Vistoria nas balsas

Postado por Paulo Cezar Soares | Domingo, 28 de Dezembro de 2014

Nesta segunda-feira, a Capitania dos Portos do Rio de Janeiro vai vistoriar as balsas que servirão  de base para a tradicional queima de fogos. Serão 11 balsas em Copacabana, cinco na praia do Flamengo - bairros localizados na Zona Suldo Rio - e quatro na praia de Icaraí, no município de Niterói, Região Metropolitana do Rio.

Pela manhã, a Capitania dos Portos realizará uma reunião com as prefeituras, o Corpo de Bombeiros, a Divisão de Armas e Explosivos (Dfae) da Polícia Civil e as empresas que vão produzir a festa.

No dia  31, ônibus e táxis não poderõao circular por Copacabana.

Trata-se de um tipo de comemoração para saldar o início de um novo ano, que nunca me mobilizou. Acho uma bobagem total. No momento da barulho infernal dos fogos, penso nos animais, principalmente nos cachorros e nos gatos, que ficam agitados e com medo.

Será que o custo benefício vale a pena?

O que podemos esperar em 2015?

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 23 de Dezembro de 2014

É triste constatar que uma parte da nossa sociedade possui soluções simplistas na tentativa de resolver sérios e antigos problemas de violência urbana.

Na última semana, em dois dias seguidos - quinta e sexta - bandidos fizeram um arrastão na  Linha Vermelha, via de acesso para o Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro para os moradores da Baixada Fluminense e da Zona Sul da cidade. Agiram com violência. Roubaram vários motoristas e danificaram dois automóveis, quebrando os vidros com uma chave de roda.

A sugestão da PM carioca para resolver ou minimizar o problema consiste em trocar os painéis de acrílico que ficam às margens das pistas, por um “forte” muro , evitando assim que a bandidagem tenha acessso às pistas. A ideia é um conjunto de má-fé, desinformação e preconceito.

Com esse tipo de pensamento fica praticamente impossível realizar uma estratégia séria de combate à violência. É preciso deixar de lado picuinhas políticas. E todo e qualquer tipo de preconceito. Caso contrário, iremos continuar convivendo com os mesmos problemas de sempre. Não só no Rio, mas em todo o país.

O combate à violência não envolve apenas a questão policial e leis mais duras, como por  exemplo, a modificação da maioridade penal, que virou uma panaceia no sentido de resolver a questão dos menores infratores.

Presídio de Pedrinhas - O projeto das Unidades de Polícia Pacificadora - UPPs - inaugurado no governo do  ex-governador Sergio Cabral está passando por um momento de crise. É preciso melhorar o treinamento e a infraestrutura de trabalho dos policiais. E investir sociaalmente nas favelas, uma promessa do governo estadual que ainda não foi cumprida. Além disso, nosso sistema prisional necessita passar por uma reforma. Até quando teremos superpoplação nos presídios? E motins como o ocorrido em setembro último, no presídio de Pedrinhas, no Maranhão? Vão continuar acontecendo?

Em novembro  de 2012, durante um evento para empresários em São Paulo, o ministro da Justiça, José Eduardo  Cardoso disse que preferia morrer a ter que cumprir pena em um presídio brasileiro. Qualificou o sistema prisional cmo medieval. e ressaltou  que  a situação dos presídios é uma  das razões para o aumento da crimnalidade, pois transforma um pequeno infrator em um criminoso de alta periculosidade.

E a Justiça? Sua morosidade é irritante. Dito isso, não há, a rigor, nenhuma novidade.Mas por que nossas autoridades não conseguem realizar nada de concreto, algo que de fato mude a realidade do país na questão dos índices de violência?

Na questão em tela, o que podemos esperar em 2015?

OBS: Aos leitores deste blog, um Natal de muita paz. E um 2015 de sonhos realizados
  

Aos que defendem a volta da ditadura

Postado por Paulo Cezar Soares | Quinta-feira, 18 de Dezembro de 2014

Por Eliane Brum, Reproduzido do Observatório da Imprensa (texto publicado originalmente no El País em 8 de dezembro de 2014


Quando escuto brasileiros fazendo manifestação pela volta da ditadura, penso que eles não podem saber o que estão dizendo. Quem sabe, não diz. Mas esse primeiro pensamento é uma mistura de arrogância e de ingenuidade. O mais provável é que uma parte significativa desses homens e mulheres que têm se manifestado nas ruas desde o final das eleições, orgulhosos de sua falta de pudor, peçam a volta dos militares ao poder exatamente porque sabem o que dizem. Mas talvez seja preciso manter não a arrogância, mas a ingenuidade de acreditar que não sabem, porque quem sabe não diria, não poderia dizer. Não seria capaz, não ousaria. É para estes, os que desconhecem o seu dizer, estes, que talvez nem existam, que amplio aqui a voz das crianças torturadas, de várias maneiras, pela ditadura.

