Justiça!

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 1 de Março de 2021

 

Publicado no site do jornal O Dia

 

‘Eu quero justiça’, diz irmã de Arilson Santiago, vítima de tiro enquanto ia para o trabalho em São Gonçalo

Ana Carolina Santiago, irmã da vítima, disse que a troca de tiros no horário da manhã é constante na região. Dois policiais prestam depoimento nesta segunda sobre o caso

Rio - Ana Carolina Santiago, irmã de Arilson Santiago, que foi morto na manhã deste domingo (28) vítima de tiro, afirmou que a polícia militar faz operações constantes em São Gonçalo, entre às 5h30 e 6h da manhã e que a violência é constante na região. Em tom de desabafo, ela pede justiça pela morte do irmão.

Arilson tinha 21 anos e foi baleado enquanto estava no interior de um carro indo para o posto de gasolina onde trabalhava, por volta das 5h, durante um confronto entre policiais e traficantes. Segundo parentes, ele tinha pego carona e estava acompanhado do gerente e de um amigo do trabalho.

Novo capítulo do julgamento da Chacina de Osasco

Postado por Paulo Cezar Soares | Sábado, 20 de Fevereiro de 2021

 

A matéria abaixo foi publicada originalmente no site Ponte Jornalismo e reproduzida pelo site Outras Palavras

Seis anos após o massacre de 23 jovens na periferia de SP, dois ex-policiais vão a júri popular. Em 2019, Justiça havia anulado condenações. Familiares das vítimas cobram indenização do Estado e organizam ato e vigília contra impunidade

Por Beatriz Drague Ramos, na Ponte Jornalismo

Passados seis anos desde a chacina de Osasco, a maior já registrada nas ruas na história do estado de São Paulo, o ex-PM Victor Cristilder Silva Santos e o Guarda Civil Municipal (GCM) de Barueri Sérgio Manhanhã serão julgados em júri popular na próxima segunda-feira (22/2).

No dia do julgamento também será realizada uma vigília organizada pelas famílias das vítimas e organizações sociais, em frente ao Fórum de Osasco, a partir das 9h30. Dois dias antes, no sábado (20/2), os parentes devem se reunir em frente à Estação Osasco da CPTM, a partir das 14h. 

A audiência que deveria ter ocorrido em novembro de 2020 foi adiada após um pedido do advogado dos réus, João Carlos Campanini, que alegou estar com suspeita de coronavírus.

O crime deixou 23 mortos nas cidades de Osasco, Carapicuíba e Barueri, na Grande São Paulo, em agosto de 2015, sendo seis vítimas no dia 8 e 17 pessoas assassinadas na noite de 13 de agosto. Foi a maior chacina já registrada nas ruas do estado, mas não superando o Massacre do Carandiru, que deixou ao menos 111 mortos em 1992.

Oito das vítimas fatais estavam em um bar no bairro Munhoz Junior, em Osasco, quando os agentes de segurança pública chegaram ao local e dispararam contra os presentes. Outras 15 pessoas foram executadas em locais diferentes na mesma região.

Zilda Maria de Paula, mãe que perdeu o único filho, Fernando Luís de Paula, relata que a expectativa com o julgamento é alta. “A esperança é grande, não sabemos se vamos ganhar ou perder, com a Justiça que temos. Está na mão dos jurados, são eles quem decidem tudo”. Segundo ela, um pedido de indenização será feito neste ano, agora que grande parte dos agentes já foram condenados. “Vamos cobrar a indenização só agora, porque queríamos ter a certeza que foi o Estado que matou. Achamos melhor ter o julgamento e as provas”.  

A mãe de Fernando também alega que diversos parentes dos assassinados estão passando necessidades após a chacina, o que se agravou com a pandemia da Covid-19. “As outras mães estão passando muita necessidade com o coronavírus, as que ficaram com os netos principalmente. Nós apenas sobrevivemos, vivemos com essa recordação, não sai da nossa cabeça. Cada um ajuda no que pode, algumas ONGs nos ajudam com doações de cesta básica, produtos de higiene e limpeza. Por isso também vamos protestar na semana que vem”.

