Balneário de gângsteres

Postado por Paulo Cezar Soares | Quinta-feira, 1 de Outubro de 2020

A canção “Rio Antigo” foi escrita pelo cearense Chico Anísio (1931- 2012) e o maranhense Nonato Buzar. Como o próprio nome diz, relata o estilo de vida, o charme, o glamour e a efervescência cultural da cidade há algumas décadas do século passado, exemplo para o país e o mundo.

Bons tempos! Mas que fazem parte do passado. O Rio charmoso – que ganhou o epíteto de Cidade Maravilhosa – e tambor cultural do país – como, não raro, costumava dizer o governador Leonel Brizola ( 1922-2004 ) – infelizmente acabou. E, já há algumas décadas, figura entre as mais violentas do país, refém da bandidagem – traficantes e milicianos, grupos formados por policiais civis e militares, inicialmente dispostos a erradicar os traficantes das comunidades, mais hoje tão criminosos quantos eles.

Tudo isso está relatado no livro A República das Milícias: dos esquadrões da morte à era Bolsonaro, do jornalista Bruno Paes Manso. Editora Todavia.

Os primórdios da violência urbana tiveram início com os grupos de extermínio que faziam a segurança para os comerciantes, executavam ladrões, assaltantes e desafetos. E também prestavam seus serviços para os bicheiros do jogo do bicho. Os bicheiros dos românticos anos 40 e 50 deram lugar à nova geração, com ideais diferentes e métodos de ação violentos. Para alguns desses contraventores, drogas e máquinas de vídeo pôquer passaram a fazer parte dos seus negócios.

O submundo do crime, sua infraestrutura e conexões, tudo isso é revelado pelo autor por meio das suas fontes. Depoimentos impactantes, que explicam o crescimento do crime na cidade, de forma avassaladora. A partir da década dos anos 2000, além do tráfico de drogas surgem as milícias, a primeira delas na favela Rio das Pedras, bairro Jacarepaguá, Zona Oeste do Rio, fato que inspirou outros grupos de milicianos.

O termo milícia passou a ser conhecido do grande público em 2005, a partir de uma matéria da repórter Vera Araújo, no jornal O Globo. “A ligação do clã Bolsonaro com a rede de paramilitares e milicianos que se formava na zona oeste se estreitou em 2002, com a eleição de Flávio Bolsonaro para a Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro. O deputado de apenas 22 anos, neófito no Parlamento, pretendia se vender como o representante político e ideológico dos “guerreiros fardados” que lutavam por espaço e poder nos territórios do Rio” – página 42.  “Dois anos antes, Carlos Bolsonaro, o zero dois, tinha sido o mais jovem vereador eleito da história do Brasil, com dezessete anos” - página 43

No Congresso, Bolsonaro sempre defendeu os grupos de extermínio e a pena de morte para conter a violência urbana. E os seus colegas parlamentares nunca reagiram à altura. Ficaram omissos a seus discursos contra os mais elementares postulados democráticos e aos   direitos humanos.

A situação da segurança pública carioca só piorava, a ponto de o governo estadual solicitar ajuda do Exército, o que ocorreu com a intervenção federal, em 16 de fevereiro, de 2018, comandada por um general do Exército.

Soldados posicionados em diversos pontos da cidade, assim como a realização de blitzes, geraram apenas uma falsa sensação de segurança – um efeito psicológico. Todo o aparato militar não conseguiu evitar o assassinato da vereadora Marielle Franco, e do seu motorista Anderson Gomes, crime que teve repercussão internacional. Os militares também não conseguiram descobrir quem mandou matar e por quê.  

“A indignação se espalhou e Marielle se tornaria símbolo da resistência contra a violência policial, o machismo e o racismo. Para agravar a situação política o assassinato ocorreu no primeiro mês da intervenção federal no Rio de Janeiro. Parecia lançar um desafio direto aos militares, ao governo federal, à imprensa. Como se os assassinos dissessem: “Não importa que a atenção de todo Brasil esteja voltada para o Rio. Quem manda neste estado somos nós” – página 189.

Um quadro angustiante, desalentador, que parece não ter fim. Não seria exagero definir a cidade como um balneário de gângsteres.

