Município parado no tempo

Postado por Paulo Cezar Soares | Quinta-feira, 21 de Junho de 2018

 

 

Na última quarta-feira, assisti na tevê da academia onde sou um dos professores, uma matéria sobre a violência no município de São Gonçalo, Região Metropolitana do Rio.

O repórter do SBT-RIO estava no bairro Brasilândia, localizado no centro, onde vários assaltos têm ocorrido, além de roubos, como de resto, em todo o Estado. Não serve de consolo, diga-se de passagem, mas a verdade é essa.

No entanto, São Gonçalo possui uma característica singular: é o município mais populoso do Estado. Só perde para a capital. Por isso, deveria ter um policiamento mais eficaz. Infelizmente, não é o que ocorre.

 A situação da segurança pública do município deixa à mostra o descaso e a incompetência dos nossos políticos e autoridades. É inadmissível que São Gonçalo tenha apenas um batalhão da Polícia Militar - o 7º Batalhão, localizado no bairro de Alcântara, conhecido não por sua eficiência operacional, mas sim, por graves casos de corrupção, desvios de conduta, extorsões e assassinatos, o mais notório deles, o da juíza Patrícia Acioli, em agosto de 2011, assassinada com 21 tiros, no bairro de Piratininga, onde residia, Região Oceânica de Niterói. A juíza atuava de forma destemida e objetiva contra policiais envolvidos em autos de resistência forjados. Os responsáveis pelo crime foram policiais do batalhão, entre eles, o próprio comandante, tenente-coronel Cláudio Luiz Silva Oliveira.

Durante o programa SBT-RIO a apresentadora Daniele Benito cumpriu o seu papel no melhor estilo do bom jornalismo, ou seja: criticou com objetividade, equilíbrio e veemência - sem conotações políticas - o perfil do batalhão e a sua total falta de credibilidade perante a população. Aqui neste blog já escrevi sobre isso algumas vezes.

Diante do quadro em tela, como melhorar a questão da violência urbana em São Gonçalo?
Lamentavelmente, sempre foi assim. Entra governo, sai governo e nada muda. Nada melhora. Só piora! Um município parado no tempo.

É inacreditável, mas rigorosamente verdadeiro.

 

Ideia inócua

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 18 de Junho de 2018

Na semana passada, o ministro da Segurança Pública, Raul Jugmann, disse que pretende estender o prazo da intervenção federal no Rio de Janeiro, por mais um ano. Independente se o novo governador do Rio de Janeiro irá concordar ou não com o ministro, não faz sentido. A presença dos militares do Exército na paisagem carioca não mudou o cenário da violência urbana. Ainda não conseguiram apresentar nada de positivo. E determinados índices da violência urbana não param de crescer.

Como diz o dito popular, não adianta tapar o sol com a peneira. Enquanto o Estado não tiver uma nova configuração política e investimentos dignos de nota direcionados para a segurança pública, principalmente para a melhoria da infraestrutura da polícia - civil e militar - nada de novo vai ocorrer na área da maior mazela carioca, e as balas perdidas vão continuar fazendo suas vítimas, infelizmente.

Em tempo - O governo golpista do presidente Michel Temer criou mais um ministério. Sem necessidade, diga-se de passagem. A economia do Temer só acontece para tirar verbas de projetos sociais, ampliando o sofrimento do povão. Triste! Muito triste!

 

polícia sucateada

Postado por Paulo Cezar Soares | Sexta-feira, 15 de Junho de 2018

Resultado de imagem para bondinho do pão de açucar

Um dos cartões postais do Rio de Janeiro - Bondinho do Pão de Açúcar

Não raro, assisto na tevê comentários de apresentadores de programas policiais dizendo que a violência urbana atinge não só o Rio de Janeiro, mas todo o Brasil. É verdade, mas não toda a verdade. Não serve de consolo. O Rio é  o Estado mais violento do país.

A violência carioca é uma mazela antiga e que vem piorando ano a ano. Tentar minimizá-la com sofismas, ou então com aquele perfil blasé típico do carioca, não ajuda em nada. Muito pelo contrário. Com a degradação do Estado em função da crise econômica, política e ética, a violência - que é medida não somente pelos números de homicídios -  tem atingido índices insuportáveis.

