Os homens de dedos nervosos

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 29 de Abril de 2014

Por Luciano Martins Costa em 29/4/2014

Comentário para o programa radiofônico do Observatório da Imprensa


Os jornais de terça-feira (29/4) reproduzem e amplificam o noticiário sobre a violência, que ocupou boa parte dos telejornais na noite anterior. Os pontos de difusão do tema são múltiplos, e incluem o emblemático episódio ocorrido em Santo André, na região metropolitana de São Paulo, onde dois agentes públicos descontrolados realizaram mais de trinta disparos no interior do 2º Distrito Policial, causando a morte do jovem médico Ricardo Assanome e ferimentos em duas outras pessoas.

Também há destaque para as investigações sobre o caso da aposentada Arlinda Bezerra de Assis, de 72 anos, atingida durante tiroteio entre policiais e supostos traficantes no Complexo do Alemão, no Rio.

Ainda no Rio, prossegue o noticiário sobre o assassinato do dançarino Douglas Rafael, que se apresentava costumeiramente num programa de variedades da TV Globo. Conhecido como DG, ele foi encontrado caído na escadaria de uma creche e a imprensa continua repetindo as versões apresentadas seguidamente por fontes da polícia fluminense.

O conjunto desse noticiário tem ainda como referência principal o pedreiro Amarildo Dias de Souza, que foi dado como desaparecido no dia 14 de julho de 2013, após ser detido por policiais lotados na Unidade de Polícia Pacificadora na favela da Rocinha, no Rio. Na onda dos protestos que varriam as grandes cidades do país desde o mês anterior, Amarildo acabou simbolizando o cidadão comum, de baixa renda, que comumente preenche as estatísticas de vítimas da violência policial.

O médico Ricardo Assanome desloca o problema para outro patamar, e sua morte instala o terror no seio da classe média tradicional. Por uma dessas mazelas que carregamos, como sociedade construída na desigualdade, até então a enorme lista de pessoas assassinadas por agentes do Estado parecia não sensibilizar a parcela da população tida como privilegiada.

Amarildo foi um ponto fora da curva, que só ganhou notoriedade porque, na ocasião de sua morte, milhares de pessoas, principalmente jovens, estavam mobilizadas por outras questões no complexo de problemas urbanos.

A notícia como espetáculo

O assassinato ao mesmo tempo brutal e estúpido de Assanome joga no colo das classes sociais acima da linha média um dado tenebroso: ninguém está a salvo do sistema de segurança estruturado para preservar o patrimônio em detrimento da vida humana.

O episódio ocorrido no 2º Distrito de Santo André revela que a força policial trabalha sob condições tão estressantes que seus integrantes se tornam incapazes de agir com um mínimo de eficiência em condições críticas. Os homens de dedos nervosos podem apontar para qualquer um e, quando o mal deixa os guetos, a sociedade fica histérica.

Observe-se que a tragédia de Santo André foi produzida pelo barulho de uma motocicleta ao tombar no chão, associado a gritos e movimentação de pessoas em fuga. Não haviam ocorrido tiros ou explosões, nada que indicasse a iminência de um atentado de criminosos contra a delegacia. A hipótese do ataque, inadmissível em qualquer circunstância, era tão real para o agente que iniciou o tiroteio que ele não aventou outra possibilidade, como um acidente de trânsito ou uma briga na rua.

Quatro dias antes desse episódio, um motorista da Polícia Civil, completamente descontrolado, quase havia provocado outra desgraça na região da Avenida Paulista, ao manobrar com imprudência uma viatura para tentar controlar uma multidão de adolescentes histéricas que queriam ver a cantora e atriz Demi Lovato, hospedada no Hotel Intercontinental da Alameda Santos. Despreparado e pronto a sacar sua arma, ele fez manobras bruscas, fazendo com que muitas jovens atravessassem a rua no meio dos carros que passavam.

Nos comentários que se somam ao material jornalístico publicado na internet percebe-se que a sucessão de fatos chocantes como os relatados nos últimos dias ganha colorações partidárias, o que induz a autoridade a trocar a verdade pela versão mais conveniente.

Sabe-se que o noticiário sobre a violência pode produzir uma predisposição a mais violência. Por isso, sempre se recomendou que a imprensa tratasse desse tema com a complexidade que ele carrega. Essa é uma reflexão que os jornalistas e os leitores precisam fazer, diante da tentação de usar esse tema no conjunto do noticiário espetaculoso do cotidiano.

Jornalismo de qualidade

Postado por Paulo Cezar Soares |

A estreia do programa Repórter Record Investigação, na noite da última segunda-feira, mostrou a realidade das gangues em El Salvador, país da América Central, e a falta de estrutura dos presídios, fato que conhecemos bem.

A pobreza extrema e a desagregação familiar são as principais causas que empurram os jovens para o mundo do crime. São os resquícios do período de ditadura no país. Lá, como aqui, as gangues estabelecem o seu território e, se um membro da gangue rival, por qualquer motivo sair do seu território, é morto. Semelhante aos morros do Rio de Janeiro, com as suas facções rivais.

