Balneário de gângsteres

Postado por Paulo Cezar Soares | Quinta-feira, 1 de Outubro de 2020

A canção “Rio Antigo” foi escrita pelo cearense Chico Anísio (1931- 2012) e o maranhense Nonato Buzar. Como o próprio nome diz, relata o estilo de vida, o charme, o glamour e a efervescência cultural da cidade há algumas décadas do século passado, exemplo para o país e o mundo.

Bons tempos! Mas que fazem parte do passado. O Rio charmoso – que ganhou o epíteto de Cidade Maravilhosa – e tambor cultural do país – como, não raro, costumava dizer o governador Leonel Brizola ( 1922-2004 ) – infelizmente acabou. E, já há algumas décadas, figura entre as mais violentas do país, refém da bandidagem – traficantes e milicianos, grupos formados por policiais civis e militares, inicialmente dispostos a erradicar os traficantes das comunidades, mais hoje tão criminosos quantos eles.

Tudo isso está relatado no livro A República das Milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro, do jornalista Bruno Paes Manso. Editora Todavia.

Os primórdios da violência urbana tiveram início com os grupos de extermínio que faziam a segurança para os comerciantes, executavam ladrões, assaltantes e desafetos. E também prestavam seus serviços para os bicheiros do jogo do bicho. Os bicheiros dos românticos anos 40 e 50 deram lugar à nova geração, com ideais diferentes e métodos de ação violentos. Para alguns desses contraventores, drogas e máquinas de vídeo pôquer passaram a fazer parte dos seus negócios.

O submundo do crime, sua infraestrutura e conexões, tudo isso é revelado pelo autor por meio das suas fontes. Depoimentos impactantes, que explicam o crescimento do crime na cidade, de forma avassaladora. A partir da década dos anos 2000, além do tráfico de drogas surgem as milícias, a primeira delas na favela Rio das Pedras, bairro Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio, fato que inspirou outros grupos de milicianos.

O termo milícia passou a ser conhecido do grande público em 2005, a partir de uma matéria da repórter Vera Araújo, no jornal O Globo. “A ligação do clã Bolsonaro com a rede de paramilitares e milicianos que se formava na zona oeste se estreitou em 2002, com a eleição de Flávio Bolsonaro para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O deputado de apenas 22 anos, neófito no Parlamento, pretendia se vender como o representante político e ideológico dos “guerreiros fardados” que lutavam por espaço e poder nos territórios do Rio” – página 42.  “Dois anos antes, Carlos Bolsonaro, o zero dois, tinha sido o mais jovem vereador eleito da história do Brasil, com dezessete anos” - página 43

No Congresso, Bolsonaro sempre defendeu os grupos de extermínio e a pena de morte para conter a violência urbana. E os seus colegas parlamentares nunca reagiram à altura. Ficaram omissos a seus discursos contra os mais elementares postulados democráticos e aos   direitos humanos.

A situação da segurança pública carioca só piorava, a ponto de o governo estadual solicitar ajuda do Exército, o que ocorreu com a intervenção federal, em 16 de fevereiro, de 2018, comandada por um general do Exército.

Soldados posicionados em diversos pontos da cidade, assim como a realização de blitzes, geraram apenas uma falsa sensação de segurança – um efeito psicológico. Todo o aparato militar não conseguiu evitar o assassinato da vereadora Marielle Franco, e do seu motorista Anderson Gomes, crime que teve repercussão internacional. Os militares também não conseguiram descobrir quem mandou matar e por quê.  

“A indignação se espalhou e Marielle se tornaria símbolo da resistência contra a violência policial, o machismo e o racismo. Para agravar a situação política o assassinato ocorreu no primeiro mês da intervenção federal no Rio de Janeiro. Parecia lançar um desafio direto aos militares, ao governo federal, à imprensa. Como se os assassinos dissessem: “Não importa que a atenção de todo Brasil esteja voltada para o Rio. Quem manda neste estado somos nós” – página 189.

Um quadro angustiante, desalentador, que parece não ter fim. Não seria exagero definir a cidade como um balneário de gângsteres.