Crianças. Torturadas. De várias maneiras.

“Botavam meu pai no pau de arara e, para o fazerem falar, simulavam me torturar com uma corda. Eu tinha dois anos”

Como Ernesto Carlos Dias do Nascimento. Ele tinha dois anos e três meses. Foi considerado terrorista, “Elemento Menor Subversivo”, banido do país por decreto presidencial. Foi preso em 18 de maio de 1970, em São Paulo, com sua mãe, Jovelina Tonello do Nascimento. O pai, Manoel Dias do Nascimento, militante da Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), organização comandada por Carlos Lamarca, havia sido preso horas antes. Ernesto é quem conta:

“Me levaram diversas vezes às sessões de tortura para ver meu pai preso no pau de arara. Para o fazerem falar, simulavam me torturar, com uma corda, na sala ao lado, separados apenas por um biombo”.

O menino de dois anos dizia: “Não pode bater no papai. Não pode”.

E batiam.

Libertado quase um mês depois, passou os primeiros anos com pavor de policiais de farda e grupos com mais de quatro pessoas. Entrava em pânico, escondia-se debaixo da cama ou dentro do armário, mordia quem se aproximava e urinava nas calças. Ernesto foi uma criança com pesadelos recorrentes. O mais comum era com um asno, uma corda e uma agulha. “O asno usava um boné militar, a agulha tinha olhos arregalados e uma risada aguda sarcástica e corria atrás de mim, eu apavorado tentava fugir. O asno me cercava, me dava coices ou chutava coisas sobre mim. A corda parecia boazinha, disfarçada de linha se estendia até mim, mas quando eu a segurava ela machucava minhas mãos e me deixava cair em um abismo.”

“Perto do parto, o líquido amniótico descia pelas minhas pernas e as baratas me atacavam em bandos. Eu gritava na cela”

Ernesto é um dos 44 adultos torturados na infância – física e psicologicamente, mas também de outras maneiras – que contam sua história em um livro lançado em novembro pela Comissão da Verdade do Estado de São Paulo “Rubens Paiva”. Infância roubada – crianças atingidas pela Ditadura Militar no Brasil é a memória do inominável que precisa ser nomeado para que cada um deles possa viver, para que o crime de Estado não se repita. A maioria dos depoimentos foi registrada em audiências na Comissão da Verdade de São Paulo. Algumas pessoas, que não puderam comparecer ou não conseguiam falar sobre o assunto, foram entrevistadas depois.

O que dizer sobre crianças torturadas pelo Estado? E torturadas ontem, em parâmetros históricos, bem aqui? Os relatos desse livro são alheios aos adjetivos. São silêncios que falam. E soluçam. Como João Carlos Schmidt de Almeida Grabois, o Joca, antes mesmo de nascer. Ele estava na barriga da mãe, Crimeia, quando ela levou choques elétricos, foi espancada em diversas partes do corpo e agredida a socos no rosto. Enquanto ela era assim brutalizada, os agentes da repressão ameaçavam sequestrar seu bebê tão logo nascesse. Quando os carcereiros pegavam as chaves para abrir a porta da cela e levar Crimeia à sala de tortura, o bebê começou a soluçar dentro da barriga. Joca nasceu na prisão e, anos depois, já crescido, quando ouvia o barulho de chaves, voltava a soluçar. A marca da ditadura nele é um soluço.

Torturado por agentes da repressão ainda bebê, ele nunca se libertou do pavor. Suicidou-se aos 40 anos

Perto da hora do parto, em vez de levarem Crimeia para a enfermaria, a colocaram numa cela cheia de baratas. Como o líquido amniótico escorria pelas pernas, elas a atacavam em bandos. Isso durou quase um dia inteiro. Só no fim da tarde, com outros presos gritando junto com ela, a levaram para o hospital. O obstetra disse que, como não estava de plantão, só faria a cesariana no dia seguinte. Crimeia alertou que seu filho poderia morrer. O médico respondeu: “É melhor! Um comunista a menos”. O pai de Joca foi assassinado pelo regime militar meses depois de o menino nascer. A primeira vez que ele viu o rosto do pai foi aos 18 anos, numa foto nos arquivos do DOPS (Departamento de Ordem Política e Social) de São Paulo.

