer portinha tem que ter uma série de documentos. Muitos apelam para o dinheiro fácil do tráfico de drogas e entram para a vida do crime, da marginalidade. São vítimas quase sempre de uma família desestruturada, e de um sistema injusto e hipócrita, que advoga sempre mais repressão para resolver problemas sociais. Nossas autoridades costumam atacar apenas as consequências dos problemas. E não as causas. Não raro, pessoas que moram em favelas são humilhadas em diversas situações. O fato, entre outras coisas , provoca sérios problemas psicológicos. Há também os constantes tiroteios entre os grupos rivais, e a conhecida violência policial, como por exemplo, a chacina ocorrida em Vigário Geral, Zona Norte do Rio, em agosto de 1993, quando 21 inocentes foram mortos por um grupo de extermínio composto basicamente por policiais, em represália à morte de quatro PMs, mortos por bandidos que se recusaram a continuar dando propina. Caso que ganhou repercussão nacional, o mesmo ocorrendo no desaparecimento  do pedreiro Amarildo Dias de Souza, morador da favela da Rocinha, Zona Sul do Rio, torturado e morto pela polícia, em julho de 2013, cujo corpo jamais foi encontrado.

Como um país pode crescer de forma harmônica, se o governo não investe nas causas sociais? Como evoluir se há nos bastidores um movimento para acabar com vários direitos trabalhatistas? Como não gerar desemprego investindo em privatizações e em arrocho salarial?

A realidade brasileira não vai mudar enquanto prevalecer a visão limitada, mesquinha e reacionária da nossa elite. Demonizar os outros e levar tudo a ferro e fogo não resolve nada. Um país tão desigual e injusto como o nosso não pode dar certo. Até quando vamos conviver com os mesmos problemas - desemprego, menor abandonado, sistema de saúde deficiente, educação precária, entre outros - e, o mais grave de todos, a violência urbana, que atinge a todos, independente de classe social. É preciso mudar paradigmas.

 O Brasil tem que ser um país bom para todos. E não apenas para uma classe de privilegiados. Pense nisso! Sem preconceito e de forma imparcial.