O programa é apresentado  pelo experiente jornalista Domingos Meireles, que iniciou sua brilhante carreira no saudoso Última Hora. E, manda a verdade que se diga, a Record está de parabéns não só pela qualidade do programa - objetivo, bom ritmo e boas entrevistas -, mas também por tê-lo contratado.

Segunda-feira à noite o telespectador já tem uma nova opção: assistir um programa jornalístico de qualidade 

Violência aumenta em Niterói

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 28 de Abril de 2014

Algumas vezes já tratei aqui neste blog a respeito dos índices de violência em Niterói, Região Metropolitana do Rio. A cidade é mal policiada. E possui apenas um batalhão da PM para uma população de 494.200 habitantes - censo IBGE/2013.

De acordo com números do Instituto de Segurança Pública ( ISP) da Secretaria de Segurança do Estado do Rio Janeiro, entre janeiro de 2014, com o mesmo mês do ano passado, a violência aumentou. O índice que lidera é o roubo em coletivo, que quase dobrou de um ano para o outro -40 registros em 2014 contra 21 em 2013. Aumento  de 90%. Em janeiro deste ano foram registrados 316 ocorrências de roubo a pedestres, contra 216 em janeiro do ano passado. Crescimento de 46, 2%. Aumentou também o roubo de veículos. De 112 para 156. Assaltos a estabelecimentos comerciais passaram de 29 para 38. Icaraí, Zona Sul da cidade, lidera o roubo a transeunte.

Na Semana Santa traficantes do Complexo do Caramujo, Zona Norte, atacaram o Destacamento de Policiamento Ostensivo (DPO), que fica na entrada da comunidade. Como se não bastasse o aumento da violência que ocasionou o fechamento do Plaza Shopping - o maior  da cidade - por causa de um tiroteio no Morro do Estado, centro de Niterói, próximo ao shopping, um caveirão da PM, ao entrar no Morro do Céu, que faz parte do Complexo do Caramujo,  atropelou e matou o menor Emanoel Gomes, 16 anos. O fato gerou um violento  protesto de moradores, que incendiaram carros, ônibus, e fecharam a BR-104, o que ocasionou um caos no trânsito.

Na verdade, o governo estadual enfrenta uma crise na área de segurança. A morte do dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira, o DG, que trabalhava no programa Esquenta, da Rede Globo, na favela Pavão-Pavãozinho, Zona Sul do Rio, deixou à mostra, mais uma vez, que as UPPs precisam passar por ajustes de toda ordem. Primeiro, foi a tortura e o assassinato do pedreiro Amarildo na favela da Rocinha, Zona Sul do Rio. E agora a morte do dançarino, cuja mãe acusa os policiais da UPP da favela de torturar e matar seu filho.

E na noite de domingo (27)  uma mulher foi baleada e morreu após um tiroteio entre policiais e bandidos na favela Nova Brasília, no Complexo  de Favelas do Alemão, Zona Norte do Rio. O tiroteio ocorreu após a prisão de Ramires Ribeiro da Silva, 20 anos, que era foragido da Justiça e um dos suspeitos de participação no assassinato da policial militar Auda Rafael Castro, que era lotada na UPP do Parque Proletário, e do subcomandante da UPP da Vila Cruzeiro, tenente Liedson Acácio.
O maior problema do Rio de Janeiro continua sendo a segurança pública.
Uma cidade tão linda e tão violenta.  

Convite recusado

Postado por Paulo Cezar Soares | Sábado, 26 de Abril de 2014

O governador do Estado Rio de Janeiro, Luiz Fernando Pezão, convidou a mãe do dançarino do programa Esquenta, da Rede Globo, Douglas Rafael da Silva, o DG, 26 anos, Maria de Fátima da Silva Pereira, 55 anos, para conversar.  O dançarino foi encontrado morto na última terça-feira, nos fundos de uma creche, na favela Pavão -Pavãozinho, em Copacabana, Zona Sul do Rio.

O que será que o governador Pezão pretendia conversar com a mãe da vítima? Sua atitude lembra o candidato do PSBD à presidência da República, senador Aécio Neves, num anúncio do seu partido na tevê, convidando o eleitor - “Vamos conversar?”

De acordo com o secretário de Segurança Pública, José Mariano Beltrame, os PMs foram verificar uma informação passada pelo Disque-Denúncia de que o traficante Pitbull - Adauto do Nascimento Gonçalves - que seria o chefe da quadrilha que atua na venda de drogas na região, estaria na localidade conhecida como Estação 5. Os policiais foram recebidos a tiros antes de chegarem ao local. Os bandidos também teriam lançado explosivos contra os policiais, que retornaram para a UPP. Teriam ido buscar reforços.

Na última sexta-feria, o jornal O DIA revelou com exclusividade, que existe milícia na favela. O símbolo da milícia Liga da Justiça, a imagem do Batman, uma referência ao ex-PM Ricardo Teixeira da Cruz, foi pintada nos muros da favela. A denúncia foi feita pela União Comunitária - entidade que reúne 10 favelas.