Carlos Alexandre Azevedo, o Cacá, não suportou a lembrança. Talvez porque ele nunca pôde transformá-la em memória. Era nele algo vivo e sem palavras, um silêncio que não conseguia se dizer. E um silêncio que não consegue se dizer é um pavor. Ele tinha um ano e oito meses quando sua casa foi invadida por policiais do DOPS/SP, em janeiro de 1974. Como começou a chorar, os policiais deram-lhe um soco na boca que de imediato sangrou. Passou mais de 15 horas em poder da repressão, nas mãos de funcionários do Estado, enquanto lá fora gente demais vivia suas vidas fingindo que nada acontecia. Seus pais ouviram relatos de que nesse período o menino, pouco mais que um bebê, teria levado choques elétricos. Cacá se matou aos 40 anos, em 2013. Seu pai diria: “Ele ficou apavorado. E esse pavor tomou conta dele. Entendo que a morte dele foi o limite da angústia”.

“Testemunhei o assassinato do meu pai. Não posso nem quero esquecer, porque a única lembrança que tenho dele é a da sua morte”

 

Ângela Telma de Oliveira Lucena escolheu lembrar. Tinha três anos e meio quando executaram o pai diante dela. Ângela diz:

“Eu lembro como ele estava vestido. Eu lembro exatamente como tudo se desenrolou naquele dia. Eu estava no colo da minha mãe, e quando fui crescendo, durante muitos anos ficava pensando se tinha sonhado aquilo ou se era realmente um fato que tinha ocorrido. Eu vivia um conflito entre apagar, riscar aquilo da minha vida, mas, ao mesmo tempo, sabia que, se fizesse isso, estaria riscando a história da minha família. (…) As pessoas sempre colocam em dúvida se eu realmente consigo lembrar da morte do meu pai. (…) Eu gostaria muito de poder apagar esse momento do assassinato do meu pai da minha vida. Mas eu não posso, eu não quero e eu não consigo. Porque a única memória que tenho do meu pai é exatamente o momento da sua morte”.

Houve Paulo Fonteles Filho, cujo parto da mãe foi uma tortura iniciada por policiais, completada pelo médico. Aos cinco meses de gestação, Hecilda era espancada com socos e pontapés, aos gritos de: “Filho dessa raça não deve nascer”. Era mantida acordada a noite inteira com uma luz forte no rosto, no que se chamava de “tortura dos refletores”. Depois, sentada numa cadeira, os fios subiam pelas pernas e eram amarrados nos seios, causando calor, frio, asfixia. Mais tarde, foi colocada numa cela cheia de baratas. Ela já não conseguia ficar nem em pé nem sentada. Como não tinha colchão, deitou-se no chão. As baratas começaram a roê-la. Ela só conseguiu tirar o sutiã e tapar a boca e os ouvidos. Levaram-na então para o Hospital da Guarnição do Exército, em Brasília. Ela lembra da irritação extrema do médico, que induziu o parto e fez o corte sem anestesia. Hecilda não chorou. Ela conta no livro Luta, Substantivo Feminino: Mulheres Torturadas, desaparecidas e mortas na resistência à ditadura, publicado pela Secretaria Especial dos Direitos Humanos: “Depois disso ficavam dizendo que eu era fria, sem emoção, sem sentimentos. Todos queriam ver quem era a ‘fera’ que estava ali”. Assim é contado o nascimento de Paulo, assim é como ele começa a se contar. Nascido entre feras – nenhuma delas a sua mãe. Nascido entre humanos, os mais brutais entre as feras.

E houve as crianças que não nasceram, porque suas mães abortaram durante a tortura

E há aqueles que não nasceram. Como o filho de Isabel Fávero que, aos dois meses de gravidez foi colocada numa sala e torturada com choques, pau de arara, ameaça de estupro e insultos verbais. No quinto dia, abortou. Isabel foi trancada num quarto fechado, onde ficou incomunicável. Ou Nádia Lucia do Nascimento, grávida de seis meses, colocada na temida “cadeira do dragão”. Depois de ter a roupa arrancada, levou choques elétricos por todo o corpo. Abortou. Teve hemorragias e dores, nenhum atendimento médico.

Essa é a memória das crianças da ditadura. É a lembrança de parto de suas mães. Nós, que não fomos torturados, não temos como alcançar como é viver com essa marca – ou tentar fazer marca do que ainda é horror – num momento histórico em que – depois de tudo – alguns brasileiros perderam a vergonha de pedir a volta da ditadura. Podemos tentar nos colocar no lugar desses homens e mulheres, hoje adultos com seus próprios filhos, alguns já avós, nascidos ou presos nos porões em que seus pais foram torturados e alguns deles assassinados. É fundamental tentar vestir o outro, mas não alcançamos. Não há como alcançar. Como é passar pela Avenida Paulista, como aconteceu algumas vezes nas últimas semanas, ouvindo os gritos de gente – gente, certamente gente – gritando por intervenção militar e volta da ditadura. Como é?