A bandidagem  tem agido com desenvoltura e protagonizado situações de intenso desgaste para  a imagem do Estado do Rio de Janeiro., como por exemplo, o fato ocorrido no último dia 9, quando um tiroteio envolvendo a polícia e bandidos no Morro do Pasmado e no Chapéu Mangueira - Zona Sul do Rio - acabou ocasionando a paralisação do Bondinho do Pão  de Açúcar, símbolo da Cidade Maravilhosa, juntamente com o Cristo Redentor.

Outrora a cidade mais charmosa do país, o Rio, o tambor do Brasil, como gostava de dizer o saudoso Leonel Brizola - duas vezes governador do Estado do Rio de Janeiro - infelizmente tem vivido um dos seus momentos mais dramáticos e tristes da sua história.

Para combater a violência com objetividade, nenhum plano gestado em gabinetes pelos burocratas de plantão será bem sucedido, se o policial não for a prioridade. O trabalho nas ruas de experientes policiais - civis e  militares - é fundamental no combate à violência. Óbvio, dirá o leitor. Mas nossas autoridades esquecem desse detalhe. Ficam falando e fazendo um monte de bobagem, ou então, jogando para a arquibancada, como foi o caso da intervenção federal, que até o momento nada fez de positivo. Desperdício de dinheiro.

Nada vai mudar se não houver investimentos na estrutura das polícias. No momento o quadro é desalentador, com viaturas sucateadas, blindados que já deveriam ter sido trocados, falta de  condições adequadas para treinamentos e modernas ferramentas de inteligência.

 Sem isso, como diz o ditado popular, é chover no molhado.

 

 

Moradores unidos contra a violência

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 6 de Junho de 2018

Índices de assaltos sobem no bairro do Méier.  Moradores farão passeata pedindo mais segurança

No próximo sábado, a Associação de Moradores do Méier, Zona Norte do Rio, farão uma passeata, cujo objetivo é pedir mais segurança para o bairro, com início no Centro Cultural João Nogueira, na rua Dias da Cruz, até a rua Paula Silva Araújo, onde, na noite do último dia 2, o contador Augusto Cezar Silva Andrade, 37 anos, foi covardemente assassinado por um bandido que estava em companhia dos seus asseclas, num carro roubado. O contador estava chegando em casa, num condomínio, na companhia da mulher e do seu filho de 11 anos, quando foi atacado pelo bandido, que fugiu num carro roubado, na companhia dos seus asseclas. Acabou sendo atingido por vários tiros. Chegou a ser hospitalizado, mas faleceu na madrugada de domingo.

O fato em tela demonstra, mais uma vez, que a intervenção militar não modificou , nem modificará a realidade da segurança do povo carioca. E não é culpado Exército, nem tampouco da polícia. A culpa é do sistema, dos governos federal e estadual - O Rio tem governador? Sem dinheiro, sem investimentos dignos de nota na estrutura das polícias e em projetos sociais, não há solução. 

Itaú entoa “Pra Frente Brasil” de 2018

Postado por Paulo Cezar Soares | Sexta-feira, 1 de Junho de 2018

 

 

A quem interessar possa - O artigo abaixo, publicado originalmente no site Brasil 247, do Gabriel Lima - que não conheço pessoalmente, diga-se de passagem - é oportuno, objetivo. Retrata com exatidão a manipulação política e ideológica, uma pratica recorrente  da nossa elite. Diante do caos instalado no país após o golpe, do fim da CLT, e de várias outras perdas de cunho social, o povão não está mobilizado para a Copa. Seu estado de espírito é o desalento. Leia todo o artigo.

O produtor audiovisual Gabriel Lima critica em artigo as campanhas publicitárias que mostram um Brasil inexistente; “Aleatórios falam com a voz do treinador. Entre eles existem negros, como o cantor Thiaguinho, travestis e trabalhadores que cumprem a tabela da demagogia publicitária, compondo o utópico reflexo de um Brasil conciliado para torcer pelo hexa, um Brasil que só existe na alucinação dos Setúbal e dos publicitários que os servem”, observa

Por Gabriel Lima*

A menos de um mês do início da Copa do Mundo da Rússia as telas brasileiras são tomadas por uma série publicitária do Banco Itaú, patrocinador da Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Os filmes têm como personagem principal o técnico Tite motivando, com suas famosas frases de efeito, o escrete brasileiro e os 200 milhões de possíveis torcedores.

