O socorro que vem do alto

Postado por Paulo Cezar Soares | Domingo, 29 de Junho de 2014

A luta contra o crime não se materializa apenas nas operações policiais, confrontos e prisiões. Para que o trabalho dos policiais nas ruas tenha êxito e seja realizado da forma mais  profissional possível, toda a estrutura da segurança pública tem que funcionar bem azeitada. Há demandas que a maioria da opinião pública não toma conhecimento. Mas, nos bastidores, profissionais experientes e com noção social da sua profissão, trabalham fazendo contatos com empresas, autoridades e, com paciência semelhante ao personagem bíblico Jó, enfrentam os desafios da burocracia.

No livro O Pássaro de Ferro, de Marcio Colmerauer - Uma história dos bastidores da segurança pública do Rio de Janeiro - Editora Record, você vai conhecer a luta de três amigos de infância que, após anos de convivência voltam a se encontrar como integrantes da área de segurança pública. O autor foi subsecretário de Segurança do Estado do Rio de Janeiro em 2007 e 2008. É especialista em Segurança Pública.

Em 2007, já como policiais, no encontro entre os três amigos (Rodrigo Oliveira, delegado. Comandava a Coordenadoria de Recursos Especiais - CORE -, grupo  de elite da Polícia Civil; Adonis Lopes de Oliveira, chefe do Setor Aéreo da Polícia Civil e Marcio Colmerauer) ressurge um assunto antigo: a necessidade da polícia adquirir um helicóptero blindado para operações em favelas. As aeronaves comuns colocavam em risco toda a tripulação, diante do poderio bélico dos traficantes, pois possuiam apenas uma blindagem no piso. Por isso eram vulneráveis. “Atuavam sempre em curva e, por isso, os tiros chegvam sempre pela lateral Era comum exibirem vários disparos na fuselagem e nenhum no piso blindado, já que operavam, na maioiria das vezes, abaixo da linha de tiro. Mesmo diante do risco crescente de serem abatidos, continuavam em operação diante da sua importância em áreas de confronto. A presença da aeronave, em determinados momentos, era questão de vida ou morte para o pessoal de terra” - explica o autor.

A partir da página 62, o leitor acompanha como a realidade da aviação policial começa a mudar. Tudo tem início quando o piloto Oswaldo Franco de Mendonça assistiu ao documentário Discovery Channel, sobre a modernização do UH-1H (Bell UH-1H - Huey), helicóptero norte-americano usado na Guerra do Vietnã (1955-1975), mais conhecido como “Sapão”, um dos destaques do filme Apocalypse Now, de Francis Ford Coppola. Com as modificações o helicóptero ganhou um novo nome - Huey II. Entra em cena a luta para resolver entraves burocráticos e convencer o chefe - secretário José Mariano Beltrame - que a polícia necessitava de um helicóptero com as características do Huey II, um dos melhores helicópteros militares do mundo. Todos os obstáculos foram superados e, após um período de aproximadamente dois anos, o helicóptero passou a fazer parte da Polícia Civil do Rio de Janeiro. Veio voando dos Estados Unidos e foi de fundamental importância em todo o processo de pacificação das comunidades cariocas.  

TRECHO DO LIVRO - 10 de novembro de 2008


Quando surge nas áreas de confronto, o helicóptero UH-1H Huey é temido pelos bandidos.

O Morro Dona Marta, localizado entre Botafogo e Laranjeiras, é considerado uma favela pequena. No segundo semestre de 2008, a Polícia Civil realizou uma operação no Dona Marta desestabilizando o tráfico local,  que depois disso ficou sem liderança forte dentro da comunidade.

Na parte de cima da favela, existia uma creche cujas portas se encontravam há muito tempo fechadas. A primeira-dama do Estado do Rio de Janeiro, Adriana Ancelmo, na qualidade de presidente de honra do Rio Solidário, tentou reabri-la, o que não foi posível pela proibição do tráfico. Sua indignação gerou uma demanda para a Segurança entrar naquele morro e acabar com a afronta. Aproveitando, na ocasião, a falta de liderança do tráfico local, a Polícia Militar entrou sem grandes confrontos e ocupou o Dona Marta em novembro. No prédio da creche foi criada a sede da primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do Rio de Janeiro, e duas creches foram abertas na parte de baixa do morro. A consolidação dos projetos das UPPs não ocorreu em reuniões formais, com pautas definidas.