“De Grenaldo Mesut a ditadura subtraiu sua própria história”

Entre as dezenas de relatos desse livro, há um que destoa. Este eu conheci de perto. Testemunhei. Ao contrário da maioria, Grenaldo Erdmundo da Silva Mesut não tinha lembrança da repressão. Sequer sabia o que era ditadura para além de um nome vago, uma história que não lhe dizia respeito. Alguns poderiam supor que talvez fosse melhor assim, mas isso é desconhecer o quanto a ausência da memória é brutal, um buraco que se pressente, mas não se sabe como apalpar.

Sobre ele, a jornalista Tatiana Merlino, que o escutou e assina a edição e a organização primorosa desse livro, diz: “A ditadura deixou inúmeras marcas nos filhos das vítimas; dos desaparecidos, assassinados, presos: desde nascimento na prisão, serem levados aos órgãos de repressão, clandestinidade, exílio, banimento, etc. Há histórias de horror, de crianças que viram os pais torturados, que foram sequestradas… Mas a história do Grenaldo me toca por uma brutalidade especial a qual ele foi submetido, que é o desaparecimento, o apagamento, promovido pela ditadura, da sua própria história. A ele foi negado até o direito de vivenciar a dor da verdade de ser filho de um assassinado pelo regime. Para além da subtração da vida, do corpo, a mentira, a subtração da verdade. Quais são os impactos desse crime na construção da identidade do Grenaldo? É essa lacuna, que são se pode mensurar, que me toca profundamente”.

Meu caminho se cruzou com o de Grenaldo de uma forma que só acontece na vida real. Se fosse ficção, a história seria considerada tão fantasiosa que soaria de má qualidade. Na campanha eleitoral de 2002, eu trabalhava na revista Época e minha atribuição era contar o então candidato Luiz Inácio Lula da Silva pela sua trajetória pessoal e familiar. Fiz várias reportagens e, no início do seu mandato como presidente, escrevi sobre a morte de sua primeira mulher, Maria de Lourdes, num parto em que ela e o bebê perderam a vida. Era mais uma das dores de Lula, dono de uma biografia que continha o DNA do Brasil, país que naquele momento ele começava a governar com a promessa de mudar o destino dos mais pobres e estatísticas como as da mortalidade materna.

Durante a investigação jornalística, descobri uma curiosa coincidência. O médico que assinou o atestado de óbito de Maria de Lourdes era um dos legistas acusados de ter forjado laudos para a ditadura. Sérgio Belmiro Acquesta, absolvido pelo Conselho Regional de Medicina um ano antes de morrer, era então gerente do departamento médico da Villares, metalúrgica em que Lula trabalhava como operário, e também funcionário do Instituto Médico Legal de São Paulo. Numa das páginas da reportagem havia a foto de dois casos em que ele teria atuado para apagar a responsabilidade do regime militar. Um dos retratos, em tamanho 3X4, era de um marinheiro, Grenaldo de Jesus Silva, que em 1972 sequestrou sozinho um avião da Varig. Depois de ter liberado todos os passageiros e a maior parte da tripulação, ele foi detido, imobilizado e morto no Aeroporto de Congonhas, em São Paulo, aos 31 anos. No dia seguinte, jornais estamparam a versão do regime: “Encurralado, terrorista suicidou-se”.

Três décadas depois, minha reportagem de capa foi publicada e essa pequena foto, mais do que toda a história de Lula e Lourdes, moveu lembranças insepultas. Dias depois, um homem que se apresentou como ex-sargento especialista da Aeronáutica, José Barazal Alvarez, então com 63 anos, procurou a revista. Quando o sequestro acabou, ele tinha sido o encarregado de fazer o relatório e recolher os pertences do morto. Ao examinar o corpo de Grenaldo, contou ter encontrado no peito uma carta ensanguentada e um segundo tiro. Nessa espécie de carta testamento, Grenaldo contava as razões do sequestro para o filho e prometia buscar a família tão logo chegasse ao Uruguai. José manteve segredo do que viu por 30 anos, não mencionou nada nem mesmo à própria mulher. Mas era assombrado pela carta, porque sabia que em algum lugar havia um filho que nunca recebera a palavra do pai, um gesto que, por não ter se completado, teria de ter causado estrago. Era desse pesadelo que José queria se libertar quando conversamos pela primeira vez. Ao ver a foto do marinheiro “suicidado” na reportagem, ele decidiu buscar o filho sem pai – e a libertação.

