Favela do Salgueiro volta à baila

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 15 de Novembro de 2017

A favela do Salgueiro, localizada no município de São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio, retorna ao noticiário policial dos nossos jornais. Uma operação com policiais da Coordenadoria de Recursos Especiais da Policia Civil - Core - e soldados do Exército, no último dia 11, acabou ocasionando uma chacina. Sete pessoas foram mortas.Policiais acusam os militares de terem atirado durante um confronto no local. Eles negam. Só uma investigação isenta poderá esclarecer o fato. Mas a Delegacia de Homicídos de Niterói (DHNSG) não pode investigar os militares das Forças Armadas, em função de uma lei -que contraria o regime democrático - sancionada pelo presidente Michel Temer no mês passado. Militares em missão de Garantia da Lei e da Ordem só podem ser investigados e julgados pela Justiça Militar. e acordo com o Exército, os miliatares que participaram da operação só serão apresentados à Justiça Militar. o mesmo ocorrendo com as armas apresentadas por eles.
A polêmica está formada: quem está com a razão?

O fato deixa claro, mais uma vez, que tropas das Forças Armadas não possuem o preparo necessário para incursões em favelas e combate à violência urbana. São úteis em outros tipos de operações.      

Uma breve reminiscência. Há alguns anos participei de um documentário sobre o bairro Jardim Catarina, no município de São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio. Na companhia do cinegrafista e de um antigo morador, estive no local pelo menos umas cinco vezes, percorrendo diversos pontos e entrevistando moradores. Lembro que, numa dessas ocasiões, o morador, que gentilmente estava servindo como o nosso guia, disse: mais à frente é o Salgueiro, lugar muito perigoso. Vamos voltar. Infelizmente, o tempo passou e nada mudou. Ou melhor: mudou, sim: para pior

Nossos políticos nunca investiram socialmente na temida favela do Salgueiro, nem em nenhum bairro com características semelhantes em São Gonçalo, fato que, entre outras coisas, colabora - e muito -  com a violência urbana.

Em agosto do ano passado, o traficante Nicolas Labre Pereira de Jesus, o Fat Family, que chefiava o tráfico no Morro Santo Amaro, no bairro  do Catete, Zona Sul do  Rio, foi ferido durante uma operação policial e levado para o Hospital Municipal Souza Aguiar, Centro do Rio. Numa cena digna de filme de gângster, foi resgatado pelos seus comparsas. Fat Family foi levado para a favela do Salgueiro. Dias depois acabou sendo morto pela polícia.

São Gonçalo é um município que possui mais de um milhão de habitantes. Só perde para a capital. Mas, a despeito disso, só possui um batalhão da Polícia Militar - o 7º BPM - que possui uma imagem negativa perante a população. São comuns os envolvimentos de PMs do batalhão em  assassinatos, extorsões e crimes, sendo o de maior repercussão, o assassinato da juíza Patrícia Acioli, executada com 21 tiros, próximo à sua residência no bairro de Piratininga, Região Oceânica de Niterói, em agosto de 2011. Era considera linha dura e responsável pela prisão de aproximadamente 60 policiais envolvidos com milícias e grupos de extermínio. O plano para matá-la - uma represália em função das suas investigações contra PMs suspeitos de executarem bandidos e de simulações de autos de resistência - foi articulado pelo comandante do batalhão, coronel Cláudio Luiz de Oliveira, que está preso no presídio federal de Campo Grande, em Mato Grosso do Sul

O combate à violência urbana possui muitas nuances. Mas não será com leis mais duras que o problema será resolvido ou minimizado. Isso funciona apenas como um paliativo. O que importa mesmo são investimentos sociais dignos de nota nas favelas e bairros periféricos. Pararelo a isso, melhorar da infraestrutura da nossa polícia em todas as dimensões. PMs não podem continuar sendo mortos pela bandidagem como está ocorrendo no Rio de Janeiro. E, claro, ampliar o combate em relação a desvios de conduta e corrupção.

 O moral da tropa está baixo. E isso precisa mudar. E rápido!