Tradicionalmente, almoçávamos com o secretário e seus subsecretários, diariamente, em uma sala de reuniões ao lado da sala de Mariano. Nesses almoços, conversávamos sobre todos os assuntos que estavam em pauta; surgiram desafios pessoais, em que alguém levantava a possibilidade de determinada medida, como, por exemplo, entrar e permanecer em caráter definitivo em determinada comunidade; ouro colega levantava as dificuldades em termos de necessidade de efetivo e se prontificava a levantar os dados por curiosidade, para testar a ideia proposta. Em alguns dias, esses almoços duravam algumas horas, e muitas inciativas de sucesso surgiram dessas conversas, sendo construídas aos poucos, de forma incremental, entre elas as UPPs.

O crime na comunidade caiu a quase zero, os índices de criminalidade na área de Botafogo foram reduzidas drasticamente. Para comandar a UPP, por indicação do coronel Marcos Jardim, Mariano escolheu a major Priscila, com uma história de vida muito particular, criada dentro de uma comunidade e conhecendo bem como é a vida nessas regiões. Com uma importantes passagem pelo 16º Batalhão, ela era a pessoa certa para a missão. A primeira UPP deu um sopro de esperança à população do Rio de Janeiro. As pessoas viram que era possível.

Com a implantação oficial em dezembro de 2008, a Segurança Pública iniciou uma nova era,  em que a retomada dos territórios e a libertação da população das comunidades passaram a ser o norte da polícia pública de segurança, abrindo uma janela de oportunidade fundamental para a inclusão das comunidades ao resto da cidade.

Um ano de prisão

Postado por Paulo Cezar Soares | Sábado, 28 de Junho de 2014

Publicado originalmente no site Brasil247

Autor - Wadih Damous

Presidente da Comissão Nacionald de Direitos Humanos da OAB e da Comissão da Verdade do Rio de Janeiro

 

Rafael Braga Vieira era um morador de rua, que ganhava a vida catando latas. Foi preso no dia 20 de junho de 2013, depois de encerrada uma manifestação no Centro do Rio de Janeiro.

Como aconteceu no término de outros protestos, naquele dia houve quebra-quebra promovido por grupos de mascarados e a polícia efetuou prisões.

Entre os detidos estava Rafael Braga Vieira. Ele tinha consigo, além de latas de cerveja amassadas, com que buscava seu sustento, recipientes com restos do desinfetante Pinho Sol e de água sanitária. Ao contrário dos demais, ficou preso preventivamente.

No dia 2 de dezembro o juiz Guilherme Schilling Pollo Duarte, da 32ª Vara Criminal, o condenou a cinco anos e dez meses de prisão em regime fechado, por “porte de artefato explosivo”. Serviu como agravante para a condenação o fato de Rafael já ter sido condenado duas vezes por roubo.

Segundo o magistrado, laudo pericial “atesta que uma das garrafas tinha mínima aptidão para funcionar como coquetel molotov”. “O etanol encontrado dentro de uma das garrafas pode ser utilizado como combustível em incêndios, com capacidade para causar danos materiais, lesões corporais e o evento morte”, afirmou o juiz. A Defensoria Pública recorreu.

Mas Rafael teria sido condenado se fosse de classe média?

O desinfetante encontrado em seu poder tem, de fato, álcool em sua composição. Aliás, como os demais produtos do gênero vendidos em supermercados. Mas, daí a condenar quem o tem consigo por porte de “artefato explosivo” é evidente exagero.

Estamos diante de um bode expiatório. Para isso, nada melhor do que um humilde morador de rua, catador de latas.

Semana passada, Rafael completou um ano de prisão.

Esperamos que esse aniversário não se repita e que a injustiça de que foi vítima seja reparada o quanto antes.

