Notas avulsas

Postado por Paulo Cezar Soares | Sábado, 30 de Janeiro de 2016

 

Um Estado a meia bomba - É crítica a situação do Disque-Denúncia. Com problemas financeiros, a instituição, por meio da internet está promovendo uma campanha para continuar funcionando.

 Até quando? - A polêmica envolvendo taxistas e motoristas do UBER está virando um caso de polícia. Por que é tão difícil  resolver esta pendenga? O prefeito Eduardo Paes foi objetivo e corajoso. Proibiu o UBER Mas, infelizmente,  o Tribunal de Justiça do Rio suspendeu a lei sancionada pelo prefeito, que proibia motoristas do aplicativo UBER na cidade.

Para vender bebidas durante a passagem dos diversos blocos que desfilam antes do carnaval, o cidadão tem que se cadastrar. Tem até crachá. Mas os motoristas do UBER não precisam fazer nada. É só colocar o bloco na rua. A lei em questão deveria ser revista. E rápido!

A rotina macabra continua -  Na última quinta-feira, mais um Pm foi morto, ao trocar tiros com bandidos que estavam distribuídos em três carros. O cabo Michael Lopes Cardoso foi aitngido por um tiro  de fuzil. O fato ocorreu no bairro da Pavuna, Zona Norte do Rio.

Numa outra troca de tiros no bairro do Riachuelo, também na Zona Norte da cidade, o sargento Antonio Carlos Paulino da Silva levou um tiro na cabeça. Foi levado para o hospital
Salgado Filho, no Méier. 

PMs do BOPE realizaram ( na manhã  deste sábado, dia 29) uma operação no Morro do Juramento, em Vicente  de Carvalho, Zona Norte do Rio. No local conhecido como igrejinha os PMs encontraram um fuzil, três carregadores de AK 47 e um de 5.56, além de munições e cocaína. Ninguém foi preso.

 Candidato ao Oscar - Você já assistiu o filme Shopligth - Segredos Revelados? O jornalismo realizado na sua essência, ou seja: a serviço do interesse público.

E por falar em jornalismo: é triste ver a grosseria e a falta de educação de alguns comentaristas televisivos. Na Rede TV, o cidadão extrapola todos os limites. O que uma emissora espera ganhar ao exibir um comentarista tão agressivo?

 “Repórter não é policial, redator não é promotor público e editor não é juiz”. ( Frederico Vasconcelos)

O sonho da paz

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2016

 

 Marcelo Barros

Publicado originalmente no site Amaivos

Nessa semana, o mundo inteiro recorda a memória do pastor Martin-Luther King. Nos Estados Unidos, há mais de 50 anos, através de uma ação não violenta, ele conduziu a luta da população negra pela igualdade social e por direitos civis. Enquanto ele vivia, a grande mídia norte-americana tentou destruí-lo de todos os modos possíveis. Depois que foi assassinado, o mundo fez dele um herói e o governo dos Estados Unidos teve de assumi-lo como um dos cidadãos norte-americanos mais importantes do século XX. Atualmente, o dia do aniversário de seu nascimento, 15 de janeiro, é consagrado como feriado nacional e celebrado sempre na terceira segunda feira do mês de janeiro.

Martin-Luther King afirmava: “Uma pessoa que não descobriu nada pela qual aceitaria morrer, não está ainda pronta para viver”. Ele expressou essa causa maior pela qual viver e lutar no discurso, considerado o mais importante feito nos Estados Unidos, durante o século XX. Em Washington, no 28 de agosto de 1963, nos degraus do Lincoln Memorial, ao encerrar a marcha por direitos civis, diante de mais de 200 mil pessoas, o pastor Martin- Luther King afirmou: “Eu tenho um sonho”. Apesar de ter proferidas há mais de 50 anos, suas palavras ainda se mantêm atuais e proféticas. O sonho era viver em um mundo no qual os seus filhos negros pudessem andar de cabeça erguida. Que eles pudessem conviver de igual para igual com seus colegas brancos, frequentar os mesmos colégios e participar dos mesmos ambientes sociais. “Sonho com um mundo no qual meus filhos sejam julgados por sua personalidade e não pela cor de sua pele”. Era o sonho de superar as divisões raciais e sociais que fazem desse mundo um vale de lágrimas.

