O mundo cão da tevê

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 25 de Fevereiro de 2015

Por indicação de um amigo, resolvi assistir ao filme Nightcrawler - O Abutre, direção de Dan Gilroy, que também escreveu o roteiro. No afã de obter cada vez maiores índices de audiência, a diretora de notícias da manhã de um emissora de tevê, a Nina (Rene Russo) comete uma série de atitutds antiéticas.

O personagem principal Louis Bloom (Jake Gyllenhaal) é um ladrão psicopata de quinta categoria que, ao testemunhar um carro pegando fogo numa via pública, e os bombeiros salvando seus ocupantes, teve uma ideia: deixou de lado a prática de pequenos furtos e passou a filmar episódios semelhantes e oferecê-los para emissoras de tevê.

A tarefa não foi das mais difíceis: em primeiro lugar, porque as emissoras adoram comprar imagens feitas por pessoas que não possuem nenhum vínculo com a empresa  e, o mais grave,  não são profissionais. Não possuem nenhuma formação para trabalhar na imprensa.

Louis Bloom começou a filmar com uma câmera amadora e logo conheceu um cidadão que explora o mesmo filão, mas que tinha uma certa estrutura, pois conseguia chegar aos locais de acidente rapidamente, contava com um ajudante e uma van. E filmava com uma câmera profissional

Mas isso não desanimou Bloom. Mesmo diante das dificuldades prosseguiu no seu “trabalho”. Conseguiu fazer contato com Nina, uma mulher insegura. Para segurar o seu emprego, ela faz qualquer coisa para manter a audiência em alta. Manda às favas todos os postulados éticos. O que importa são imagens fortes, como tiroteios, assassinatos, acidentes e muito sangue.

Nas ruas, Bloom vai à luta atrás de mais uma tragégia. Além de ladrão e da falsa identidade, pois age como se fosse um cinegrafista profissional, possui uma característica muito comum em tempos de internet, ou seja: passa grande parte do seu tempo pesquisando uma série de coisas. Mas o faz de forma superficial. Lê uma coisa aqui, outra ali, e vai formando opiniões superficiais sobre os mais variados assuntos. Transforma-se, na verdade, numa espécie de livro de autoajuda ambulante. Emite vários conceitos que decorou das suas leituras no computador, cujo objetivo é impressionar seu interlocutor.

Bloom percebe que, além de insegura, Nina é uma mulher com problemas de relacionamento afetivo. Ele então, carrega nas tintas, com o objetivo de seduzi-la. Não consegue fazer sexo com Nina, mas passa a vender suas imagens com mais facilidade. E faz pressão para obter uma melhor remuneração ao vendê-las. Além disso, quer ser conhecido na emissora. Exige que Nina o apresente a algumas pessoas. Ela faz a sua vontade.

Ao realizar suas filmagens, Bloom comete barbaridades, como por exemplo, desfazer locais de crimes e manipular imagens. Com a sua mente doentia, arma atentados para afastar concorrentes. Insatisfeito com o seu ajudante, que lhe pediu um aumento, trama a sua morte como se fosse um acidente de trabalho.

No final, a despeito de tudo isso, Bloom consegue montar sua própria empresa.

O filme é bom. Mas confesso que tive vontade de vomitar.

Todas as faculdades de jornalismo deveriam exibi-lo para seus alunos e exigir presença obrigatória.

 

pastores nas páginas policiais

Postado por Paulo Cezar Soares | Sexta-feira, 20 de Fevereiro de 2015

No último dia 13 a polícia carioca prendeu 19 acusados de violência sexual e doméstica. A operação, denominada Voz da Liberdade foi realizada simultaneamente pelas 14 Delegacias de Atendimento à Mulher (Deam) do Estado. Foram presos um pai que estuprou a filha de 11 anos e mais duas meninas, e um pastor evangélico foragido da Justiça.

De acordo com a polícia, o pastor Ronaldo Santana Mendes, 46 anos, foi preso em Caxias, Baixada Fluminense, após descumprir medidas protetivas que o impediam de se aproximar da ex-mulher. Ronaldo, que além de pastor também é empresário, estava foragido desde setembro do ano passado, quando foi expedido o mandado. Ele ameaçava constantemente a  ex-esposa. Além disso - como  se fosse pouco -  responde por tentativa de homicídio na Argentina. Ronaldo foi encaminhado para o Complexo de Bangu, Zona Oeste do Rio.