 

Acusado de triplo homicídio

Postado por Paulo Cezar Soares | Sexta-feira, 27 de Junho de 2014

Felipe Charlie da Silva, 29 anos, foi preso na última quinta-feira por policiais da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí, no bairro Lagoinha, município de São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio. Ele é acusado de triplo homicídio. Em março último teria matado a tiros Weslen Pereira da Silva, Mário Filipe Eustáquio Nascimento e  André Lucio da Silva Lima. O fato ocorreu no bairro Jardim Catarina - São Gonçalo. O assassino, que trabalhava como estofador, já tem uma passagem pela policia, em 2011, por homicídio

Prostituta denuncia policiais militares

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 25 de Junho de 2014

Em Niterói, Região Metropolitana do Rio, uma prostituta de 26 anos denuncia policiais militares de agressão, estupro e extorsão. Na noite do último sábado, Isabel (é com esse nome que se apresenta para os clientes) foi cercada por uma moto e um caro. O condutor da moto a segurou pelos cabelos e a jogou dentro do carro. Isabel conta que, no interior do veículo sentiu uma faca ou navalha cortar seus braços. E que os quatro homens que estavam no carro diziam apenas: “Saia da mídia. Pare com as denúncias”. A agressão, que durou cerca de 30 minutos, foi registrada na 76ª DP - Centro da cidade.

No início do mês Isabel e outras diversas colegas de profissão estiveram na Assembléia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (Alerj) e denunciaram - em audiência pública - que foram extorquidas e estupradas por policiais miltares durante uma operação policial no final  de maio. O fato ocorreu no prédio onde trabalham as prostitutas, localizado no centro da cidade, na Avenida Amaral Peixoto. Ela teme por sua segurança. Desde o último sábado não retorna para sua casa. Frisou que o filho está doente e que pede seu retorno.

No fim de maio, a polícia realizou uma operação no prédio onde Isabel trabalhava. O objetivo foi verificar casos de exploração sexual e apreender drogas. Os policiais estavam com mandado de busca e apreensão. Mas, de forma irregular, sem autorização da Justiça, interditaram quatro dos 11 andares do prédio.

O deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), que preside a Comissão de Direitos Humanos da Alerj, disse que acompanha o caso e pedirá audiência com o chefe da Polícia Civil.

Não à violência

Postado por Paulo Cezar Soares | Domingo, 22 de Junho de 2014

Peço licença para tratar de um assunto que não faz parte da linha editorial do blog Na Campana. Refiro-me aos prostestos que aconteceram em São Paulo, na última quinta-feira. Mais uma vez os black blocs partiram para a violência. Quebraram vidraças de uma agência bancária e destruíram uma concesionária de carros importados. No Rio de Janeiro, na última sexta-feira, cerca de 200 manifestantes realizaram um ato contra a Copa do Mundo e em comemoração aos atos de junho do ano passado, no Centro da cidade. Houve confronto com a polícia. Manifestantes foram detidos. Até quando as pessoas que não participam de manifestações e que desejam apenas sair do trabalho rumo aos seus lares sem tumulto nas ruas, vão aturar isso?

Na verdade, os protestos, ao contrário do que pregam os manifestantes nas suas reivindicações, o que desejam mesmo é criar problemas para o governo federal. Desgastá-lo, enfraquecê-lo. Seus integrantes não fazem parte do povão. E nem andam de ônibus. Muitos ainda não possuem vida própria, pois são sustentados pelos pais. Onde estavam os membros do Movimento do Passe Livre (MPL) e dos black blocs há alguns anos, quando o governo do  ex-presidente Fernando Henrique Cardoso privatizou nossas empresas estatais? Onde estavam, também durante o período neoliberal do tucanato, quando um milhão de pessoas ficaram desempregadas em São Paulo?

A oposição dos principais veículos de comunicação de massa contra o governo, numa ação orquestrada desde que o PT assumiu, estimulou o preconceito de classes e o rancor da elite. Os que estão no topo da pirâmide não estão preocupados com os avanços sociais do país no campo social. De forma egoísta e hipócrita, querem apenas manter os seus interesses. Para a elite tudo; para o povão, nada.

Só não consegue enxergar os avanços que o país obteve em todos os campos quem não quer, aqueles que estão aferrados a velhos dogmas e preconceitos de todos os matizes, entre eles, o complexo de vira-lata (expressão cunhada pelo dramaturgo e escritor Nelson Rodrigues em referência ao trauma sofrido pelo Brasil em 1950, quando a Seleção Brasileira foi derrotada pelo Uruguai na final da Copa do Muno de 1950, no Maracanã). A expressão não está restrita apenas ao futebol.

Toda a violência dos prostestos, protagonizados pelo MPL, black blocs e afins, acabou ocasionando a morte do cinegrafista da Rede Bandeirantes, Santiago Ilídio de Andrade, 49 anos, em fevereiro último, vítima de um rojão disparado por um manifestante na Central do Brasil, centro do Rio. O fato teve repercussão internacional.