Apesar das lutas do pastor Martin-Luther King nos Estados Unidos e do bispo Desmond Tutu na África do Sul, a discriminação e a desigualdade continuam a imperar. O racismo contra negros e principalmente se são negros pobres (e a maioria é), continua a ferir o mundo como uma chaga dolorosa. Além do apartheid social e econômico, a discriminação racial ainda continua forte. Nos Estados Unidos, de vez em quando, um policial de raça branca atira friamente em um rapaz pobre, simplesmente pelo fato dele ser negro. Seus familiares choram e os amigos protestam. Mas, a justiça permanece cega e surda. Em Los Angeles, ou outras cidades dos EUA, o ano de 2015 foi marcado por manifestações de massa em protesto contra assassinatos de rapazes negros, cometidos por policiais brancos.

Na América Latina, quase sempre, ser negro é sinônimo de ser pobre. Quase diariamente, no Brasil, adolescentes e jovens são assassinados, simplesmente por serem negros e moradores de periferia. Em geral, a polícia tenta justificar esses assassinatos pelo tráfico de drogas. Quase sempre não há nenhuma prova disso. E se fosse, por isso, a polícia teria direito de atirar friamente para matar? Agora, no dia 30 de dezembro, na rodoviária de Imbituba, SC, o pequeno Vítor Pinto, de dois anos, era alimentado no colo de sua mãe, quando foi assassinado por uma pessoa que se aproximou com uma lâmina que o degolou. A imprensa quase não denunciou esse crime, porque Vítor era um simples índio Kaingang.

Com relação a essa iniquidade, ainda ressoam as palavras do pastor Martin-Luther King: “O que me preocupa não é o grito dos maus. É o silêncio dos bons. Mais do que a violência de poucos, me assusta a omissão de muitos”. Em nossas cidades, onde bairros de classe alta convivem tão proximamente com casas pobres e barracos, um imenso muro de segregação e desamor separa uns dos outros. E muitas mães órfãs de seus filhos choram a crueldade do mundo. Nessa semana, a memória do pastor Martin-Luther King e o apelo do papa Francisco para um ano da misericórdia deveriam tocar em nossas vísceras mais profundas e criar em nós um sentimento de indignação profética e de mobilização social para que cesse o extermínio de jovens em nossas periferias.

A consagração de Luther King à causa da justiça e da paz veio de sua fé cristã. Para quem vive uma busca espiritual, seja em alguma religião, seja de forma independente, a espiritualidade é a capacidade de sonhar e lutar para que aquilo que sonhamos aconteça. Toda a Bíblia pode ser lida a partir da revelação de um projeto divino de paz, justiça e comunhão entre os seres humanos e com a natureza. O apóstolo Paulo escrevia aos cristãos de Roma: “Não se conformem com esse mundo. Procurem transformá-lo a partir da transformação interior de suas mentes” (Rm 12, 1)

Sofrimento que parece não ter fim

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 26 de Janeiro de 2016

Foi no Morro Santa Marta, Zona Sul do Rio, onde a Polícia Militar instalou sua primeira Unidade de Polícia Pacificadora - UPP. A estreia foi positiva. A experiência deu certo e o morro passou a experimentar uma outra rotina.

À época, o fato certamente animou todos aqueles enganjados no projeto das UPPs. Mas o  tempo mostrou que a tarefa não ia ser fácil, como de fato não tem sido. A tortura e morte do pedreiro Amarildo Dias de Souza na UPP da Rocinha, Zona Sul do Rio, em julho de 2013, deixou à mostra que a infraestrutura das UPPs estava com sérios problemas. Foi uma mancha no projeto, oportunidade ímpar para os críticos. Um morador foi torturado, morto e deram sumiço no corpo. Os responsáveis? Policiais da UPP - a polícia de pacificação. De 2013 em diante pouco coisa mudou no universo das UPPs.

Depois de um certo tempo surpreendidos com a novidade das UPPs, os bandidos decidiram  atuar de forma mais explícita na reconquista do seu território. Além da inexperiência dos PMs, perceberam que as UPPs estavam com problemas. Tiroteios em favelas - com UPP ou não - continuam ocorrendo com frequência. Balas perdidas prosseguem fazendo suas vítimas, e as milícias voltaram a atuar com toda a intensidade.

Portanto, o morador de favela, além dos seus problemas diários, as limitações de toda ordem por causa da pobreza - para o pobre tudo é mais difícil, mais complicado - além dos traficantes, convive também com os milicianos. É um sofrimento que parece não ter fim.

A violência - e também a omissão e  a incompetência do governo  estadual -  impede que serviços básicos funcione nas favelas de forma normal, como por exemplo, a coleta  de lixo, serviços da concessionária de energia elétrica, correios, caminhões de gás e até de cerveja. Os traficantes - e milicianos - mandam e desmandam. Não se importam com os moradores, que são vistos como inimigos. Além disso, nos municípios de Niterói e São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio, os índices de violência só tem aumentado.

