[ESPECIAL] A polícia que mais mata: A morte do menino Pedro – Capítulo 1

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 1 de Junho de 2020

ARTIGO PUBLICADO NO SITE NOCAUTE, DO JORNALISTA FERNANDO MORAIS

No Rio temos a polícia que mais mata no mundo, diz o defensor público Daniel Lozoya. Numa série de quatro artigos, Nocaute fala dessa polícia.

Por Marcio Bueno

Na segunda-feira, dia 18 de maio, agentes da Core – Coordenação de Recursos Especiais da Polícia Federal e da Polícia Civil do Rio de Janeiro, atacaram com granadas e tiros uma casa na Praia da Luz, na Ilha da Itaoca, em São Gonçalo, região metropolitana do Rio. O objetivo seria cumprir dois mandados de prisão contra traficantes do Complexo do Alemão que estariam escondidos na região. Os policiais pularam o muro de uma casa e fizeram disparos e jogaram granadas. Alegaram que houve confronto. Uma das 72 balas disparadas contra a casa matou João Pedro Mattos Pinto, de apenas 14 anos de idade, que brincava com outros adolescentes. A casa foi invadida pelos agentes, que, além da fuzilaria, quebraram móveis e eletrodomésticos e apreenderam três celulares.

João Pedro foi levado para um helicóptero da Polícia Civil. A polícia levou o jovem e não fez nenhuma comunicação aos familiares, que o procuraram em hospitais e delegacias por 17 horas, até que o corpo foi localizado, no dia seguinte, no Instituto Médico Legal do Rio. João Pedro foi levado primeiro para a sede do Corpo de Bombeiros, na Lagoa Rodrigo de Freitas, zona sul do Rio, do outro lado da Baía de Guanabara em relação a São Gonçalo. O local é muito mais distante do que o Hospital Estadual Alberto Torres, da cidade e uma das referências no atendimento de baleados no estado do Rio. O tempo a mais gasto no transporte pode ter sido determinante para o óbito. Em outro ofício ao superintendente da PF, à Procuradoria-Geral da República e à Assembleia Legislativa, o Ministério Público,  pede uma série de informações, entre as quais: indicação da delegacia e da autoridade responsável pela operação; objetivo da operação; nome dos agentes federais que participaram e distribuição das tarefas.

O defensor público do Estado conversou com parentes de João Pedro, inclusive com um dos que teve o celular apreendido. “Vamos pedir a restituição dos aparelhos. Eles não são investigados, não são suspeitos. Eles são vítimas e testemunhas.”

Segundo a Polícia Civil, agentes entraram na casa atrás de um bando de traficantes, que teria invadido a residência, jogado granadas e disparado contra os agentes. Daniel Blaz, primo de João Pedro, não estava na casa, mas foi ele quem denunciou o crime nas redes sociais, gerando enorme repercussão. Ele acha difícil que seja feita justiça. “Os policiais – diz Daniel – pegaram o vizinho, que viu tudo, e o coagiram para dar um depoimento errado. Pegaram uma das meninas, colocaram dentro do quarto e começaram a conversar com ela. Agora, o advogado dos policiais diz que essas duas testemunhas viram um bandido na casa, sendo que não tinha bandido nenhum”.

Denise Rosa, dona da casa e tia de João Pedro, não se conforma: “Ninguém entra na casa de ninguém atirando. Mesmo que você ache que é casa de bandido, a polícia não pode trabalhar na base do achismo.” Várias personalidades se manifestaram através das redes sociais, condenando a atuação policial. Leandra Leal: “Fiquem em casa, dizem. Pois João Pedro estava em casa, brincando com seus primos. (…) O horror… o horror… Vale dizer, o governador do Rio foi eleito com a promessa de uma polícia genocida. Disse que sob o seu comando a polícia ia mirar e ‘atirar na cabecinha’. Existe uma guerra contra a população negra desse país. João Pedro, presente!” Leandra citava indiretamente o fato de que a família de Pedro é de negros. Ela citou ainda a chacina no Morro do Alemão, em que 13 pessoas foram mortas pela polícia e foi noticiada como se fosse a coisa mais normal do mundo. O The New York Times noticiou o fato assim: “Policiais militares têm ‘licença para matar’ no Estado do Rio”. Esse é o título da matéria. No texto, o jornal informa que no ano passado a polícia fluminense bateu um recorde: matou 1.814 pessoas, um crescimento repentino em um estado de longa história de brutalidade policial e onde lideranças políticas prometeram cavar “covas” contra o crime. Segundo o NYT, “discursos de ‘guerra contra os criminosos’ ditos por governantes, como o presidente Jair Bolsonaro e o governador do Rio, Wilson Witzel, endossam o comportamento da polícia.”

 

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