Segundo as investigações, os assassinatos foram praticados para vingar a morte do PM Admilson Pereira de Oliveira, em 8 de agosto de 2015, e do GCM de Barueri Jeferson Luiz Rodrigues da Silva, no dia 13 do mesmo mês. Em entrevista à Ponte em julho de 2019 o procurador Maurício Ribeiro Lopes, que representava o Ministério Público, explicou que mensagens de WhatsApp foram fundamentais para ligar os acusados.

Durante o julgamento de julho daquele ano, a acusação afirmou que o início e o fim dos ataques foram autorizados por meio de conversa entre o ex-PM e o GCM no aplicativo de mensagens. Na época, os desembargadores foram unânimes em validar a prova.

As apurações apontaram para três policiais militares como responsáveis pela chacina, Victor Cristilder, Fabrício Eleutério e Thiago Henklain, além do guarda civil Sérgio Manhanhã. Em um primeiro júri realizado em 22 de setembro de 2017, foram condenados os policiais militares Fabrício Eleutério e Thiago Henklain e o GCM Sérgio Manhanhã.

Em 2 de março de 2018 um outro julgamento aconteceu, nele Victor Cristilder Silva dos Santos foi condenado pelas execuções, com pena de 119 anos, 4 meses e 4 dias de prisão.

Com isso, os quatro agentes foram condenados e presos por crimes de constituição de milícia privada e homicídios consumados e tentados.

Já em agosto de 2019, o Tribunal de Justiça anulou as sentenças de 119 anos, 4 meses e 4 dias de Cristilder e a de 100 anos e 10 meses de Manhanhã, alegando que as provas usadas pela acusação são insuficientes para confirmar a sua participação na chacina. Apesar disso, os dois seguem presos em regime fechado. Também naquele ano, Cristilder, Eleutério e Henklain foram expulsos do quadro da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Acácio Augusto, professor no Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo e coordenador do Laboratório de Análise em Segurança Internacional e Tecnologias de Monitoramento (LASEnTec-Unifesp), lembra que o lote de munição usado na chacina na Grande SP em 2015 é o mesmo que matou a vereadora Marielle Franco, em 2018. “Isso revela um circuito desse armamento do Estado, que escoa para organizações milicianas. Os agentes foram identificados e são agentes do Estado, PMs e GCMs”.

Para ele isso mostra como há uma regularidade nesse tipo de execução. “Tanto em relação a quem pratica, como em relação a quem recebe. Os meninos executados a esmo são na maioria das vezes os jovens, negros e do sexo masculino”.

Na visão do professor da Unifesp, o movimento de Mães de Osasco, formado após a chacina, é uma resposta que vai além da simples reivindicação de justiça. “É a forma pela qual essas mães sobrevivem a essa tragédia, como elas reinventam a sua existência e fazem do que poderia ser um sofrimento privado uma questão pública. O problema não diz respeito somente a uma mãe que perdeu um filho, mas diz sobre uma sociedade que tolera esse tipo de coisa, esse movimento antinatural, de uma mãe enterrar seu filho”.

Agora a defesa dos ex-policiais busca a anulação das sentenças. De acordo com o advogado de Cristilder e Sérgio, João Carlos Campanini, os acusados são inocentes. “Eles não conheciam e nem tinham contato com os demais policiais. As provas testemunhais, periciais e documentais que contém fotos e vídeos comprovam que a versão da acusação é pura fantasia. A anulação em 2019 se deu após a demonstração da verdade baseada em todas as provas do processo, que só apontam para a inocência de ambos”, contesta.

