“Deputados armados”

Postado por Paulo Cezar Soares | Sexta-feira, 30 de Outubro de 2015

“Surpreende o substitutivo do deputado Laudívio Carvalho (PMDB/MG) que dá porte de armas a parlamentares. A lei atual é um modelo de primeiro mundo. Quais os motivos dessa concessão? Qual perícia prática e habilidade essas pessoas possuem? Estão sendo ameaçadas? Quando houve no Brasil um caso de ameaça, lesão corporal ou morte de parlamentar? Imagina uma discussão no plenário com tiroteio? Uma desavença resolvida através de armas? Na contramão da história, a nova lei vai dar porte de armas também às polícias legislativas e a agentes de trânsito. Vamos mudar os sinais e semáforos de trânsito à bala também? Quanto mais armar quem não tem a destreza necessária, mais acidentes matarão pessoas! Cada vez mais, na situação atual, os políticos não devem possuir armas.”

O texto acima é de João Coelho Vítola - de Brasília. Foi publicado na página 17 do jornal O Globo - Dos Leitores. Cartas e-mails - na última quinta-feira. Sucinto e objetivo, o leitor deixa claro sua oposição ao projeto que tenta modificar o Estatuto do Desarmamento. Ao contrário do que veiculam os que apoiam a medida, o cidadão não vai ficar mais protegido. Mais armas no mercado, mais violência. É o óbvio ululante, como diria o saudoso Nelson Rodrigues.  

Velho Oeste contemporâneo

Postado por Paulo Cezar Soares | Quinta-feira, 29 de Outubro de 2015

 

Um misto de irresponsabilidade e retrocesso. Refiro-me à Comissão Especial do Desarmamento da Câmara dos Deputados que aprovou, na última terça-feira, por 19 votos a 8, o texto base da nova lei do desarmamento, que modifica - flexibilização é para tecnocratas - o atual estatuto, de 2003.  Assim que a comissão concluir a votação, a proposta seguirá para análise do plenário da Câmara. E, caso seja aprovada, vai para o Senado, Depois, irá para sanção da presidente Dilma Rouseff.  Trata-se de mais um projeto, entre outros, que visa combater a violência com mais violência. Tenta-se resolver problemas sociais graves com medidas sem profundidade, sem tocar na essência do problema.

Pelas modicações do estatuto, mesmo quem tenha antecedente criminal, ainda assim poderá portar uma arma. Não há restrição a processados ou investigados.Reduz a idade de 25 para 21 aos para a compra de armas. E o porte será renovado a cada dez anos e não mais a cada três anos.

O relator do projeto, Laudívio Carvalho ( PMDB-MG) (membro da “bancada da bala”)  disse que a aprovação foi uma vitória do Brasil. O parlamentar foi desrespeitoso com o secretário de Segurança do Rio de Janeiro, José Mariano Beltrame, que é contra o projeto. O parlamentar disse que Beltrame não consegue evitar nem arrastão na praia. A respeito da presidente Dilma Roussef lembrou que ela anda com seguranças armados. “Que tal trocar os seguranças por lindas pombinhas brancas”, frisou irônico. Os  argumentos do parlamentar mineiro são, além de desrespeitosos, pueris.

Uma pesquisa realizada recetemente pelo DataFolha revelou que 63% da população é a favor da proibição total da venda de armas no Brasil.

Caso o projeto seja aprovado poderemos ter bangue-bangue nas ruas da cidade, país afora, à moda do Velho Oeste.

Diante do exposto, a indústria de armas agradece.  

 

A polícia brasileira, a mais violenta do mundo, mata em nosso nome

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 27 de Outubro de 2015

Por Emir Sader (publicado originalmente no site Carta Maior).


Brasil possui o triste recorde de ter a polícia mais violenta do mundo, a que mais mata. Deveria ser razão para se tornar o maior escândalo do pais.
 
Mas não é, porque é uma polícia que mata a jovens pobres e negros, com a delegação e a aprovação implícita de grandes setores da opinião publica. Carne barata, sangue que jorra das famílias pobres, funerais nas periferias anônimas.
 
 O Brasil passa, desde 2003, pelo maior processo de democratização social da sua historia. Os direitos das grandes maiorias são reconhecidos, nao há praticamente ninguém mais abandonado, excluído das políticas do Estado. 
 
Como é possível que, nesse mesmo momento, essas mesmas famílias incorporadas a direitos sociais básicos, reconhecidas como cidadãos pelo governo, sejam vítimas do maior genocídio do Brasil contemporâneo – o dos jovens negros? Como é possível que isso exista em governos progressistas e como é possível que nós aceitemos passivamente esse genocídios, que diariamente ceifam a vida de dezenas de jovens negros?
 
