O flagelo da violência urbana

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 2 de Julho de 2018

 

A seleção brasileira goleia a Bolívia por 6 a 0, no estádio do Arruda, em Recife, jogo válido pelas eliminatórias da Copa do Mundo dos Estados Unidos, realizado em 29 de março de 1993, passo importante na campanha que acabou conquistando o título de tetracampeão mundial de 1994.

A data é emblemática na história da cidade do Rio  de Janeiro, pois foi exatamente nesse dia que a opinião pública ficou estarrecida diante da tragédia ocorrida na favela de Vigário Geral, Zona Norte do Rio, onde 21 moradores, todos inocentes, sem nunca terem tido nenhuma passagem pela polícia, foram executados de forma aleatória, por um grupo de policiais civis e militares, denominado Cavalos Corredores, pois tinham o hábito de entrar nas favelas correndo e atirando.

No dia anterior, o sargento Aílton Ferreira dos Santos e mais três policiais foram até o ponto de drogas  da favela, comandado à época por Flávio Pires dos Santos, o Flávio Negão, com o objetivo de pagar o dinheiro da propina, paga para aliviar a repressão. Quando chegaram na praça Catolé do Rocha, foram surpreendidos por uma emboscada arquitetada por Flávio Negão e seus comparsas, que executaram os quatro com tiros de AR-15 e de pistolas automáticas. A vingança veio rápida; no dia seguinte, com a chacina.

Fatos similares como o descrito acima  - que teve repercussão nacional e internacional -  marcam a história do povo carioca. PMs que são pagos pela sociedade para defender a lei e a vida dos cidadãos, reuniram-se com o único intuito de vingar colegas de farda, e acabaram escrevendo uma  das mais horríveis páginas da história da cidade do Rio de Janeiro.

Entra governo, sai governo, e nada melhora. Visando solucionar ou pelo menos menos minorar o problema da violência urbana carioca, muitos projetos já foram colocados em prática, mas fracassaram. Apenas para citar um deles, cito as Unidades de Polícia Pacificadora - as UPPs. Foi um projeto político e de marketing do governo estadual à época, visando única e exclusivamente, as Olimpíadas e a Copa do Mundo, uma  repressão das áreas pobres legitimadas pelos grandes eventos.

Os índices que monitoram a violência carioca são altos, preocupantes. Um número cada vez maior de jovens entram para a vida de crime e do tráfico de drogas. E as milícias  se multiplicam. Além disso, o Estado passa pela maior crise econômica, política e moral da sua história.  E os assassinatos de policiais pela bandidagem - os números crescem a cada ano - deixam à mostra a vulnerabilidade da segurança.

Mas o que agora está ocorrendo com os policiais é fruto, entre outras coisas, de uma política de confronto, que mata em excesso, corrupção e altos de resistência forjados. Em função disso, a polícia não  tem credibilidade. E os moradores das periferias e favelas possuem verdadeira aversão.

Num artigo publicado num jornal carioca em novembro do ano passado, José Vicente da Silva Filho, ex-secretário Nacional de Segurança Pública e professor do centro de Altos Estudos da PM de São Paulo, afirmou “ que nenhuma polícia consegue atingir o grau máximo de eficiência para enfrentar o crime sem cuidar de sua integridade. A integridade dá a densidade moral crítica para a policia, muito mais que seu aparato  de força”. Perfeito!

Enquanto não ocorrer uma mudança de mentalidade de métodos da policia, e investimentos sociais dignos de nota para o povão nada vai mudar e a violência urbana vai continuar produzindo suas vítimas, como o menino Marcos Vinícius da Silva, 14 anos, baleado na barriga por uma bala perdida, durante uma operação policial na Favela da Maré, Zona Norte da cidade, realizada no mês passado, e a vereadora Marielle Franco e seu motorista Anderson Pedro Gomes, executados em 14 de março último.

A polícia ainda não conseguiu prender os assassinos.