O advogado ainda sustenta que Cristilder já foi absolvido no processo da chacina ocorrida em 8 de agosto. “Na grande chacina, a acusação afirma que Cristilder foi inserido na prova do crime por correlação balística entre a morte de uma vítima na pré-chacina e as mortes da grande chacina, pois a mesma arma teria sido usada nos dois crimes. Ocorre que em novembro do ano passado, Cristilder foi absolvido no júri popular por negativa de autoria, inclusive a pedido do próprio Ministério Público. Com essa absolvição, o efeito cascata aparece. Se ele não matou na pré-chacina, pela mesma balística, é impossível ter matado na grande chacina”, alega.

Procurado pela Ponte, o Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) não respondeu aos questionamentos enviados até a publicação desta reportagem.

Foram mortos em Osasco Rodrigo Lima da Silva, Joseval Amaral Silva, Deivison Lopes Ferreira, Eduardo Bernardino Cesar, Antônio Neves Neto, Letícia Hildebrand da Silva, Adalberto Brito da Costa, Thiago Marcos Damas, Presley Santos Gonçalves, Igor Oliveira, Manuel dos Santos, Fernando Luiz de Paula, Eduardo Oliveira Santos, Wilker Thiago Corrêa Osório, Leandro Pereira Assunção, Rafael Nunes de Oliveira, Jailton Vieira da Silva, Tiago Teixeira de Souza e Jonas dos Santos Soares. Wilker Thiago Correa Osório, Jailton Vieira da Silva, e Joseval Amaral da Silva foram mortos em Barueri, e Michael do Amaral Ribeiro foi assassinado em Carapicuíba.

93 pixotes

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 9 de Dezembro de 2020

 

 

TEXTO PUBLICADO NO SITE CARTA MAIOR

Documentário sobre a Operação Camanducaia deixa o alerta para um país que hoje volta a negar futuro para suas próximas gerações

Quando criou o personagem Pixote no romance-reportagem Infância dos Mortos, José Louzeiro inspirava-se na sua cobertura do Caso Camanducaia, quando 93 crianças e adolescentes delinquentes foram retirados de uma instituição em São Paulo e levados de ônibus até a cidade mineira de Camanducaia, onde foram despidos, maltratados e atirados num barranco. Era parte da operação de “limpeza” da cidade de São Paulo na época em que a Secretaria de Segurança Pública do estado era comandada pelo extremista Coronel Erasmo Dias.

O assunto teve grande repercussão na ocasião, mas foi logo depois esquecido, como tantos episódios da ditadura que tinham ou não relação direta com a política. O documentário Operação Camanducaia, de Tiago Rezende de Toledo, sai atrás dessa memória. Em formato típico de documentário de busca, Tiago narra em primeira pessoa sua busca de testemunhas em Camanducaia. As lembranças são vagas, mas ele persevera. Conversa com o jornalista Paulo Markun, que também cobriu o episódio. Visita arquivos e ouve delegados envolvidos na operação oficialmente chamada de “Passa-Moleque”, que de pouco se recordam e negam qualquer responsabilidade sobre os fatos ou sobre o posterior arquivamento do processo sem punições efetivas.

O esquecimento desse tipo de ocorrência costuma ser conveniente não só para as autoridades envolvidas, mas também para a sociedade, que quer se ver livre desse incômodo à época chamado de trombadinhas. Dos 93 meninos enfiados no fatídico ônibus fretado, só 41 deles apareceram na cidade, nus e famintos.

A narrativa do filme caminha no sentido de localizar alguns dos sobreviventes. Três são reencontrados e narram o que sofreram. A amostragem tem seu lado trágico: um deles não escapou de uma vida de crimes e estava na cadeia. Outro, num lar de desamparados. Um saldo triste, que levanta interrogações sobre o destino possivelmente comum a tantos daqueles garotos.

Operação Camanducaia perdeu a oportunidade de contextualizar melhor o drama dos pixotes no contexto do regime militar. Mas deixa o alerta sobre um país que hoje volta a negar futuro para suas próximas gerações.