Uma parte pode ser atribuída à invisibilização do fenômeno promovida pela mídia, assim como pela criminalização dos jovens negros e pobres. Um procedimento como o controle e detenção de jovens negros e pobres que vão para as praias da zona sul do Rio é uma confirmação evidente dessa criminalização. Mas outras tantas manipulações se dão cotidianamente nos programas que comercializam o crime nas TVs e nos rádios, consolidados pelos jornais e revistas.
 
Outra parte tem que ser entendida como o “medo dos pobres”, especialmente dos jovens negros, disseminado há décadas na nossa sociedade. O jovem negro e pobre virou fator de “risco” para a segurança da classe média e da burguesia, que prefere que eles sejam reprimidos, presos, mortos.
 
Fundamentalmente, é a polícia matando jovens pobres e negros, todos os dias, pagos com os salários financiados pelos nossos impostos, usando uniformes que nós colocamos neles como autoridades que reconhecemos, com armas e munição compradas com os impostos de todos – para que os jovens pobres e negros sejam executados em nosso nome.
 
Como não nos dispomos a ir nós mesmos matá-los, porque seria insuportável, contratamos policiais para fazer esse trabalho sujo por nós. Os corpos desaparecem ou são entregues na calada da noite para suas mães. Não vamos a seus funerais, nem sequer divulgamos seus nomes, suas fisionomias, os nomes e os rostos das suas mães, do seus irmãos, dos seus amigos. 
 
E se, um dia não aguentarmos mais e passarmos a dizer: “Não em nosso nome.” ”Basta, não aguentamos mais. Chega!”? E se dissermos:  “Não pago mais impostos para financiar uma polícia que mata jovens negros e pobres todos os dias”?

Obras do Rio são segregacionistas, afirma ativista da Maré

Postado por Paulo Cezar Soares | Quinta-feira, 22 de Outubro de 2015

Por *Walmyr Junior, para o Jornal do Brasil. Também reproduzido no Brasil 247.


Obras do Rio de Janeiro, a reprodução de uma lógica segregacionista

Mais um dia de rotina e vejo no olhar das pessoas o cansaço e o desgaste gerado pelo turbilhão das obras na Cidade do Rio de Janeiro. Estamos cansados de passar sufoco no trânsito da cidade por causa dos engarrafamentos estressantes, ônibus sucateado e sem ar-condicionado, com bancos quebrados, lanternas danificadas e vidros trincados. Enfrentamos ainda no dia a dia a sujeira dos mesmos veículos, sem seta, sem campainha, sem elevador para deficiente.

A regulagem de emissão de gases poluentes não parece também ser a preocupação dos responsáveis das empresas de transporte ‘públicos’ e do prefeito. Desde abril de 2013, o Procon do Rio já interditou 715 ônibus. A passagem é um absurdo de cara e só tende a aumentar.

Não bastassem os absurdos já citados, vemos a classe trabalhadora ser mais explorada ainda pelos grandes barões do sistema de transporte urbano. Os motoristas estão cumprindo dupla função!

A militante da Marcha Mundial de Mulheres, Priscila Borges, fez um relato em seu Facebook muito parecido com o que temos visto com frequência. Dizia ela:

“Meu bilhete único zerou. Entrei no ônibus e me deparei com uma cena comum agora, motorista cumprindo dupla função. Peguei o dinheiro na bolsa e entreguei pra ele. Sem olhar pro lado ele disse: “segura aí até o próximo” (ele estava se referindo ao próximo ponto de ônibus, uma vez que entrei quando o ônibus estava parado no sinal e logo em seguida saiu). Eu tranquilamente me encostei e fiquei esperando. Puxei papo, deu uma paradinha no transito ele pegou o troco, muito concentrado tentando não desviar o olho da via, me entregou e me desejou boa tarde. Passei pela roleta e aqui estou eu, sentada no ônibus pensando: o capitalismo é mesmo perverso, as relações de trabalho são deveras opressoras e por fim, antes que eu me esqueça, a luta de classes está em curso.”

Pergunto-me constantemente o que está em jogo nesta disputa pelo direito à cidade. Os rios de dinheiro das empresas de transporte, que já financiaram muitas campanhas eleitorais por aí, não servem para investir em transporte de qualidade. Não possibilitam um trabalho justo e tranquilo para os motoristas de ônibus e não possibilita ampliação dos cargos de trabalho dos cobradores. E de quebra, esses empresários enriquecem mais ainda com os consórcios dos BRTs e BRs.