A Polícia Militar, a despeito das suas limitações e problemas, tem cumprido o seu papel e efetuado prisões importantes, manda a verdade que se diga.

E o governo? O que de positivo tem feito na área de segurança pública? O  secretário de Segurança, José Mariano Beltrame é sério, competente, respeitado por todos, mas não faz milagres. E a polícia também não.

Espera-se que ao final das Olimpíadas, o governo trabalhe com a mesma intensidade em favor dos moradores das favelas, não só reforçando, ampliando e melhorando as UPPs, mas também fazendo com que serviços essenciais para população possam funcionar sem maiores problemas, além é claro, dos investimentos sociais, uma promessa ainda não cumprida.

É crise na segurança, crise na ecnomia, crise na saúde. Não é fácil. Triste! Muito trsite! 
 

COMBATE SEM TRÉGUA

Postado por Paulo Cezar Soares | Sexta-feira, 22 de Janeiro de 2016

 

Não há limtes para a maldade humana.A história da humanidade está repleta de exemplos.

Na última quarta-feia, feriado no Rio de Janeiro em comemoração a São Sebastião, padroeiro  da cidade, ao comprar os jornais numa banca que fica na esquina da rua onde moro, fui tomado por por vários sentimentos ao mesmo tempo, entre eles perplexidade e revolta, quando li a chamada na primeira página do jornal O DIA. “Minha mãe é um monstro.” A frase, na verdade um desabafo, foi dita por Wellington Souza da Silva, 25 anos, filho de Joelma Souza da Silva, 43 anos, que matou a enteada Micaela, 4 anos. De acordo com a polícia, a menina tinha várias marcas por todo o corpo. Um crime bárbaro, hediondo.

O crime ocorreu no apartamento de Joelma, no bairro Brás de Pina, Zona Norte do Rio. A menina morava com a madrasta e o pai, Felipe Ramos da Silva, 30 anos, e Wellington. Além  de Joelma, Felipe também foi preso. Ele acusou Joelma de agredir a menina, fato que teria presenciado pelo menos três vezes. No entanto, não explicou porque não impediu. Segundo Wellington, sua mãe agredia a menina constantemente e na presença de Felipe.
Ainda não foi divulgada a causa da morte nem tampouco o objrto utilizado nas agressões. A perícia  tem 30 dias para concluir seu trabalho.

 Rito sumário - Foi por falta de um trabalho que a mãe de Micaela, Marcele de Almeida Rocha perdeu  a guarda da menina. Durante depoimento na DH revelou que, ao ficar desempregada quando a menina tinha  2 anos, a guarda foi repassada ao pai. Embora a mãe tenha dito que nunca viu nada que pudesse indicar que sua filha estava sendo agredida, frisou que Felipe não a deixava ver a filha, e que no Natal um possível encontro acabou não ocorrendo. Ela acha que, de propósito, o pai evitou o encontro para que ela não visse as marcas das agressões que a menina tinha sofrido. No momento da prisão, o casal quase foi linchado. A polícia impediu. Justiça com as próprias mãos não resolve nada. Pena de morte, idem.

A despeito disso, crimes como o de Joelma deveriam ter um rito sumário, ou seja: pena aplicada sem julgamento, sem mais delongas. Defendo também o mesmo expediente para crimes de corrupção envolvendo a área da saúde ou educação.

Segundo o saudoso filósofo Albert Camus (1913-1960) o mal tem que ser combatido sem trégua. Ele propunha uma atitude de revolta e de combate contra todos os males e sofrimentos. Camus dizia que  a imagem mais atroz do mal é o sofrimento das crianças. Uma prova, dizia Camus, de que Deus não existe, pois o mal e Deus são contraditórios.

Concordo em parte com a sua opinião. Camus era ateu. Sou cristão, acredito em Deus, como a maioria do povo brasileiro. De acordo com o texto sagrado, Deus criou o homem a sua imagem e semelhança. E lhe concedeu o livre- arbítrio. Portanto, o homem escolhe o seu caminho. É o responsável pelos seus atos.

Religião à parte, diante do mal  todos são impotentes  diante do mal, mistério insondável. Vários filósofos já tentaram decifrá-lo, mas não há consenso.

Como dizia Camus, tem que ser combatido sem trégua.

E que Deus nos proteja!   
 

Tempos difíceis

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 18 de Janeiro de 2016

E a vida vai tecendo laços
Quase impossíveis de romper
Tudo o que amamos são pedaços:
Vivos do nosso próprio ser.