O documentário passa no Canal Curta! nesta sexta, 4/12, às 22h30. Reprises 5/12 às 2:30, 6/12 às 15:00, 7/12 às 16:30 e 8/12 às 10:30.

 

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Ato marca os mil dias do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 8 de Dezembro de 2020

 

Matéria publicada no jornal O DIA

Em frente à Câmara de Vereadores, na Cinelândia, Anistia Internacional e o Instituto Marielle Franco marcaram no chão a frase '1.000 dias sem respostas'. Crime cometido em março de 2018 segue sem conclusão

O assassinato mais marcante da história recente do Rio de Janeiro segue sem respostas, mas a luta pela memória de Marielle Franco e Anderson Gomes continua. O crime, cometido na noite de 14 de março de 2018, completa 1.000 dias nesta terça-feira, e para lembrar a data e pedir Justiça, a Anistia Internacional e o Instituto Marielle Franco organizam um ato na Cinelândia, em frente à Câmara de Vereadores, onde Marielle legislava. 

Organizadores do ato esticaram no chão da Cinelândia uma faixa com a frase '1000 dias sem respostas'. A hashtag #1000DiasSemResposta é usada por artistas, ativistas e influenciadores digitais nas redes sociais. Nesta terça-feira, quando o Dia da Justiça é celebrado, 550 relógios tiveram seus alarmes disparados simultaneamente às 8h, bem em frente à Câmara dos Vereadores. O protesto foi batizado de 'Despertador da Justiça'.

Devido aos protocolos de saúde pública, não haverá convocação para atos presenciais. Mas, nas redes, o Instituto Marielle Franco formulou uma petição, no endereço bit.ly/mariellejustiça, para pressionar por justiça o governador em exercício, Cláudio Castro, e o procurador-geral do Ministério Público, Eduardo Gussem.

“São 1000 dias que acordamos todas as manhãs com a esperança de uma resposta. 1000 dias de dor e saudade. E não somos só nós da família que estamos interessadas. O Brasil precisa dessa resposta para que casos como esse não se repitam”, diz Anielle Franco, irmã de Marielle e diretora executiva do Instituto Marielle Franco.

A ex-vereadora Marielle Franco e o seu motorista, Anderson Gomes, foram assassinados na noite de 14 de março de 2018, no bairro do Estácio de Sá, quando voltavam de um evento na Lapa. Mais de dois anos depois, as investigações continuam, mas o quebra-cabeça parece longe de ser concluído pela Polícia Civil. O caso teve reviravoltas e pedidos de federalização. Atualmente, o sargento reformado da PM Ronnie Lessa e o seu compadre, o ex-PM Élcio Queiroz, acusados de estarem no carro que atirou contra a vereadora, cumprem pena no presídio federal de Rondônia. Os mandantes, no entanto, ainda não foram descobertos.

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Milicianos fracassam na tentativa de emplacar nova geração no Rio

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 16 de Novembro de 2020

 

Carminha Jerominho (PMB) e Daniel Carvalho (PTC), por exemplo, tiveram 4,4 mil e 1,4 mil votos respectivamente

 

Estadão Conteúdo

Figuras centrais para entender a história das milícias do Rio, os ex-vereadores Jerônimo Guimarães, o Jerominho, e Luiz André Ferreira da Silva, o Deco, não conseguiram eleger seus filhos para a Câmara Municipal da capital fluminense. Após anos presos, os dois haviam apostado em Carminha Jerominho (PMB) e Daniel Carvalho (PTC) para dar continuidade às trajetórias políticas das famílias. Os candidatos tiveram, respectivamente, 4,2 mil e 1,4 mil votos e ficaram fora do Legislativo.

Jerominho e seu irmão, o ex-deputado estadual Natalino Guimarães são apontados como fundadores da Liga da Justiça, milícia que atuava em Campo Grande e Santa Cruz, bairros populosos da zona oeste do Rio, no início dos anos 2000. O grupo conhecido atualmente como Bonde do Ecko, considerado o maior bando de milicianos do Rio, é uma espécie de continuação da Liga criada por eles. Ex-policiais, os irmãos passaram cerca de onze anos presos. Foram soltos em 2018.