Com uma frequência preocupante, mais uma vez um pastor é notícia nas páginas policiais dos jornais. E, no caso em tela, as acusações são gravíssimas. Deixam à mostra sua total incapacidade de exercer o ministério pastoral. Nosso universo evangélico é vulnerável a fatos dessa natureza. Não quero aqui citar nomes para não ferir suscetibilidades. Mas a lista é grande.

 O crescimento do povo  evangélico - 41,3 milhões de fiéis - cuja ênfase está no movimento neopentecostal, não gerou qualidade. A bancada evangélica no Congresso Nacional é um exemplo disso. Em nada contribui para o avanço social do país. Na verdade, pelo seu perfil conservador e a defesa radical de postulados da direita, é um retrocesso.

Não é difícil constatar que a maioria dos evangélicos vivem anos frequentando uma igreja e conhecem muito pouco da Bíblia Sagrada. São vítimas de ensinamentos fundamentalistas e moralizantes. Pastores despreparados intelectualmente e com conhecimento rudimentar de teologia (exceção para os pastores que pertencem a igrejas históricas)  passam para o povo uma imagem distorcida do que é ser um cristão. Divulgam conceitos distorcidos, perspectivas discrepantes do Evangelho de Jesus Cristo.

A figura do pastor está desgastada. Não só pelos casos que aparecem nas páginas policiais, mas principalmente pelos pastores que estão preocupados apenas com dinheiro e prestígio. O apoio pastoral a suas ovelhas, socorrendo-as, ajudando-as, não acontece mais, como nos velhos tempos, quando a figura de um pastor impunha respeito e admiração. Alguns líderes impõem pesadas exigências religiosas ao povo, postura condenada severamente por Jesus. São como os escribas e fariseus dos tempos bíblicos, chamados por Jesus de sepulcros caiados. E o nosso povo criou um sábio ditado popular: por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento.

Igrejas evangélicas proliferam Brasil afora. Qualquer um pode abrir uma igreja e revindicar para si o titulo de pastor, sem nenhum problema. Jamais será cobrado por falsa identidade. Você, leitor, já viu alguém ser preso por isso? Não há nenhuma lei regulamentando a questão.

Caminho aberto para a corrupção, manipulação da fé alheia e bizarrices.

Saudosismo à parte, a verdade é que, já não se fazem hoje, pastores como antigamente.  

Podcast Episódio 8: polícia bahiana mata 12; a prisão do GG; o game Thug Life, e mais

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 17 de Fevereiro de 2015

No episódio 8 do podcast (o primeiro de 2015): a polícia bahiana que matou 12 pessoas; a prisão do bandido GG, um dos responsáveis pela tentativa de resgate no Fórum de Bangú, Zona Oeste do Rio; um jogo de videogame que faz apologia ao crime, entre outros assuntos.

CLIQUE AQUI PARA OUVIR. O episódio possui 13 minutos e 25 segundos de duração.

Seu navegador precisa estar atualizado para tocar o arquivo de áudio automaticamente. Se preferir, você pode baixar o arquivo do podcast para você. Para isso, clique no mesmo link com o botão direito do mouse e salve o arquivo no seu computador ou dispositivo móvel.

Mãe de DG luta pelo fim dos autos de resistência

Postado por Paulo Cezar Soares | Sexta-feira, 13 de Fevereiro de 2015

Texto de *Maria de Fátima da Silva, publicado originalmente no site Favela 247


Pelo fim do auto de resistência

É uma vergonha vivermos no país onde mais se mata à mão armada no mundo. Por mas doloroso que seja falar sobre isso, não me calei e nunca vou me calar. Meu filho DG foi assassinado no dia 22 de abril de 2014 por policiais da 2ª UPP do Cantagalo. Morreu no auge de sua mocidade, cheio de sonhos. Ele tinha uma viagem programada para a França em dezembro de 2014. Se Deus não atuar nessa história, DG fará parte de uma triste estatística de nosso país.

As vítimas dessa violência quase sempre são jovens negros das periferias, muitos deles inocentes, pegos em fogo cruzado. Falar disso não e muito fácil, dói muito. Mas ao contrário de muitas mães que se isolam e sofrem quietas por medo, eu escolhi fazer algo à respeito, trocando o luto pela luta.