A vida assim nos afeiçoa,
Prende. Antes fosse toda fel!
Que ao se mostrar às vezes boa,
Ela requinta em ser cruel…
(A Vida Assim Nos Afeiçoa - Manuel Bandeira) 

Às vezes a pobreza, as limitações de toda ordem, todo esse sofrimento, como se isso fosse pouco, se amplia. Foi o que ocorreu com uma família residente no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, bairro nobre localizado no centro do Rio.

No último dia 5 - uma terça-feira - Taís de Souza Santos, 13 anos, foi atingida dentro da sua própria casa por uma bala perdida. O tiro pegou na nuca. Taís passou alguns dias internada no hospital Souza Aguiar. Num primeiro momento, de acordo com os médicos, teve morte encefálica. A pedido da família, os médicos mantiveram os aparelhos ligados. Mas, dias depois, Taís faleceu. Mais uma vítima para aumentar a estatística de pessoas mortas por balas perdidas. O fato, infelizmente, virou lugar- comum no Rio.

 Menina estudiosa e disciplinada, Taís era a mais nova de seis irmãos. Todos baianos. Sonhava em ser policial. Há quatro anos a família - o pai, pedreiro; a mãe, doméstica -  decidiu deixar a Bahia e, apesar da violência carioca, conhecida em todo o mundo, veio para o Rio.  Pensando, certamente, em melhorar de vida. Já foi tempo! Hoje isso não se aplica mais, ou seja: o Rio não tem mais estrutura para melhorar a vida de ninguém. Nas favelas, o único serviço que o Estado oferece é a polícia. No momento, as autoridades estão preocupadas com as Olimpíadas. Várias obras estão sendo feitas apenas para receber os turistas. Resfestelados nos seus confortáveis gabinetes, não estão preocupados com o povão,  lembrado apenas em época eleitoral, quando as promessas demagógicas entram em cena.
Ano a ano a cidade vem se degradando, com problemas que jamais são solucionados, como por exemplo, a questão da violência e dos transportes. A lista é grande! 

O Estado do Rio de Janeiro vive uma grave crise financeira. A ponto de atrasar o salário e o 13° dos funcionários.  O governador Pezão está contando moedas.

Quando Taís foi baleada, de acordo com a PM, policiais  da UPP - a favela tem uma UPP desde 2011 - estavam sendo atacados por bandidos. A bala que atingiu Taís partiu de que lado? Na verdade, isso pouco importa. Não vai aplacar o sofrimento da família que, como tantos outros moradores de favelas, vão sempre conviver com a dor de ter perdido um filho (a), vítima de uma bala perdida. Trata-se de uma dor incomensurável

Vivemos tempos difíceis. A violência urbana, infelizmente, não é um problema só do Rio. Atinge todo o Brasil. Além disso, o povão sofre com as injustiças sociais, com a falta de estrutura da saúde, alto índice de desemprego e inflação, entre outras mazelas.

O que fazer?

Recorrro de novo a Manuel Bandeira

A única coisa a fazer é tocar um tango argentino (Pneumotórax - Manuel Bandeira)

PM: corporação violenta, ineficaz e antidemocrática

Postado por Paulo Cezar Soares | Quinta-feira, 14 de Janeiro de 2016

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Artigo de Plínio Zúnica, publicado originalmente no site Brasil 247.


Quem defende a instituição da policia militar como se fossem heróis só pode ser alguém que ou nunca abriu um jornal, ou é tremendamente ingênuo, ou mostra sérios problemas de senso moral. E não é só por causa das manifestações violentamente reprimidas, mas por causa de todo o histórico desta organização de terrorismo estatal. 

A Policia Militar brasileira é a corporação policial que mais comete assassinatos no mundo. É violenta, incompetente e extremamente ineficiente.

São amplamente conhecidos os casos de estupros, de tortura e as inúmeraschacinas promovidas pela policia militar.

A PM mantém as estruturas hierárquicas, a ideologia e padrão operacional do exército. É um grupo treinado para identificar e eliminar inimigos de guerra, e não pra lidar com populações civis em um estado democrático. A policia militar não é capacitada para trabalhar com a  sociedade.

Censuram a imprensa, e usam o argumento de “desacato à autoridade” para estarem acima da lei e acima de todos os cidadãos, impedirem as pessoas de filmarem ações, circularem livremente, se expressarem. Em 2014, durante os protestos contra a Copa a Policia militar agrediu um jornalista por dia

Mesmo entre os policiais é grande o número dos que não apoiam a instituição militar. Pesquisas apontam que 77,2% dos policiais são a favor da desmilitarização, e que 38,8% alegam que, se pudessem voltar atrás, não teriam optado pela carreira de policial. Os soldados passam por um treinamento desumanizador, uma pedagogia do sofrimento, que os faz enxergar o manifestante, o pobre, o negro, o estudante, o cidadão politizado como uma ameaça à ordem, sujeito a ser eliminado. Através de um treinamento de condicionamento à obediência cega e comportamento violento, o militar é deslocado da sociedade, passa a se diferenciar do civil, o que cria o sentimento de impunidade e autoritarismo que são tão frequentes aos agentes de repressão.