Deco era dos primórdios da milícia que atuava na região de Jacarepaguá, também na zona oeste, especialmente no bairro da Praça Seca. Agora em liberdade condicional, ele foi acusado de chefiar o grupo criminoso. Entre os planos que teria orquestrado como miliciano, haveria um para assassinar o então deputado estadual Marcelo Freixo (PSOL), relator da CPI das Milícias na Assembleia Legislativa do Rio. Outro alvo seria a delegada Martha Rocha, hoje deputada estadual pelo PDT e terceira colocada na disputa pela prefeitura do Rio.

Filha de Jerominho, Carminha já foi vereadora – e, como o pai, esteve na cadeia. Em 2008, ela foi levada ao presídio durante a corrida eleitoral, o que não impediu sua eleição. Depois, contudo, não conseguiu se reeleger. Neste ano, fazia agendas intensas de campanha pela zona oeste, com direito a participações do pai e do tio como cabos eleitorais.

Na semana passada, a família Jerominho foi alvo de operação da Polícia Federal, que apreendeu materiais de campanha dela e dinheiro em espécie. A ação ocorreu depois que a PF identificou movimentações financeiras atípicas nas contas do clã.

No município mais populoso da Baixada Fluminense, Duque de Caxias, outro acusado de integrar uma milícia conseguiu emplacar o nome do filho. Chiquinho Grandão (Progressistas) está até hoje com mandato no Legislativo local, mesmo após ter sido indiciado e preso. É acusado pelo MP de formação de quadrilha. O grupo do parlamentar seria responsável por impor “taxas de segurança” a comerciantes. Também exploraria serviços de transporte alternativo, agiotagem e outros tipos de crime comuns a esse tipo de milícia.

Vitinho Grandão, o filho, concorreu pelo Solidariedade e conseguiu os votos necessários para entrar no Legislativo do município. “Agora é a juventude com experiência”, diz o slogan de uma das imagens em que pai e filho apareciam juntos.

Atingido há duas semanas por tiros – um deles pegou de raspão na cabeça -, o vereador Zico Bacana (Podemos) não conseguiu se reeleger na capital. Investigado por supostamente integrar milícia que atua em bairros da zona norte, o ex-policial teve 11 8 mil votos, pegando apenas uma suplência – entre os candidatos que ficarão na “reserva”, foi o segundo mais votado da cidade.

Os políticos envolvidos com milícias, geralmente, negam as acusações. Atribuem as mesmas a perseguições supostamente movidas por adversários políticos.

 

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Filme sobre Geovane Mascarenhas, executado por PMs, estreia nos cinemas

Postado por Paulo Cezar Soares | Quinta-feira, 5 de Novembro de 2020

 

Documentário tem depoimentos de familiares e pesquisadores sobre violência

Matéria publicada no jornal baiano CORREIO

O cineasta francês Bernard Attal, 56 anos, veio morar na Bahia em 2005, depois de ter vivido entre o seu país natal e os Estados Unidos. Chegou aqui com aquela bela imagem que Salvador tinha nos livros de Jorge Amado que ele costumava ler. Mas logo conheceu a Bahia real, muito desigual e violenta.

Mais tarde, chocou-se com a violência praticada pela polícia local, a terceira que mais mata no país, segundo dados divulgados em outubro de 2019, em um levantamento do Núcleo de Estudos da Violência da USP. No primeiro semestre daquele ano, 350 baianos haviam sido mortos por policiais.