A morte do dançarino continua envolta em contradições. Entre elas, o que causou sua morte? Foi provocada por uma queda, ou por um tiro? O fato coloca à prova, mais uma vez, a eficiência e a credibilidade das UPPs. Espera-se que a investigação seja transparente e rápida.

Na próxima semana a mãe do DG terá um encontro com membros da Anistia Brasil. Dois peritos estrangeiros da organização farão um laudo sobre a morte do dançarino. “Se o  resultado do laudo não foi satisfatório, vou exumar o corpo”- garantiu Maria de Fátima, que recusou o convite do gvernador.

 

Perguntas ainda não respondidas

Postado por Paulo Cezar Soares | Quinta-feira, 24 de Abril de 2014

Os PMs da UPP do Pavão-Pavãozinho, favela localizada em Copacabana, Zona Sul do Rio, torturaram e mataram o dançarino do programa “Esquenta”, da Rede Globo? Os PMs tentaram alterar o local do crime? Moradores disseram que viram PMs entrando e saindo da creche,  onde o corpo foi encontrado, com luvas cirúrgicas. São perguntas que ainda não foram respondidas.

O enterro de Douglas Rafael Silva Pereira, o DG, 26 anos, no cemitério São João Batista, em Botafgo, Zona Sul do Rio, foi tumultuado. Revoltados, os moradores gritavam: “Polícia Assassina” e “Fora UPP”. Douglas deixou uma filha de 4 anos.

As armas dos policiais da UPP foram recolhidas - 6 fuzis e 10 pistolas. Mas a bala que atingiu o dançarino ainda não foi encontrada, o que dificulta o confronto balístico. Novas perícias devem ser realizadas no local. Os nomes dos policiais ainda não foram divulgados. Laudo prelininar do Instituto Médico Legal (IML) revela que o dançarino tinha “marca compatível a ferimento de entrada de projétil de arma de fogo”. As investigações estão sob responsabilidade da 13ª DP e da Divisão  de Homicídios - DH.

EM TEMPO: Há pessoas que não respeitam nada. Nem mesmo a dor dos outros. Tentam tirar proveito de qualquer situação. Só visam os seus interesses. Maus-caracteres. Nesse time atua com desenvoltura a ativista Elisa Sanz, a Sininho (lembram dela?), que tentou puxar um coro de “Não vai ter Copa”, mas não foi acompanhada pelos amigos do dançarino Douglas Rafael, que certamente irão torcer pelo Brasil.

PMs são acusados de torturar e matar dançarino do “Esquenta”

Postado por Paulo Cezar Soares |

A morte do dançarino Douglas Rafael da Silva Pereira, conhecido como DG, 26 anos, que trabalhava no programa Esquenta, da TV Globo, na favela Pavão-Pavãozinho, no bairro de Copacabana, Zona Sul do Rio, coloca os policiais da UPP sob suspeita. O fato, mais uma vez, acende a polêmica a respeito da eficiência da política de pacificação do governo estadual.

De acordo com a mãe de Douglas, Maria  de Fátima da Silva, 55 anos, seu filho foi torturado e morto por PMs. “Ele estava com marcas de chutes nas costas e seu corpo. Seus documentos foram encontrados molhados na delegacia. Iam enterrá-lo como indigente”, revelou. Auxiliar de enfermagem, Maria de Fátima dividia um apartamento com o filho, que estava com R$800 - que sumiram. O corpo de Douglas foi encontrado nos fundos de uma creche no local, na manhã da última terça-feira. Na noite anterior, por volta das 22 horas, ocorreu um tiroteio na comunidade, mas a PM alega que não houve vítimas. Mas, no dia seguinte, o corpo de Douglas foi encontrado na creche. Para a Polícia Civil, Douglas foi morto por um tiro.

Há várias versões para a morte do dançarino do “Esquenta”. Alguns dos seus amigos acusam PMs da UPP de agressão a Douglas, que teria questionado os policiais pelo sumiço de uma moto de um colega, morador do Pavão-Pavãozinho. A moto teria sido confiscada pelos policiais, sob alegação de que era roubada. Outra versão para a morte diz que Douglas havia pulado um muro, fugindo do tiroteio entre traficantes e policiais. E, ao tentar se defender do tiroteio, foi confundido com um bandido. O número de tiroteios na favela aumentou depois que o chefe do tráfico local, Adauto do Nascimento Gonçalves, o Pitbull, não retornou para a prisão, após o benefício de uma Visita Periódica ao Lar. Está foragido desde junho do ano passado. Douglas era o líder do grupo Bonde da Madrugada. No próximo mês o grupo - que tinha shows agendados na França e em Angola - iria gravar um DVD com a participação do cantor Péricles.

A morte do dançarino do programa Esquenta ganhou repercussão internacional e provocou uma onda de protestos em Copacabana, em ruas próximas à favela, que recebeu reforço policial.

Espera-se que a opinião pública seja informada o mais rapidamente possível, e de forma transparente, o que na verdade ocasionou a morte do dançarino DG. E se os policiais da UPP estão envolvidos ou não.