Ações violentas nada constroem. Foi constrangedor - para dizer o mínimo - as vaias e os xingamentos contra a presidente Dilma Roussseff no estádio - quem chama estádio de futebol de arena é tecnocrata - do Itaquerão. O fato deixa à mostra, entre outras cisas, o caráter e a ética daqueles que vaiaram e xingaram. São certamente os mesmos que pedem mais educação para o país. Uma atitude de rancor, ódio, contrária ao espírito cristão do nosso povo.
Mas tudo isso deixa uma lição: Quem não sabe perder não está preparado para vencer.

“Querem mudar o país? Votem”

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 18 de Junho de 2014

Fonte: Instituto Humanitas Unisinos


PM não revisará ação em protestos, e coronel recomenda: “Querem mudar o país? Votem”

Apesar de reconhecer um caso de abuso policial, Benedito Meira diz que 'manifestantes é que têm que mudar'. Secretário de Segurança Pública elogia: 'Não houve excesso'.

O comandante-geral da Polícia Militar de São Paulo, coronel Benedito Roberto Meira, disse na última sexta-feira (13) que a corporação continuará agindo em protestos populares assim como fez na última quinta-feira (12), na zona leste da capital, durante ato contra a Copa do Mundo. “Quem tem que mudar são os manifestantes, eles é que têm que tomar uma postura diferente”, afirmou, recomendando que as pessoas esperem as eleições para se expressarem politicamente. “Querem mudar o país? Dia 4 de outubro é o momento certo: vai lá e vota.”

Na rápida entrevista que concedeu a parte da imprensa na sexta-feira, Meira foi bastante questionado sobre a ação da PM. No dia anterior, policiais haviam reprimido duas manifestações em menos de duas horas. A primeira, nas redondezas da estação Carrão do metrô, sequer chegou a ocorrer: a tropa dispersou os poucos presentes ainda quando estavam se reunindo, e antes que intencionassem sair em passeata. Logo depois, PMs encurralaram uma concentração de duas mil pessoas em frente ao Sindicato dos Metroviários de São Paulo, no Tatuapé, impedindo que o protesto marchasse pela Avenida Radial Leste ou pelas ruas da região.

Apesar de elogiar a ação de seus homens, o comandante da PM reconheceu pelo menos uma ocorrência de abuso policial durante a jornada. Ao comentar a foto em que um soldado espirra spray de pimenta no rosto de um manifestante rendido, desarmado e cercado por homens da PM, Meira assume o excesso: “Naquele momento em que o manifestante estava desarmado, imobilizado, a utilização do gás pimenta não era necessária”, disse. Logo depois, porém, classificou os manifestantes reprimidos pela polícia como “bando de criminosos” e se disse “tranquilo e confortado” com a aprovação de moradores da região. “Aplaudiram a polícia, não os manifestantes.”

Antes de Meira, quem falou à imprensa foi o secretário estadual de Segurança Pública, Fernando Grella Vieira. Ao ser questionado sobre a ação de quinta-feira, Grella aplicou a mesma fórmula discursiva que utiliza para comentar o desempenho da PM nos protestos: “A polícia agiu corretamente. Os fatos que se cogita de possíveis abusos evidentemente serão tratados no inquérito que o comando já abriu para apurar eventuais episódios”, repetiu. “Mas, pelos relatos que tive, não houve abusos. A PM conseguiu assegurar o direito de ir e vir da população, mantendo as vias livres. Usou a força proporcionalmente aos eventos, mantendo a ordem pública.”

Para o secretário, apesar de ter agido preventivamente, a polícia não reprimiu o direito de manifestação. “A PM estava assegurando o direito de ir e vir das pessoas, inclusive daquelas que iam se dirigir ao evento Copa”, explica, também lembrando que os moradores das redondezas aplaudiram seus homens. Grella voltou a dizer que as pessoas feridas (ao menos 37, de acordo com socorristas voluntários) e detidas (51, segundo dados oficiais) não eram manifestantes. “A bala de borracha não foi empregada contra manifestante, mas contra um grupo de pessoas que estava ali para praticar atos de violência, agressão e ameaça. Contra baderneiro, a polícia tem que usar as armas necessárias.”