Sempre foi muito medrosa, mas luto diariamente para transformar a dor do luto por ter perdido meu filho em força para transformar esse sistema que só gera sangue e dor. Hoje não tenho mais medo, nem de morrer, apesar das ameaças que sofro. Nada mais abala minha coragem.

É fato que grande parte dos homicídios praticados por maus policiais jamais serão investigado. Esses maus policiais continuam nas ruas, tirando a credibilidade dos policiais honestos – aqueles que respeitam a lei a justiça, fazendo-as caminhar juntas –, e assim deixando uma péssima reputação para toda sua classe.

Para dar um fim a essa violência é preciso acabar com a impunidade. Não punir todos os policiais, mas apenas aqueles que realmente cometem abusos. Ainda existem policiais decentes, embora acredito que sejam um número muito pequeno, vamos dizer que uma raridade.

Mas existe uma chance para isso. Há uma proposta na Câmara dos Deputado em Brasília que pode realmente ajudar a investigar e a punir os maus policiais, aqueles que torturam e matam por pura crueldade. O Projeto de Lei PL4471/2012 irá eliminar a classificação conhecida como auto de resistência, que em outras palavras considera qualquer morte causada por forças policiais como legitima defesa, e que portanto, nunca serão investigadas.

Precisamos apoiar essa iniciativa para mostrar que a sociedade não está mais anestesiada com a violência, e que acreditamos que há chances de acabar com essas injustiças e impunidades.

O único medo que sempre senti foi o de ver meu filho partir. E isso aconteceu. Agora eu, junto de muitas outras mães que tiveram seus filhos mortos, precisamos mudar essa injustiça que destrói tantas vidas, e de ambos os lados, pois muitos policiais, também jovens, morrem e se ferem nessa guerra sem sentido.

Essa luta é um compromisso que tenho com meu filho DG e comigo mesma.

#troqueiolutopelaluta

#vidadançadignidade

*Maria de Fátima da Silva, 56, é instrumentadora cirúrgica, técnica de enfermagem e maratonista de nado em águas abertas.

Playboy acusa PMs

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 10 de Fevereiro de 2015

Para a polícia não há dúvida: foi Celso Pinheiro Pimenta, o Playboy, o bandido mais procurado do Rio, o autor intelecutal do roubo de 193 motos em um depósito do Detro, na Fazenda Botafogo, Zona Norte do Rio. Playboy foi indiciado novamente, embora tenha negado o crime numa recente entrevista, onde acusa PMs de corrupção: o bandido disse que no ano passado teria pago R$648 mil para ser libertado por PMs, que o prenderam no Morro da Pedreira. em Costa Barros, subúrbio do Rio.

Malditos repórteres de polícia

Postado por Paulo Cezar Soares | Sexta-feira, 6 de Fevereiro de 2015

Texto de Orivaldo Perin, publicado originalmente no Observatório da Imprensa


A geração de repórteres que hoje produz o incalculável volume de informações disponível minuto a minuto na internet provavelmente nunca ouviu falar de Mário Dias. E por certo pouco sabe também sobre Octávio Ribeiro, Amado Ribeiro, Oscar Cardoso (no Rio) ou Percival de Souza, Josmar Jozimo, em São Paulo, estes ainda na ativa. Pois Mário é um dos titulares do time de grandes repórteres de polícia da outrora soberana mídia impressa.

Mário acaba de lançar um livro que pode ser um ponto de partida para um sobrevoo na profissão cada vez mais essencial nessa nau sem rumo que virou a indústria da informação. Ele é do tempo em que, em vez do Google, as ferramentas de trabalho eram o telefone (ruim de linha toda a vida), o faro e o cultivo das fontes. Mais que isso, do tempo em que havia mais jornalistas nas redações do que nas assessorias de imprensa, quer em órgãos públicos, quer em empresas privadas. E havia mais repórteres na rua do que nas redações. Sim, e não tinha também o Ministério Público, criado pela Constituição de 1988 e hoje um importante e decisivo aliado de repórteres investigadores. Mário é, enfim, do tempo que havia repórteres que não precisavam de pauta. Tinham a própria.