Trata-se da série “Entrelinhas”, campanha institucional realizado pelas agências África e DM9DDB para o Itaú, com o foco em explorar o patrocínio do banco à seleção brasileira de futebol masculino. A série se vale de infinitos elementos semióticos em busca da construção da narrativa do Brasil unido e virtuoso. Na camisa da CBF usada pelos jogadores, o espaço destinado à identificação dos atletas dá lugar para as palavras “Respeito”, “Ética” e “Esperança”, junto à já manjada trilha sonora motivadora e a voz de Tite narrando descontextualizados casos de sucesso de sua carreira.

Em outro momento, representando o brasileiro médio, aleatórios falam com a voz do treinador. Entre eles existem negros, como o cantor Thiaguinho, travestis e trabalhadores que cumprem a tabela da demagogia publicitária, compondo o utópico reflexo de um Brasil conciliado para torcer pelo hexa, um Brasil que só existe na alucinação dos Setúbal e dos publicitários que os servem, ou dos diretores da Bahia branca na “Novela das Oito”. Os filmes são feitos em storytelling, um recurso que busca promover o produto sem necessariamente falar dele. Para isso, as estórias reais do personagem, no caso o técnico Tite, são contadas de modo a emocionar e persuadir o público. Entretanto, no caso da série “Entrelinhas”, o que se nota é um distanciamento abissal da realidade em vários aspectos. O primeiro deles é o social. Cmo já dito, o Brasil conciliado e unido do qual Tite fala está longe de existir.

No assunto futebol, o comercial também se distancia grosseiramente da realidade. Tite invoca a seleção brasileira de 1982, invoca Sócrates, Falcão e Zico. Daí entra o único limite da canalhice publicitária que insinua, mas não o permite compará-los com Paulinho, Renato Augusto e Fred. Tite fala então sobre a seleção modelo e o resgate da autoestima e do bom futebol. Tirando por isso já dá para saber que os publicitários, os banqueiros e o técnico da seleção sabem muito sobre autoestima, não a do povo, mas a suas próprias. Já sobre futebol, realmente não sabem, ou se sabem, preferem não tocar no assunto. Aliás, a campanha publicitária que busca entusiasmar o Brasil para a Copa do Mundo de futebol fala sobre tudo, menos sobre futebol. Cita até o saudoso reacionário Nelson Rodrigues na voz de um suposto repórter. Rapidamente o técnico Tite responde, quando questionado sobre complexo de vira lata: “Já tive, hoje não tenho mais”, como se o esquema tático prostituído que viola as características mais singulares do nosso futebol e o estereótipo dos comentaristas brancos, descolados de suéter e mocassim não fossem um desdobramento do tal complexo.

Em 1970 em pleno os anos de chumbo da ditadura militar, a seleção substituía o polêmico João Saldanha pelo servil e isento Zagalo. A base do time pouco mudou, o Brasil conquistou o tri. O motivo da substituição do técnico era evidente, João Saldanha se recusava a atender as intervenções que o regime militar tentava realizar na seleção. Além disso, Saldanha tinha relações muito próximas com o PCB e os militares tinham medo de que o tricampeonato fosse conquistado sob o comando de um comunista. Naquele ano, enquanto líderes políticos oposicionistas eram assassinados, as televisões e rádios entoavam o jingle “Pra frente Brasil”. 1970 e 2018 estão mais próximos do que imaginamos.

Tite diz, ou o roteiro diz, que “vencer é vencer em campo, não só no placar”, e que “podemos sair até sem a estrela” referindo-se ao título da copa e reforçando uma das pretensões da campanha de dar outro significado para a palavra vencer e dizer que é possível que ocorra mesmo quando não ganhamos.