Em uma reportagem sobre a primeira mulher de Lula, o ex-militar reencontrou o rosto que o assombrava havia 30 anos, o filho a face desconhecida do próprio pai

Eu procurei o filho. Mas mesmo entre as organizações de mortos e desaparecidos políticos da ditadura, a trajetória, as circunstâncias e a intenção do marinheiro que sequestrou um avião tinha muitas lacunas. Grenaldo foi um dos 1.509 marinheiros expulsos em 1964 por se alinhar com o presidente João Goulart. Destes, 414 foram condenados à prisão. Grenaldo recebeu a pena mais alta: cinco anos e dois meses. Fugiu e iniciou uma vida na clandestinidade. Dele era tudo o que se sabia até ressurgir num avião da Varig.

Tentei vários caminhos para encontrar seu filho, não consegui. Quando o telefone da minha mesa na redação tocou, eu ainda o procurava, mas já tinha escassas esperanças. No outro lado, uma mulher me disse que o filho do marinheiro queria conversar comigo. As linhas finalmente se cruzavam e, por um breve instante, esqueci de respirar. O que tinha se passado era algo tão prosaico, um clichê. Uma mulher folheava distraída uma revista velha no consultório do dentista, quando se deparou com o nome bastante raro. De imediato ligou para a irmã: “Leila, tem um homem aqui com o mesmo nome do seu marido. Será que não é o pai dele?”.

O marido de Leila não falava do pai. Ele era sobrevivente de uma infância arruinada, na qual o legado do pai era um “sangue ruim”. Sua mãe nunca soube das ações políticas do marido e, quando ele sumiu e reapareceu na capa dos jornais como “terrorista”, ela não pôde entender. Mônica Mesut já conhecera o marido na clandestinidade, na cidade paulista de Guarulhos, sem jamais ter sido informada de que ele tivera outra vida. Enquanto esteve com ela, Grenaldo foi vigia da construtora Camargo Corrêa e teve pelo menos dois negócios fracassados. Em 1971, começou a receber cartas que o deixavam muito nervoso. Um dia saiu de casa prometendo voltar para dar a família uma vida melhor e só voltou a aparecer num avião da Varig. O filho tinha quatro anos.

Até a vida adulta, do pai ele só sabia que era “ladrão” e “terrorista”. A família era muito pobre, sem nenhuma formação política e precária educação. Grenaldo, o filho, cresceu num cenário em que tudo faltava, entre uma mãe alcoólatra, um tio violento e uma avó devastada. Christina, a avó, e Mônica, a mãe, já eram elas mesmas sobreviventes de uma outra guerra. Ao fugir da Alemanha depois da Segunda Guerra Mundial, Christina encontrou um bebê nos braços de uma mulher morta. Sem leite ou comida, rasgou o pulso e alimentou-o com sangue. Era Mônica, a mãe de Grenaldo, que em 1972 não suportou ver o marido e pai do seu filho como terrorista e suicida nas capas dos jornais. Acreditou na ditadura e na imprensa. Em uma família na qual o passado já era trevas, mais um apagamento fazia todo o sentido.

Quando Grenaldo ainda era criança, Mônica literalizou a destruição da memória ao sofrer um acidente vascular cerebral (AVC) que a reduziu a quase nada. Morreria só anos depois. Enquanto viveu, Grenaldo e a mãe eram espancados primeiro pelo padrasto, depois pelo tio. O nome do pai só emergia pelo ódio, na boca de todos, por qualquer motivo e antes de cada surra: “Seu filho de ladrão!”. E então, quando ele tinha 35 anos, já professor de educação física e pai de família, apareceu aquele nome numa reportagem, com uma história diferente. Na mesma página de revista, José reencontrou o rosto que o assombrava, Grenaldo deparou-se com a face desconhecida do próprio pai.

O filho do marinheiro marcou um encontro comigo numa pizzaria de São Paulo. Eu carregava vários livros sobre a ditadura para dar a ele e um enorme temor. Como contar a um filho quem era seu pai? Como dar a um filho notícias do pai? Como se faz algo assim tão enorme, com que palavras? Me senti tão insuficiente. Cheguei mais cedo, como sempre faço, e esperei. Vi aquele homem enorme chegar, com o rosto transtornado por algo que era medo e era expectativa e era, me parecia, um pedido de compaixão. Era como se ele suplicasse com aqueles olhos arregalados, quase infantis, que eu tivesse cuidado, que eu possuía ali o poder de acabar com o delicado equilíbrio que ele havia alcançado com um esforço impossível de mensurar. Percebi que ele não tinha a menor ideia do que ia ouvir. Naquele momento, Grenaldo começou uma travessia em busca de um pai e de um país. Os dois, ao mesmo tempo. E eu era a ponte imperfeita e aquém diante dele. Quando voltei desse encontro, lembro de ter deitado na cama de roupa e ficado ali de olhos estalados até o dia amanhecer, porque era tão grande aquilo, grande demais.