Não quero me estender, porém não me permito não falar do Metrô. Um sistema que tem por finalidade interligar o Estado e que em sua ampliação atende à classe média da Barra da Tijuca. Analisar este fato não seria uma nova problemática, haja visto que a manutenção dos privilégios e direitos das elites não podem parar. A ‘Linha 4’ é a continuidade da lógica de favorecimentos a um grupo que é historicamente hegemônico.

As obras do VLT, que estão parando o Centro da cidade, programará um novo circuito turístico e cultural para o Rio. Essa obra me recorda o projeto da ‘belle epoque’ (expressão francesa que significa bela época). Uma era de ouro da beleza, inovação e paz, uma cultura urbana de divertimento incentivada pelo desenvolvimento dos meios de comunicação e transporte. Uma reprodução do mundo da arte na Europa, fazendo com que teatros, exposições de telas, cinemas, entrassem no cotidiano dos burgueses.

Enquanto isso, no subúrbio, o projeto de cidade de nosso tempo reproduz a mesma lógica. Isola os negros e pobres com ilusões, dando pão e circo para que ninguém vá ao território gentrificado da praça Mauá e não entre na zona dos ‘senhores da cidade’. Temos o Parque de Madureira, com sua obra completa inaugurada, com praias e cachoeiras artificiais, linhas de ônibus do subúrbio que ligam a Zona Sul a Zona Norte sendo extintas, meninos sendo expostos e revistados ao irem à praia, e, como na década de 1920, os investimentos em transporte, cultura e etc. favorecem a sensação de bem-estar apenas de uma parcela da população, aumentando mais ainda o muro que divide a cidade.
 

*Walmyr Júnior, morador de Marcílio Dias, no conjunto de favelas da Maré, é professor e representante do Coletivo Enegrecer como Conselheiro Nacional de Juventude (Conjuve). Integra a Pastoral Universitária da PUC-Rio. Representou a sociedade civil no encontro com o Papa Francisco no Theatro Municipal, durante a JMJ.

Um enigma humano: a violência pela violência do Estado Islâmico

Postado por Paulo Cezar Soares | Sexta-feira, 16 de Outubro de 2015

 

 Por Leonardo Boff (Publicado originalmente no site Amaivos)

O Estado Islâmico da Síria e do Iraque é uma das emergências políticas mais misteriosas e sinistras, talvez dos tempos históricos dos últimos séculos. Tivemos na história do Brasil, como nos relata o pesquisador Evaristo E. de Miranda (Quando o Amazonas corria para o Pacífico, Vozes 2007) genocídios inomináveis, “talvez um dos primeiros e maiores genocídios da história da Amazônia e da América do Sul”(p. 53): uma tribu antropôgafa adveniente devorou todos sambaquieiros que viviam nas costas atlânticas do Brasil.

Com o Estado Islâmico está ocorrendo algo semelhante. É um movimento fundamentalista, surgido de várias tendências terroristas. Proclamou no 29 de junho de 2014 um califado, tentando remontar aos primórdios do surgimento do Islã com Maomé. O Estado Islâmico revindica autoridade religiosa sobre todos os islâmicos do mundo inteiro e assim criar um mundo islâmico unificado que siga à risca à charia (leis islâmicas).

Não é o lugar aqui de detalhar a complexa formação do califado, mas apenas nos restringir ao que mais nos torna confusos, perplexos e escandalizados por usar a violência pela violência como marca identitária. Entre os muitos estudos sobre o fenêmeno cabe destacar dois italianos que viveram de perto esta violência: Domenico Quirico (Il grande Califfato 2015) e Maurcio Molinari (Il Califfato del terrore, Rizzoli 2015).

Quirico narra que se trata de uma organização exclusivamente masculina, composta por pessoas, em geral, entre 15-30 anos. Sabem que estão aí para matar e que vão morrer cedo. Ao aderir ao Califato apagam todo o passado e assumem nova identidade: de levar a causa islâmica até a morte dada ou recebida. A vida pessoal e dos outros não possui nenhum valor. Traçam uma linha rígida entre os puros (a tendência radical islâmica deles) e os impuros (todos os demais, também de outras religiões com os cristãos, especialmente os armênios). Torturam, mutilam e matam sem qualquer escrúpulo. Ou se convertem ou morrem, geralmete degolados. Mulheres são sequestrasdas e usadas como escravas sexuais pelos combatentes que as passam entre si. O assassinato é louvado como um “ato dirigido para a purificação do mundo”.

Molinari conta que jovens iniciados por um video sobre as decapitações, pedem logo para serem decapitadores. Parte dos jovens são recrutados nas periferias das cidades européias. Não apenas pobres, mas até um laureado de Londres com boa situação financeira e outros do próprio mundo árabe. Parece que a sede de sangue clama por mais e mais sangue e pela morte fria e banal de crianças, idosos e de todos os que relutam em aderir ao islamismo.

