QUARENTENA E PRISÃO

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 1 de Julho de 2020

Artigo publicado no site Amaivos

POR FREI BETTO

Ficar confinado em casa suscita muitas nostalgias. Vontade de reencontrar parentes, amigos, visitar livrarias, jantar fora, caminhar pelas ruas ou parques sem máscara e perigo de contaminação.

É muito diferente ficar voluntariamente retido em casa e compulsoriamente trancado na prisão, como fiquei ao longo de quatro anos. O prisioneiro também sente nostalgia das boas coisas da vida, porém de modo mais realista, pois sabe que são meras fantasias impossíveis de serem realizadas, pelo simples fato de a chave da porta ficar do lado de fora…

Agora, na pandemia, a chave fica do lado de dentro. Basta abrir e sair à rua, aliás como muitos fazem diariamente, seja por necessidade, impaciência ou imprudência. Ainda assim, não conseguem realizar seus sonhos, porque os amigos estão isolados; os bares, fechados; os espetáculos artísticos, cancelados ou adiados. E andar pela rua, mesmo com máscara, é arriscado. Aglomerações são inevitáveis.

Só de pensar nessas limitações me conformo em permanecer confinado. Um luxo comparado aos tempos de cárcere. Desfruto da natureza, saboreio pratos saborosos, disponho de tempo para ler, escrever e fazer exercícios físicos, livre das tensões do sistema prisional.

Há, porém, uma diferença que incomoda e assusta: o carcereiro-carrasco é invisível. Ele mede 85 nanômetros. Para se ter ideia do que isso significa, um fio de cabelo tem 100 mil nanômetros de espessura. Para detectar o Covid-19, um microscópio eletrônico precisa ampliá-lo ao menos 80 mil vezes. E esse ser de dimensões ínfimas é capaz de infectar-me e provocar a minha morte.

Na prisão, a aproximação do carcereiro era anunciada pelo bater de portas, passos na galeria, tilintar do molho de chaves. Agora, o inimigo é imperceptível. Não manda aviso prévio. Pode estar na embalagem que manuseio, na casca da fruta que corto, na maçaneta que toco.

Ainda que eu tome todos os cuidados higiênicos e cuide de desinfetar tudo que chega da rua, o risco perdura. O que me protege é o privilégio de não ter que sair de casa para garantir a sobrevivência, ao contrário da maioria da população brasileira, e dedicar-me a um trabalho que exige recuo e solidão mesmo em tempos “normais” – escrever. Assim, consigo encurtar os dias e manter uma agenda de projetos literários que me ocupará ainda por muitos meses.

Contudo, anseio pelo fim dessa pandemia e que o mundo volte a girar. Neste momento me sinto como nos dois primeiros anos de prisão, quando ainda não havia sido julgado pelo tribunal militar e, portanto, sem a menor ideia de quanto tempo haveria de ficar recluso. Poderia ser condenado a dois ou vinte anos, já que tribunais de ditaduras se regem pelo arbítrio, e não pelo direito.

Graças ao recurso impetrado no STF, fui condenado a dois anos. Sentença proferida na semana em que se completavam meus quatro anos de prisão… Ainda que a pandemia termine logo, também agora não há como recuperar o “tempo perdido”. Ponho entre aspas porque sei que, para muitos, tem sido um período positivo de aprendizado e mudanças de hábitos e propósitos.

Ainda que a curva das vítimas da Covid-19 desabe e as autoridades sanitárias deem sinal verde para o fim da quarentena, fica a dúvida enquanto não surgir a vacina: e se o vírus se disseminar de novo? Portanto, só a vacina nos permitirá um futuro de volta ao passado.

 

 

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RETRATO NA PAREDE

Postado por Paulo Cezar Soares | Domingo, 28 de Junho de 2020

 

 

“Porque o amor ao dinheiro é a raiz de todos os males; e alguns, nessa cobiça, se desviaram da fé e atormentaram a si mesmos com muitas dores”. ( 1 Timóteo 6.10)

NÃO INVESTIR FINANCEIRAMENTE A FAVOR DOS MAIS VULNERÁVEIS, DEIXANDO - OS ENTREGUES À PRÓPRIA SORTE É, ENTRE OUTRAS COISAS, UMA VIOLÊNCIA, UMA AFRONTA AOS DIREITOS HUMANOS.

O governo Bolsonaro vai mudar o nome do Bolsa Família que, tudo indica, vai se chamar Renda Brasil. Quando um governante não possui competência administrativa, criatividade, e não investe nas questões sociais, costuma modificar ou acabar com aquilo que funciona, como foi o caso, por exemplo, à época do tucanato com as privatizações, que se transformaram numa panaceia para todos os problemas.

O presidente Bolsonaro, políticos de direita, empresários, membros da elite e da classe média, sempre foram críticos do Bolsa Família, programa de transferência renda criado no governo Lula, em 2003.

Mas, apesar das críticas, o Bolsa Família foi um sucesso, a ponto de  alguns países o adotarem.

Nas últimas eleições, as críticas, do nada, cessaram. Ninguém teve a coragem de criticar o projeto petista, muito menos sugerir sua  extinção, pois sabiam que com isso poderiam perder votos. .

Este governo não tem compromisso com o interesse público e analisa tudo sob um ponto de vista ideológico. Seus prosélitos têm uma visão de mundo distorcida e obsoleta.

Com o seu discurso autoritário e, não raro intimidatório, o governo teve um desempenho pífio no seu primeiro ano, principalmente na área econômica.