Grenaldo iniciou, aos 35 anos, uma travessia em busca do pai – e do país

Dias depois, marquei um encontro entre Grenaldo, o filho, e José, o ex-militar. A cena era impressionante. Grenaldo caiu de joelhos diante de José. E José libertou-se de um pesadelo de 30 anos. Todos naquela sala choravam. Naquele momento, a vida não cabia em nós.

José encerrava ali três décadas de um pesadelo recorrente, o de um homem assassinado, amontoado como um saco de lixo, num Opala preto da repressão. E Grenaldo iniciava uma série de noites agitadas, em que sonhava ser um detetive em busca de pistas.

Com a ajuda de um advogado, Grenaldo e eu passamos semanas, meses, buscando a carta que era sua. Numa noite, lembro de outra cena: as fotos do inquérito militar espalhadas pelo chão da sala da casa de Grenaldo. As imagens do pai morto, sangue, e nós dois tentando desvendar aquele quebra-cabeça macabro. Eu pensava: como ele vai suportar esse destino transtornado de um dia para o outro?

Grenaldo tinha – tem – algo que poderia ser definido como uma pureza resistente, algo que ele manteve intacto mesmo no inferno que foi sua infância, algo que eu já vi em outros sobreviventes, e algo que naquele momento o salvava de novo. Consegui localizar a última pessoa a encontrar seu pai com vida no avião e provar que ele foi assassinado. Testemunhas lembravam do estranho caso do homem “suicidado com um tiro na nuca”. A granada que supostamente o marinheiro portava durante o sequestro era, segundo José, um carretel de pescaria enrolado com fita crepe.

Grenaldo, o pai, foi reconhecido como um dos executados pela ditadura, e o filho pôde receber uma indenização do Estado. Meses depois, ele reencontrou a avó paterna no Maranhão e resgatou os laços perdidos com uma família que não sabia que tinha. Ele soube então que, depois de deixar a casa de Guarulhos e antes de sequestrar o avião, o marinheiro perseguido pela repressão tinha visitado a mãe, para dar a notícia de que ela tinha um neto e lhe deixar uma foto do menino. Atrás do retrato estava escrito: “São três anos que completo, sou um meninão. Um dia vou crescer, visitar o Maranhão. Naldinho. 9/6/71”. Passaram-se mais de três décadas até ele desembarcar no aeroporto de São Luís, onde a avó o esperava. Viveram uma relação de afeto pungente até a morte dela.

Nunca conseguimos encontrar a carta, e o gesto do pai jamais será completado. É enorme a tragédia de uma carta que não encontra seu destinatário. Essa letra perdida será sempre um buraco que Grenaldo terá de sustentar, mas um buraco que ele vai preenchendo com a construção da memória. Hoje ele tem um pai – e tem um país. E é com os pedaços faltantes de ambos que precisa lidar. Grenaldo se prepara agora para contar para sua filha mais velha a história do avô. E às vezes, quando um dos dois filhos diz que não consegue fazer alguma coisa, ele diz: “Não fale que você não consegue, essa palavra não pode existir. Você é neto do Grenaldo!”.

Não sei quem são os brasileiros que gritam nas ruas pedindo a volta da ditadura. Desconheço as pessoas que clamam por intervenção militar como se isso não fosse uma vergonha, uma indignidade, e sim a prerrogativa de “cidadãos de bem”. Acho que nunca tive tanto medo desse deformado discurso “do bem” quanto hoje, essa época em que todo o pudor foi perdido e a ignorância da História é ostentada como um troféu. Sei que são pessoas, porque só humanos são capazes de algo tão brutal.

Dizem que eram “apenas” 400 no primeiro sábado de dezembro, em São Paulo. Alegam que 400 pedindo intervenção militar é pouco. Eu digo que um é muito. Respeito o direito que têm de se expressar, porque ao fazê-lo reforçam a expressão máxima da democracia, na grandeza de acolher a voz até mesmo de quem exige o seu fim. Mas me reservo o direito de, por um momento, escolher a ingenuidade. Prefiro acreditar que vocês não sabem do que falam nem o que pedem. Não podem saber. Se soubessem, não ousariam.

