A mentira como arma eleitoral do fascismo

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 2 de Dezembro de 2020

 

Publicado no site Carta Maior

Por Armando Januário dos Santos*

Em Duas mentiras contadas por crianças, texto publicado em 1913, Sigmund Freud (1856-1939) salienta como a mentira está conectada a forças preponderantes, as quais podem ser o prenúncio de vindouras neuroses. Destaca-se, aqui, o aspecto infantil da mentira, como alternativa a verdade e que pode ser utilizada para atingir interesses, manobrar situações a seu próprio favor e, sobretudo, conquistar o poder.

Assistimos pelo menos em duas capitais, no último 29 de novembro, a ocorrência da mentira como instrumento para auferir vantagens eleitorais. Nesse cenário, muitas foram as mentiras utilizadas pelos adversários das candidatas às prefeituras de Porto Alegre e Recife, Manuela D’ávila e Marília Arraes, respectivamente. Na contemporaneidade, a mentira ganhou um termo agradável aos ouvidos: fake news.

Vendo os resultados positivos que esse tipo de tática conquistou nas eleições presidenciais de 2018 – mamadeira de piroca e kit gay são exemplos – o adversário de Marília Arraes disseminou mentiras nas redes sociais, a exemplo da candidata ser contra a Bíblia, mesmo sendo ela cristã. Mais que isso: afirmou, sem provas, que Marília tinha empregado funcionários fantasmas.

Em relação a Manuela D’ávila, a situação foi ainda mais grave. Só no primeiro turno, a Justiça determinou a exclusão de 91 links que disseminaram mentiras contra a candidata, entre elas, montagens que retratam a candidata com foto e brinquedo de martelo no Dia das Crianças. Mesmo assim, Manuela chegou ao segundo turno, contudo, a máquina de fake news já havia feito estrago suficiente para lhe retirar a vitória.

Mentir sempre foi um recurso humano para levar vantagem em qualquer área. Não obstante, o que percebemos é a mentira intimamente ligada a incitação ao medo, ao ódio e a violência de gênero. Nesse ponto, voltamos a Duas mentiras contadas por crianças, texto no qual o autor retrata o mentir como algo pueril, que pode desencadear no futuro, neuroses. Ora, o fascismo é uma neurose causadora do ódio, amplamente debatido por Freud, tanto em O mal-estar na civilização (1930) quanto em Moisés e o monoteísmo (1939). Se no primeiro texto, o fundador da psicanálise aborda a capacidade de ser hostil que todo ser humano possui, no segundo, ele reflete sobre o ódio a um grupo específico, os judeus. Trazendo essas reflexões para as eleições em Recife e São Paulo, podemos afirmar que as mentiras criadas por fascistas se direcionaram a um grupo específico: as mulheres.

Infelizmente, a mentira venceu. Contudo, os efeitos por ela desencadeados logo serão notados, haja vista ela abrir espaço para uma exponencial intolerância e selvageria.

*Armando Januário dos Santos é mestrando em Psicologia pela UFBA. Psicólogo graduado pela UNEB. Pós-graduado em Psicanálise; em Gênero e Sexualidade; e em Literatura. Graduado em Letras com Inglês. Autor do livro Por que a norma? Identidades Trans, Política e Psicanálise. e-mail: armandopsicologia@yahoo.com.br | Instagram: @januario.psicologo

Em tempo: Além do que retrata este artigo, fatos da mesma natureza ocorreram no município de Feira de Santana na Bahia, onde expedientes antiéticos foram colocados em prática para prejudicar o candidato da oposição, o petista Zé Neto, conforme revela o jornalista Paulo Moreira Leite, no site Brasil 247.  ( www.brasil247.com.br) .  “Na véspera da votação pelo menos 26 000 cestas básicas foram distribuídas à população carente. Os ônibus fretados pela Justiça Eleitoral para transportar moradores que residem em locais distantes amanheceram com todos os pneus furados”.
Diante de tudo isso, cabe uma pergunta: Afinal, para que serve o Tribunal Superior Eleitoral e os respectivos Tribunais Regionais Eleitorais?

 

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