Mas foi um crime cometido por PMs que aconteceu em 2014 que mais lhe indignou: o assassinato do jovem negro Geovane Mascarenhas, 22, que sumiu depois de ser parado por uma blitz e cujo corpo foi encontrado esquartejado e incinerado. O choque de Bernard diante da barbaridade motivou-o a realizar o documentário Sem Descanso, que chega nesta quinta-feira (5) aos cinemas de várias cidades do país. As salas ainda serão divulgadas.

O filme registra depoimentos de familiares de Geovane, e ouve também especialistas que falam sobre direitos humanos e analisam o histórico de violência da polícia militar no país.

O cineasta soube do crime depois que o CORREIO, primeiro veículo a noticiar o caso, publicou uma série de reportagens assinadas pelo jornalista  Bruno Wendel. “Me chamou a atenção o interesse que o jornal teve em acompanhar o caso por tanto tempo”, recorda-se o diretor. A série Onde Está Geovane? rendeu ao CORREIO um Prêmio OAB de Jornalismo e uma indicação ao Prêmio ExxonMobil de Jornalismo - antigo Prêmio Esso.

A pouca mobilização da sociedade em torno do caso também impressionou Bernard: “Quando fui ao interior da Bahia para acompanhar o enterro de Geovane, só havia a família dele e alguns jornalistas. Mas não havia artistas, não havia formadores de opinião”.

Um outro fator também lhe chamou a atenção: no mesmo período da morte de Geovane, a população dos Estados Unidos protestava contra o assassinato de Michael Brown, um jovem negro de 18 anos morto pela polícia em Saint Louis, no estado de Missouri, uma semana depois de Geovane. “Vi como a população lá, inclusive pessoas brancas, se mobilizou, enquanto aqui não houve mobilização”, compara Bernard.

Pena de morte

Quando morava em Nova York, Bernard militou numa campanha contra a pena de morte. Ao chegar no Brasil, acreditou que não seria necessário se empenhar na mesma luta, afinal esse tipo de punição não está previsto na nossa legislação. “Mas percebi que a pena de morte é praticada de fato nas ruas, só que o brasileiro parece não se dar conta disso. A pena de morte só não está na lei. E a violência policial tem crescido muito, independente de qual seja o governo”, observa Bernard.

O empenho do pai de Geovane em buscar justiça também pesou muito na decisão de filmar. Jurandhy Silva de Santana, 40, não se conformava com o desaparecimento do rapaz. Foi à polícia diversas vezes, ao Instituto Médico Legal, apelou à Corregedoria da polícia militar… mas ele não encontrava informação alguma sobre o paradeiro do filho.

As autoridades só começaram a se empenhar em esclarecer a morte de Geovane quando o CORREIO tornou o caso público. O repórter especial Bruno Wendel estava no IML quando conversou com Jurandhy e soube do desaparecimento do rapaz. “Mas ele não tinha prova de que os policiais estavam envolvidos. Alguns conhecidos dele diziam que Geovane havia sido parado numa blitz antes de sumir, mas aquilo não era o bastante para fazer a reportagem com segurança”, lembra o jornalista.
Capa do CORREIO com primeira reportagem sobre Geovane

Mas três dias depois, Jurandhy o procurou e mostrou algo decisivo: um vídeo que mostrava Geovane sendo agredido por PMs e, em seguida, entrando numa viatura. “Ele me mostrou o vídeo e fiquei impressionado: pela primeira vez eu tinha uma prova incontestável da violência da polícia”, conta Bruno.

Jurandhy aceitou que a reportagem fosse realizada, ainda que houvesse sido alertado pelo jornalista sobre os riscos que iria correr ao denunciar os PMs. “Ainda assim, ele não hesitou. Só disse ‘quero encontrar meu filho e não me importo com mais nada. No dia seguinte, publicamos a matéria e foi aquele alvoroço”, recorda-se Bruno.

O repórter diz que a atuação da imprensa foi fundamental no envolvimento das autoridades em investigar o caso: “Com certeza, o corpo não seria encontrado se não fosse a reportagem. A publicação fez a Secretaria de Segurança Pública se movimentar”.

 

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