***
Eliane Brum é escritora, repórter e documentarista. Autora dos livros de não ficção Coluna Prestes – o Avesso da Lenda, A Vida Que Ninguém vê, O Olho da Rua, A Menina Quebrada, Meus Desacontecimentos e do romance Uma Duas; www.elianebrum.com

Cestas de Natal, Beltrame e bandidos em liberdade

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 17 de Dezembro de 2014

O que você acha, leitor? As cestas de Natal dos PMs vão sair ou não?

Preso na semana passada, Saílson José das Graças disse que já matou 43 pessoas. Sempre tranquilo, conta seus crimes como se estivesse explicando a jogada de um gol. Para ele “matar alguém é um trabalho como todos os outros”. Pois é! Mas muitos acham que o monstro de Corumbá, nome do bairro onde morava, na Baixada Fluminense, e como a imprensa o tem classificidado, é normal. É mole?

Parabéns ao secretário  de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, pela sa posição firme contra a decisão da Corregedoria da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro de manter o major Edson dos Santos na corporação. A informação foi publicada na última terça-feira, na coluna Justiça e Cidadania, do jornal O DIA. O oficial, ex-comandante da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha, Zona Sul do Rio, é o responsável - juntamente com outros 24 militares- pelo desaparecimento e morte do pedreiro Amarildo de Souza, morador na favela, em julho do ano passado, fato que teve repercussão nacional.

Bandidos em liberdade - Continuam nas ruas os bandidos Edson Silva de Souza, o Orelha, chefe do tráfico na Fazendinha e Nova Brasília, no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio; Johnny Lúcio da Silva, o Bebezão - um dos principais ladrões de cargas do Rio - e Celso Pinheiro Pimenta, o Playboy, chefe do tráfico no Morro da Pedreira, em Costa Barros, subúrbio do Rio.  

“Jogar para a arquibancada”

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 16 de Dezembro de 2014

Os três jornais do Rio de Janeiro têm dado destaque ao caso do serial killer Saílson José das Graças, 26 anos, preso em flagrante no último dia 9, pela morte de Fátima Miranda, no bairro de Corumbá, município de Nova Iguaçu, Baixada Fluminense.

Na Delegacia de Homicídio da Baixada, Saílson confessou - com uma frieza que deixou perplexos os policiais - ter matado pelo menos 43 pessoas nos últimos nove anos. Ressaltou que tinha prazer em matar. Em 2007 foi preso por roubo, furto e porte ilegal. Disse que cometeu o primeiro assassinato aos 17 anos. “ Aí foi vindo na mente fazer mais e passei a gostar”.

Desde 2012 mulheres vinham sendo assassinadas em Belford Roxo. Mas a polícia jamais conseguir prender o assassino. Na verdade, faltou vontade de investigar. Eram mulheres pobres, da Baixada, as famílias não reclamam, não fazem pressão. Sem recursos, convivendo com uma série de limitações, costumam aceitar o infortúnio com resignação. Autoridades só aparecem na Baixada em época de eleição.

Apesar dos vários crimes cometidos, Saílson só acabou preso porque uma mulher que sobreviveu a um ataque tomou coragem e foi à delegacia prestar queixa.

Quando tinha que investigar a polícia foi omissa. Agora,  resolveu mostrar serviço - jogar para a arquibancada -, pois o caso ganhou a cobertura dos jornais. Está investigando os crimes do Saílson. Até o último domingo, 11 vítimas foram confirmadas.

E se uma das mulheres assassinadas fosse filha ou parente de um parlamentar? Ou de algum ricaço?  

Resumo da Semana

Postado por Paulo Cezar Soares | Sábado, 13 de Dezembro de 2014

PMs baleados - No último dia 8, três PMs da Unidade de Polícia Pacificadora  (UPP) Nova Braília, no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, foram baleados  em conronto com traficantes. Um dos militares foi atingido no peito. O trio foi levado para o hospital Getúlio Vargas, na Penha, subúrbio do Rio.

 Justiça lenta - O filho do empresário Eike Batista, Thor Batista, 23 anos, teve o carro apreendido porque  estava com o licenciamento anual atrasado. No último dia 6, Thor foi parado - durante a madruagada - numa blitz da Lei Seca, no bairro da Gávea, Zona Sul do Rio. Ele fez o teste do bafômetro, que deu negativo. Mas teve o carro apreendido.
Em março de 2012, Thor foi condenado por ter atropelado e matado um homem andando de bicicleta, com o seu Mercedes-Benz. O fato ocorreu no município de Duque de Caxias, Baixada Fluminense. Wanderson dos Santos, um humilde ajudante de caminhão, morreu.
Thor foi condeando em jungo junho do ano passado a prestar dois anos de serviços comunitários em instituição de recuperação para vítimas de acidente de trânsito. Teve a carteira de habilitação suspensa pelo mesmo período - portanto, não poderia estar dirigindo -, além de uma multa de R$ 1 milhão pela morte de Wanderson.
A defesa recorreu. mas o recurso ainda não foi julgado. Não esqueça, leitor, que a Justiça é lenta. Em algumas situações, nem anda.