Paradoxalmente, pelos antônimos das palavras o texto traz a revelação que nos falta enquanto povo, que no caso do Brasil em 2018, quando a onda conservadora avança, negros, mulheres e homossexuais são assassinados, direitos são violados todo o tempo, a nação é submetida a mediocridade política, a pequenez diplomática e ao caos econômico, nós já perdemos ainda que o hexa venha. Perdemos quando, a pedido do Ronaldo Nazário, Neymar foi às redes sociais pedir voto para Aécio Neves no segundo turno das eleições de 2014. Mesmo após o fatídico 7X1, o jogador não teve vergonha de fazer o seu pronunciamento político, em uma genuína manifestação da ignorância, onde não consegue tocar nem o primeiro grau de conhecimento sobre o próprio país. Perdemos quando Thiago Leifert, o apresentador meritocrata, filho de magnata da Globo, publicou que o esporte não é lugar de manifestação política. Perdemos quando Felipe Melo voltou ao Palmeiras e esqueceu o futebol para se ancorar em um personagem midiático, cuja prática comum é incitar a violência e declarar apoio ao candidato fascista à Presidência. Quando torcidas insistem em gritos de arquibancada que ofendem mulheres e homossexuais, ou quando torcedores são racistas. Quando Galvão Bueno tenta forçar a barra na rivalidade com a Argentina. Quando a Globo tenta censurar um Casagrande completamente desalentado com a péssima qualidade do nosso futebol atual. Em todas essas ocasiões já perdemos, mesmo que o futebol estéril e sem graça de Tite seja vitorioso na Rússia.

*Gabriel Lima é produtor audiovisual, escritor por hobby e militante do PCdoB-MS.

 

 

A crise do Rio é a crise do Brasil

Postado por Paulo Cezar Soares | Quinta-feira, 31 de Maio de 2018

 

Artigo publicado no site Brasil247

Por Emir Sader*

O Rio sempre foi o espelho do Brasil. Quem quiser degradar a imagem do Brasil, começa por degradar a imagem do Rio. Quem não gosta do Brasil expressa esse sentimiento ruim, antes de tudo odiando o Rio.

A crise atual do Rio, a mais profunda e prolongada que o Rio já viveu, está intrinsecamente vinculada à mais profunda prologada crise que o Brasil já viveu. E, assim, a crise do Rio só será superada com a superação positiva da crise atual do Brasil.

O apodrecimento do MDB do Rio é apenas um ramo do apodrecimento do MDB em escala nacional. A desagregação do poder público no Rio é uma expressão concentrada da desagregação do poder público nacional.

A estagnação da economia do Rio é um resultado da estagnação da economia brasileira como um todo. O monstruoso desemprego no Rio é parte do monstruoso desemprego no Brasil.

A violência que campeia no Rio é parte indissolúvel da violência que campeia por todo o Brasil. As famílias que, cada vez mais, voltaram a dormir e a viver nas ruas é apenas parte da imensa quantidade de gente passou a viver e a dormir pelas ruas e praças de todo o Brasil.

Todos sabem que as políticas federais que promovem a retração da Petrobras em seus investimentos, do BNDES em suas políticas de financiamento para o crescimento, da indústria naval, entre outros setores que serviram de instrumentos fundamentais para o crescimento econômico do Rio são fatores fundamentais para sua estagnação e retração econômica. São decisões tomadas pelo governo surgido do impeachment, com efeitos diretos e multiplicados sobre o Rio.

A crise do Rio, assim, não pode ser resolvida só no Rio e pelo Rio. A crise do Rio não será superada se não for superada a crise brasileira. Não será um candidato que ficou famoso fora da política, que tem mandato já há vários anos e não fez nada pelo Rio e nem diz o que pretende fazer, que pode comandar a recuperação do Rio. Tampouco quem fez parte do partido que dilapidou e desmontou o governo do Rio e está fazendo o mesmo com o Brasil, que pode consertar o que eles mesmos desmontaram.

Sem o retorno de um governo federal que se empenhe fortemente na recuperação da Petrobras, do BNDES, da indústria naval, que retome vigorosamente as políticas sociais, que termine de vez com a intervenção militar, que só piora os problemas da violência no Rio, que resgate o potencial de crescimento econômico do Rio, que se empenhe em incentivar e apoiar a extraordinária capacidade criativa do Rio no plano cultural, nas suas distintas dimensões, coordenado com um governo carioca que esteja sintonizado com essas políticas, que o Rio, junto com o Brasil, poderão sair finalmente dessa crise, retomando seu caminho democrático, solidário, de progresso e de felicidade.

Emir Sader - Colunista do 247,  é um dos principais sociólogos e cientistas políticos brasileiros