Por conta da pandemia do coronavírus, o que já estava ruim piorou. O  governo não conseguiu estruturar nenhum projeto para conter o contágio, sempre agiu na contramão dos protocolos e recomendações da área médica e instituições internacionais, desgastando a imagem do país perante o mundo.

No dia 22 de maio último, o presidente Bolsonaro disse que o governo não tem condições de manter o auxílio emergencial de R$600, cujo objetivo é amenizar o impacto  econômico provocado pela pandemia dos coronavírus.ressaltou que pretende baixar o valor das parcelas, que podem ficar entre R$400, R$300 ou R$200. O auxílio demorou a chegar. Foi mal  estruturado, burocrático em excesso. E limitado no valor e no tempo  de duração.

A visão de mundo do neoliberalismo perdeu toda a sua base e seu discurso de sustentação de valorização do mercado acima de tudo. A pandemia deixou à mostra que o  papel do Estado é de fundamental importância para estabilizar a economia e dar proteção aos mais pobres, aos mais vulneráveis, tema do livro da economista Laura Carvalho, lançado este mês - Curto-circuito: o vírus e a volta do Estado ( Editora Todavia). A autora é professora da Faculdade de Economia e Administração da Universidade  de São Paulo - USP.  

Diante dos fatos em tela, tenho a mais absoluta das certezas de que a história cobrará o seu preço. E que o presidente Bolsonaro será apenas um retrato na parede.

 

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Desmilitarização da PM

Postado por Paulo Cezar Soares | Quinta-feira, 25 de Junho de 2020

 

A matéria publicada esta semana pelo site The Intercept, da repórter Cecília Oliveira, relata que a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro - PMERJ - decidiu proibir que policiais, mesmo os que se encontram na reserva, precisam de autorização prévia para conceder entrevistas, participar de vídeos e lives.

O objetivo, de acordo com a instituição, é evitar “temas que possam induzir o público a pensar que  o que foi  dito por PMs é um posicionamento oficial da corporação”.

Explica, mas não justifica. Conversa para bom dormir. Na verdade, o nome disso é CENSURA.

Por causa de situações dessa natureza, incompatível com um regime democrático digno desse nome, é que este blog sempre foi e continua sendo a favor da desmilitarização da PM

 

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Crimes ainda sem solução

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 22 de Junho de 2020

 

Tudo indica que a prisão do ex-assessor do senador Flavio Bolsonaro, além de fazer transações econômicas com altas somas de dinheiro, como se fosse um economista, e suas ligações com alguns ex-policiais acusados com envolvimento em milícias possa ajudar a desvendar - definitivamente -  quem mandou matar a vereadora Marielle Franco e por quê? O motorista da parlamentar Anderson Gomes também foi atingido e morreu. O fato ocorreu no dia 14 de março de 2018, no bairro do Estácio, regvião central do Rio.

Apesar da repercussão internacional, o crime, que completou dois anos em março último, continua sem solução.
O mesmo ocorre com o assassinato do pastor evangélico Anderson do Carmo, no dia 16 de junho de 2019, no bairro Pendotiba, em Niterói, Região Metropolitana do Rio, marido da também pastora, cantora gospel e deputada federal Flordelis dos Santos de Souza.

Crimes não resolvidos, entre outras coisas, atingem a credibilidade das instituições perante a população.

 

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O CASO FLORDELIS: ASSASSINATO DO PASTOR ANDERSON DO CARMO COMPLETA UM ANO SEM SOLUÇÃO

Postado por Paulo Cezar Soares | Sexta-feira, 12 de Junho de 2020

 

Na próxima terça-feira faz um ano do assassinato do pastor Anderson do Carmo, marido da também pastora, cantora gospel e deputada  federal (PSD) Floderlis dos Santos Souza, crime ocorrido na casa do casal, no bairro de Pendotiba, Niterói, Região Metropolitana do Rio.

Um dos filhos da pastora, Flávio dos Santos, confessou ter dado seis tiros no padrastro. Mas a perícia constatou 30 perfurações. E, um outro filho, Lucas Cezar dos Santos, teria comprado a arma do crime  

  Flordelis ganhou notoriedade a partir de um documentário veiculado  em 2009, que conta como se transformou em mãe adotiva de 55 filhos, além dos quatro biológicos.

O processo corre em segredo de Justiça. A investigação começou sob a responsabilidade da delegada Bárbara Lomba, da Delegacia de Homicídios de Niterói, São Gonçalo e Itaboraí (DHNSGI), que foi substituída pelo delegado Allan Duarte Lacerda. O fato, de acordo com a Polícia Civil, foi um procedimento de praxe, sem conotação com o andamento das investigações.

Afinal, o pastor Anderson foi morto por quê?  Desavenças na família por causa de dinheiro? O pastor tinha um  relacionamento extraconjugal, como chegou a ser cogitado inicialmente pela polícia? Cadê o celular do pastor? A pistola apreendida no quarto de Flávio foi ou não usada no crime? Quem são os responsáveis pelas tentativas de envenenamento do pastor, que chegou a ser internado em mais de uma ocasião, em 2018, com sintomas de taquicardia e võmitos. Essas são algumas das muitas perguntas não esclarecidas.

 Um roteiro confuso, com muitos personagens e ainda inacabado. Espera-se que esse crime não passe a figurar na lista dos crimes insolúveis.  

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Crime ainda sem solução

Postado por Paulo Cezar Soares | Domingo, 7 de Junho de 2020

É PRECISO LEMBRAR E COBRAR  SEMPRE. NÃO PODEMOS NOS CONFORMAR COM A IMPUNIDADE

Dito isso, quem mandou matar Marielle? E por quê?

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