 Bandidagem em São Gonçalo - Policiais da Delegacia  de Combate às Drogas ( Dcod), após uma investigação que durou cinco meses, prenderam 12 acusados durante operação para cumprir 34 mandados de prisão na favela do Salgueiro, um dos locais mais perigosos do município de São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio. Entre os envolvidos estão dois comerciantes que moravam em uma casa de luxo dentro da favela e gerenciavam negócios da quadrilha, expulsavam moradores e vendiam ou alugavam os imóveis.
A quadrilha recebia orientações de Antônio Hilário Ferreira, vulgo Rabicó, que, mesmo preso no Complexo de Gericinó, Zona Oeste do Rio, ainda dá ordens aos bandidos que estão soltos e comanda o tráfico na localidade.
Por que Rabicó ainda não foi transferido para um presídio federal?

Sequestro - O bombeiro Alcides Nunes da Silva Filho, o Cidinho, o PM desertor Euclides Correa da Silva e o PM Leandro Freitas da Silva, foram presos na última terça-feira. O trio é acusado de sequestrar um homem e receber resgaste de R$8 mil, três relógios, dois cordões e um Fiat Idea. Fagner da Silva Rodrigues, vulgo Faguinho e Roberto Marcolino da Silva, que ajudaram a negociar a venda do veículo, vão rsponder em liberdade pelos crimes de falsificação de documento e estelionato. Os PMs e o bombeiro estão presos.
Foram denunciados - de acordo  com a coluna Justiça e Cidadania do jornal O DIA - pelo promotor Homero das Neves.

Caso Amarildo -  Numa matéria exclusiva do jornal O DIA na última quinta-feira, fica claro - mais uma vez - que o  ex-comandante da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) da Rocinha, favela localizada na Zona Sul do Rio, major Edson dos Santos é acusado de comandar grupo que teria pago a duas testemunhas para mentir no caso  do desaparecimento e morte do pedreiro Amarildo de Souza, 48 anos, em julho  de 2013. Portanto, não  vale mais o Inquérito Policial Militar (IPM) que havia “absolvido” o major de ter cometido crime militar.
O major e o tenente Luiz Felipe Medeiros e os soldados Newland de Oliveira e Silva Júnior e Bruno Medeiros Athanasio foram denunciados por corrupção de testemunhas. As testemunhas foram pagas para mentir em depoimento, dizendo que Amarildo foi assassinado pelo tráfico de drogas.

“No documento que O DIA teve acesso com exclusividade, os promotores relatam  que o geupo pagou R$850 em dinheiro para uma testemunha afirmar no Ministério Público e na Divisão de Homicídios, que Amarildo fora assassinado pelo traficante conhecido como Catatau. O dinheiro era para pagar aluguel de uma casa fora da Rocinha. A outra testemunha  recebeu R$500 e fraldas descartáveis para dar o mesmo depoimento. A cobrança do material foi comprovada em mensagens de texto da testemunha para o celular do major Edson. A denúncia vai para a Auditoria de Justiça Militar. Depois das testemunhas mudarem a versão dos depoimentos, elas foram perseguidas pelo PMs”

E uma das testemunhas está sumida desde agosto último. Sua filha  registrou seu desaparecimento na Divisão de Homicídios Lúcia Helena, que afirmou ter mentido  no seu depoimento, ao afirmar que  o pedreiro Amarildo teria sido morto por um trafcante. Ela estava no programa de Proteção à Testemunha e a polícia tinha arrumado sua mudança  de residência.

As investigações para descobrir onde está Lúcia Helena agora estão sob  a responsabilidade da Delegacia  de Descoberta de Paradeiros (DDPA).

Psicopata - E, para encerrar, a prisão do psicopata Saílson José das Graças, 26 anos, preso em flagrante pela mortge de uma mulher em Nova Iguaçu, Baixada Fluminense. Em depoimento Saílson disse que, pelas suas contas já matou 43 pessoas, a maioria mulheres. E frisou que teve prazer e matar.
Pela sua frieza e o número de assasskinatos, Saílson chcou os cariocas. E os três jornais do Rio deram chamada na primeira página.