O livro leva um título que entrega o estilo do autor: CTI – Antessala da morte – Um passeio pela vida. Foi imaginado 30 anos atrás, quando Mário teve que passar nove intermináveis dias numa unidade de terapia intensiva em Niterói, onde vive, para se recuperar de um infarto. São 83 capítulos autobiográficos, todos curtos, como pede a moderna linguagem jornalística. Com uma vantagem: não precisa ser lido a partir do começo.

Em qualquer página que o leitor abrir, haverá uma história de no máximo 3 páginas com começo, meio e fim. Todas em estilo de quem sempre praticou a profissão com entusiasmo de iniciante e, mais importante, sem medo de ser carimbado como cascateiro, espécie de depreciação com a qual a categoria estigmatizava repórteres cujas matérias ajudavam a vender jornais (sobretudo os populares) nas bancas. O cascateiro, digamos, trabalhava na mesma raia em que hoje nadam de braçada os portais dos grandes jornais, mesmo os de veículos de qualidade, na ânsia de ganhar audiência na internet, explorando, sem nenhum pudor, o mundo cão de sempre e celebridades sem nenhum conteúdo mas continente abundante. O Big Brother é tempo de farra para esta nova forma de fazer cascata. Todos os sites ganham aumento de audiência que impressionam quem acompanha as métricas do setor.

Fazer a diferença

“Acho que fui autor de umas 2 mil manchetes nesses meus 50 anos de estrada”, diz Mário, orgulhoso do tempo em que carregava o rótulo de cascateiro. “Todas nos jornais por onde passei.” A lista é grande. No Rio, O Dia, A Notícia, O Jornal, Gazeta de Notícias,Jornal do Brasil e Luta Democrática (só O Dia continua na bancas); em Niterói, A Tribuna,Jornal de Icaraí e Diário Fluminense (este, extinto) e em São Gonçalo, O São Gonçalo. Mário foi multiplataforma antes da internet. Trabalhou no rádio, na televisão (Globo e Manchete), em assessorias de imprensa e faz bicos como apresentador.

Em 1992, aos 25 anos de profissão, Mário, que agora está com 72, publicou Malditos Repórteres de Polícia, livro no qual contava, entre outros, o mais rumoroso de seus casos – o mistério das máscaras de chumbo –, tema de duas diferentes edições do extinto programa Linha Direta, da TV Globo, uma conduzida por Hélio Costa e outra por Domingos Meirelles. “O mistério da máscaras de chumbo foi como batizamos as mortes de Miguel José Viana e Manoel Pereira da Cruz, campistas, que tiveram os corpos encontrados no morro do Vintém, em Niterói, onde tinham subido para tentar contato com possíveis extraterrestres. Até hoje a causa das mortes, ocorridas em 1966, não foi identificada”, lembra. Na Wikipedia, o caso soma mais de 200 mil citações.

O livro recém-lançado, de 128 páginas e desprovido de pretensões literárias, funciona como contraponto do cotidiano das redações multiplataformizadas de hoje em dia e serviria muito bem como objeto de estudo comparativo nas escolas de comunicação. Nos áureos tempos dos malditos repórteres de polícia, as redações do impresso pautavam o rádio, que pautava a televisão, que pautava os jornais… num círculo virtuoso com ciclo de horário que facilitava a vida de quem buscava ou precisava de informação. A notícia podia ser a mesma, mas recebia tratamento diferente de cada mídia. Num, ganhava som, no outro, imagem.

Hoje, numa mesma mídia, o leitor pode ver, ouvir e ler sobre um fato, dia e noite. E além de comentários pode até mesmo acrescentar novas informações à notícia. A internet ajudou o rádio, a televisão começa a entendê-la, mas os impressos patinam na relação e convivência com o mundo digital.

Dez anos atrás, na febre da integração das redações, os impressos eram mais do mesmo. Agora, parecem menos do mesmo. A integração, até outro dia um movimento obrigatório, começa a ser colocada em xeque, porque a audiência da internet não se monetiza e o resultado financeiro do impresso (tanto do que vai para as bancas quanto das edições digitais) não para de encolher.

O livro da Mário Dias ensina que, no tempo da notícia impressa, praticar o jornalismo fazia a diferença.

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Orivaldo Perin é jornalista