TRECHO DO LIVRO - Anthony e Rosinha Garotinho, os governadores que sucederam a Marcello Alencar, fecharam os olhos para o avanço da banda podre que envolvia a estrutura que sustentava as instituições. Quando assumiu, em 1999, Garotinho mostrou disposição para enfrentar os problemas de segurança. Chamou para a Subsecretaria de Segurança, Justiça e Cidadania, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, que levou para a pasta um grupo comprometido com reformas estruturais na polícia. Soares teve a liberdade de indicar os chefes da Polícia Militar e da Polícia Civil, escolhidos com a missão de reduzir a violência e a corrupção nas suas corporações. Medidas foram tomadas, como o fortalecimento da ouvidoria da polícia; a criação do Instituto de Segurança Pública, responsável pelo levantamento de dados sobre crime no estado; a formação das Áreas Integradas de Segurança, para que a administração tivesse mais informação e capacidade de gestão sobre os territórios; os mutirões pela paz, que propunham um policiamento mais próximo da vizinhança dessas áreas e que seria um dos embriões das UPPs; e as delegacias legais, que buscavam informatizar e modernizar os processos de investigação para tornar os resultados transparentes e minar os esquemas viciados de delegados e investigadores. A pressão política dos policiais que tiveram seus interesses atingidos, alguns deles atuavam dentro da própria Secretaria de Segurança, levou o governador a interromper as reformas e a demitir Luiz Eduardo Soares um ano e três meses depois da posse. Com a mudança, o delegado Álvaro Lins, que mais tarde seria acusado de proteger empresários da contravenção, e de se juntar a outros policiais para lotear as delegacias em troca de propinas, ganhou espaço no governo. Ao ser demitido, Soares avisou que o governador tinha se aliado à banda podre da polícia. Passou a sofrer diversas ameaças de morte e precisou deixar o Brasil com a família, quando escreveu o livro Meu casaco de general: Quinhentos dias no front da Segurança Pública do Rio de Janeiro, em que conta sua experiência. No governo de Rosinha Garotinho, a banda podre continuou empoderada. O delegado Álvaro Lins se tornou chefe da Polícia Civil e o modelo de negócio miliciano viveria seu momento inicial de expansão. Na CPI das Milícias, o ex-secretário de Segurança de Rosinha Garotinho, Marcelo Itagiba, foi acusado de fazer campanha com o apoio dos paramilitares de Rio das Pedras — ele se elegeu deputado federal pelo PMDB em 2006. Cristiano Girão, que na CPI das Milícias foi apontado como um dos chefes da comunidade da Gardênia Azul, trabalhou como assessor especial de Rosinha Garotinho e levava parceiros do governo para buscar votos na comunidade. Esse processo descontrolado se agravou no fim do segundo mandato do governo de Sérgio Cabral Filho. O novo governador assumiu num momento econômico favorável, beneficiado pelo alto valor das commodities no mundo, em especial do petróleo, que tinha se tornado o carro-chefe da economia fluminense. Em 2008, o preço do barril estava acima de cem dólares e os royalties adquiridos com a venda do produto correspondiam a 16% de toda a receita do governo. Para ajudar, as UPPs saíram do papel, com bons resultados iniciais. A situação política também favorecia o governador, graças à proximidade com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fortalecia a liderança de Cabral. Tudo parecia dar certo. Vieram os anúncios da escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas, os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal, a construção do teleférico no Complexo do Alemão, notícias grandiosas que passaram a ideia de um futuro promissor para o Rio de Janeiro. O governador gastava como um novo-rico deslumbrado, mas a cobrança da conta ainda demoraria a aparecer. Por algum tempo, Cabral desfrutou a fama de estadista; em 2009, a revista inglesa The Economist estampou na capa um Cristo Redentor com jatos propulsores sob os pés, decolando como um foguete no Corcovado. Essa imagem de prosperidade começou a ruir quatro anos depois, em junho de 2013, quando milhões de brasileiros foram às ruas protestar contra o aumento das passagens de ônibus. Os limites da bonança carioca tornavam-se claros. Naquele ano, a revista inglesa dedicou outra capa ao Rio de Janeiro, então com o Cristo Redentor se descontrolando logo depois da decolagem e descendo em queda livre. Em abril de 2014, diante da pressão popular que cresceu depois do assassinato do pedreiro Amarildo na UPP da Rocinha e com a expectativa de se candidatar ao Senado, Cabral renunciou ao cargo de governador, cedendo a cadeira ao vice, Luiz Fernando Pezão. A crise econômica e política do Rio de Janeiro, no entanto, avançava com velocidade.

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