É uma organização racista e machista. Não só não possui nenhum respeito pelos Direitos Humanos e pela democracia, como também não possui a menor compreensão sobre o que são Direitos Humanos. Ou sobre o que é Democracia. Ou Respeito.

Em última instância, a Policia Militar custa uma fortuna para o contribuinte. Segundo o Estadão, a  PM disparou uma bomba a cada sete segundos nos primeiros seis minutos de repressão ao ato contra o aumento da tarifa de ônibus na ultima terça-feira. É difícil saber exatamente o custo atualizado de cada bomba, mas em 2013 estimou-se que cada granada de gás custou R$800,00. Isso significa que apenas os primeiros seis minutos de repressão custaram, só em gás, trinta e nove mil e duzentos reais. Além disso, neste ano a PM de São Paulo comprou 6 blindados israelenses para reprimir protestos. Eles custaram 5 milhões de reais cada. Isso significa que a PM gastou, só com 6 carros, 30 milhões de reais. Esse dinheiro que a Policia Militar consome vem dos impostos de todos nós, e custam muito mais do que o valor irrisório de algumas lixeiras de plástico depredadas ou vidraças de bancos multimilionários.

Esses gastos absurdos são feitos com o intuito de impedir que a população proteste por melhorias na cidade que poderiam ser facilmente implantadas se o nosso governador priorizasse cumprir as demandas da população ao invés de queimar dinheiro pra satisfazer os próprios fetiches de sadismo e poder.

É claro que o problema principal é a instituição da Policia Militar, e não o indivíduo policial, e a desmilitarização da polícia é um dos principais passos para uma sociedade de fato democrática. Existem, inclusive, alguns policiais que falam contra o sistema, alguns de dentro da corporação e outros de fora. Certamente existem policiais que fazem o que se esperaria que todos os policiais fizessem (o que não é mais do que a obrigação), mas isso não os exime de certa responsabilidade pelos crimes rotineiros de sua corporação. Não basta ser um policial que não comete abusos evidentes. Um policial pode não sentir vontade de bater em manifestantes, mas se bater mesmo assim, ou se impedir a livre manifestação porque está “só cumprindo ordens”, então ele continua sendo um opressor. E se ele não faz nada quando vê um colega abusando da autoridade, então ele é conivente com o abuso. E se fica calado sobre os crimes de seus colegas, então ele permite e é um colaborador indireto deles. Vestir uma farda é uma escolha, e quem a veste está, de um jeito ou de outro, assumindo e apoiando o que a instituição da policia militar representa, pra bem ou pra mal.

Por mais que o treinamento seja cruel e as condições de trabalho sejam desfavoráveis aos policiais, isso não justifica o envolvimento com narcotráfico, a cobrança de todo tipo de propinas, os massacres, a violência sexual, aselvageria contra manifestantes, os abusos e humilhações cometidos em enquadros, e todos os outros crimes tão cotidianos que já não podem ser vistos como algo menos do que o procedimento padrão da instituição.

Mas o grande enigma não é entender a subjetividade dos policiais militares enquanto indivíduos ou a instituição enquanto aparelho de repressão à serviço dos interesses do capital. O maior mistério, assim como o maior impedimento pra que polícia deixe de ser bandido, é o apoio incondicional, apaixonado, anti ético, violento, sadomasoquista que parte da população dá para a policia. É por causa de pessoas que repetem “bandido bom é bandido morto”, que aplaudem quando um policial assassina um pobre, espanca um estudante ou comete todo tipo de violências e infrações em nome de um conceito de justiça derivado de filmes do schwarzenegger, que a policia segue sendo muito mais parte do problema do que da solução.

Portanto, se você defende essa corporação militar que gera incontáveis “casos isolados” de capangas, assassinos, estupradores, milicianos, ladrões, racistas, fascistas e inimigos do sistema democrático e da Constituição, eu recomendo que você repense sua posição. Talvez você só tenha caído na armadilha de nunca ter colocado em perspectiva o comportamento desta corporação. Ou talvez, para você, lixeiras e vidraças de banco realmente valham mais do que a vida humana. Nesse caso, sempre haverá uma farda pra você em algum lugar.

Plínio Zúnica - Estudante de Letras, viveu no Egito e na Palestina. Escreve também os blogs Descolonizações e Bebendo Blues.