Financiam-se com o sequestro de todos bens das cidades conquistadas da Síria e do Iraque, mas especialmente do petróleo e gás dos poços arrebatados, propiciando-lhes um ganho, segundo analistas de energia, de cerca de três milhões de dólares/dia, geralmente vendidos a preços muito mais baixos nos mercados da Turquia.

O Estado Islâmico recusa qualquer diálogo e negociação. O caminho só possui uma via: a violência de matar ou de morrer.

Esse fato é perturbador, pois coloca a questão do que é o ser humano e do que ele é capaz. Parece que todas as nossas utopias e sonhos de bondade se anulam. Buscamos em vão luz nos teóricos da agressividade humana, como Freud, Lorenz, Girard. As explicações nos soam insuficientes.

Para Freud, a agressividade é expressão da dramaticidade da vida humana, cujo motor é a luta renhida entre o princípio de vida (eros) e o princípio de morte (thánatos). Descarrega-se a tensão para fins de auto-realização ou proteção. Para Freud, é impossível aos humanos controlar totalmente o princípio de morte. Por isso, sempre haverá violência na sociedade. Mas por leis, pela educação, pela religião e, de modo geral, pela cultura pode-se diminuir sua virulência e controlar seus efeitos perversos (cf. Para além do princípio do prazer, Obras Completas. Rio de Janeiro: Imago, 1976, v. 5).

Para Konrad Lorenz (1903-1989), a agressividade é um instinto como outros e destina-se a proteger a vida. Mas ela ganhou autonomia, porque a razão construíu a arma mediante a qual a pessoa ou o grupo potencializa sua força e assim pode se impôr aos demais. Criou-se uma lógica própria da violência. A solução é encontrar substitutivos: voltar à razão dialogante, aos substitutivos, como o esporte, a democracia, o autodomínio crítico do próprio entusiasmo que leva à cegueira e, daí, à eliminação dos outros. Mas tais expedientes não valem para os membros do Califado.

No entanto, Lorenz reconhece que a violência mortífera somente desaparecerá quando se der aos homens, por outro modo, aquilo que era conquistado mediante a força bruta (cf. Das sogenannte Böse: Zur Naturgeschichte der Aggression. Viena 1964).

René Girard com seu “desejo mimético negativo” que leva à violência e à identificação permanente de “bodes expiatórios” pode se transformar em “desejo mimético positivo” quando ao invés de invejar e de se apoderar do objeto do outro, decidimos compartilhá-lo e desfrutá-lo juntos. Mas para ele a violência na história é tão predominante que lhe significa um mistério insondável que não sabe como decifrar. E nós também não.

Na história há tragédias como viram bem gregos em seus teatros. Nem tudo é compreensível pela razão. Somos simulianeamente sapiens e demens. Mas há momentos em que a situação demens ganha dimensões incontroláveis e diabólicas.Quando o mistério é grande demais, é melhor calar e olhar para o Alto, de onde, talvez nos venha alguma luz.

 

 

 

 

Antes que seja tarde!

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 14 de Outubro de 2015

Pesquisa publicada esta semana - UPP: O que pensam os policiais, realizada em 2014 pelo Centro de Estudos de Segurança e Cidadania da Universidade Cândido Mendes, com 2.002 cabos e soldados em 36 UPPs, demonstra, mais uma vez, os problemas diários enfrentados pelos PMs que trabalham nas Unidades de Polícia Pacificadora. A pesquisa revela que a rejeição às UPPs aumentou.

A verdade é que a população, não só das favelas, mas de um modo geral, não confia na polícia; muitos têm medo. Portanto, diante disso, os PMs das UPPs cumprimentam os moradores e não são correspondidos. Muitas vezes os policiais são xingados, objetos são jogados contra eles. Evidentemente que, a cada bala perdida, a cada auto de resistência mal  resolvido, a cada operação policial com caveirão na hora que as crianças estão indo para a escola, o quadro piora. A interação com os moradores não está funcionando. Um caso a exemplificar esse quadro é o episódio Amarildo.

Além disso, a corporação enfrenta problemas de corrupção em várias frentes. E no momento, com o Estado passando por uma séria crise financeira, tudo está mais difícil.
Sou de opinião que o projeto das UPPs é bom. Jamais o Rio teve nada parecido, manda a verdade que se diga.

Mas, a despeito disso, as UPPs estão passando por um momento de crise. Uma fase difícil. E precisam - rapidamente - passar por um processo de mudança na sua infraestrutura (incluindo mellhores condições de trabalho) e treinamento

Antes que seja tarde!