TRECHO DO LIVRO - Anthony e Rosinha Garotinho, os governadores que sucederam a Marcello Alencar, fecharam os olhos para o avanço da banda podre que envolvia a estrutura que sustentava as instituições. Quando assumiu, em 1999, Garotinho mostrou disposição para enfrentar os problemas de segurança. Chamou para a Subsecretaria de Segurança, Justiça e Cidadania, o antropólogo Luiz Eduardo Soares, que levou para a pasta um grupo comprometido com reformas estruturais na polícia. Soares teve a liberdade de indicar os chefes da Polícia Militar e da Polícia Civil, escolhidos com a missão de reduzir a violência e a corrupção nas suas corporações. Medidas foram tomadas, como o fortalecimento da ouvidoria da polícia; a criação do Instituto de Segurança Pública, responsável pelo levantamento de dados sobre crime no estado; a formação das Áreas Integradas de Segurança, para que a administração tivesse mais informação e capacidade de gestão sobre os territórios; os mutirões pela paz, que propunham um policiamento mais próximo da vizinhança dessas áreas e que seria um dos embriões das UPPs; e as delegacias legais, que buscavam informatizar e modernizar os processos de investigação para tornar os resultados transparentes e minar os esquemas viciados de delegados e investigadores. A pressão política dos policiais que tiveram seus interesses atingidos, alguns deles atuavam dentro da própria Secretaria de Segurança, levou o governador a interromper as reformas e a demitir Luiz Eduardo Soares um ano e três meses depois da posse. Com a mudança, o delegado Álvaro Lins, que mais tarde seria acusado de proteger empresários da contravenção, e de se juntar a outros policiais para lotear as delegacias em troca de propinas, ganhou espaço no governo. Ao ser demitido, Soares avisou que o governador tinha se aliado à banda podre da polícia. Passou a sofrer diversas ameaças de morte e precisou deixar o Brasil com a família, quando escreveu o livro Meu casaco de general: Quinhentos dias no front da Segurança Pública do Rio de Janeiro, em que conta sua experiência. No governo de Rosinha Garotinho, a banda podre continuou empoderada. O delegado Álvaro Lins se tornou chefe da Polícia Civil e o modelo de negócio miliciano viveria seu momento inicial de expansão. Na CPI das Milícias, o ex-secretário de Segurança de Rosinha Garotinho, Marcelo Itagiba, foi acusado de fazer campanha com o apoio dos paramilitares de Rio das Pedras — ele se elegeu deputado federal pelo PMDB em 2006. Cristiano Girão, que na CPI das Milícias foi apontado como um dos chefes da comunidade da Gardênia Azul, trabalhou como assessor especial de Rosinha Garotinho e levava parceiros do governo para buscar votos na comunidade. Esse processo descontrolado se agravou no fim do segundo mandato do governo de Sérgio Cabral Filho. O novo governador assumiu num momento econômico favorável, beneficiado pelo alto valor das commodities no mundo, em especial do petróleo, que tinha se tornado o carro-chefe da economia fluminense. Em 2008, o preço do barril estava acima de cem dólares e os royalties adquiridos com a venda do produto correspondiam a 16% de toda a receita do governo. Para ajudar, as UPPs saíram do papel, com bons resultados iniciais. A situação política também favorecia o governador, graças à proximidade com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, que fortalecia a liderança de Cabral. Tudo parecia dar certo. Vieram os anúncios da escolha do Brasil como sede da Copa do Mundo e das Olimpíadas, os investimentos do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC) do Governo Federal, a construção do teleférico no Complexo do Alemão, notícias grandiosas que passaram a ideia de um futuro promissor para o Rio de Janeiro. O governador gastava como um novo-rico deslumbrado, mas a cobrança da conta ainda demoraria a aparecer. Por algum tempo, Cabral desfrutou a fama de estadista; em 2009, a revista inglesa The Economist estampou na capa um Cristo Redentor com jatos propulsores sob os pés, decolando como um foguete no Corcovado. Essa imagem de prosperidade começou a ruir quatro anos depois, em junho de 2013, quando milhões de brasileiros foram às ruas protestar contra o aumento das passagens de ônibus. Os limites da bonança carioca tornavam-se claros. Naquele ano, a revista inglesa dedicou outra capa ao Rio de Janeiro, então com o Cristo Redentor se descontrolando logo depois da decolagem e descendo em queda livre. Em abril de 2014, diante da pressão popular que cresceu depois do assassinato do pedreiro Amarildo na UPP da Rocinha e com a expectativa de se candidatar ao Senado, Cabral renunciou ao cargo de governador, cedendo a cadeira ao vice, Luiz Fernando Pezão. A crise econômica e política do Rio de Janeiro, no entanto, avançava com velocidade.

Por que o Brasil voltou ao Mapa da Fome?

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 28 de Setembro de 2020

 

Artigo originalmente publicado no jornal Valor Econômico, em 25 de setembro de 2020.

OBS - Nota do  editor  do blog -  O artigo em  tela revela uma questão de extrema gravidade, que é uma  vergonha para o nosso país. Pode é deve ser incluída no  campo dos Direitos Humanos.

Por José Graziano da Silva*

Em artigo, o ex-diretor-geral da FAO trata da crise brasileira e da fome no país. “O governo Bolsonaro segue com o desmonte do que ainda restou da política de segurança alimentar implantada no Brasil a partir do primeiro governo Lula”, aponta

Os resultados da Pesquisa de Orçamentos Familiares (POF) recentemente divulgada pelo IBGE, realizada entre junho de 2017 a julho de 2018, apontaram que a fome (insegurança alimentar grave) atingiu mais de 10 milhões de brasileiros nesse período, representando uma fatia de 4,6% da população de nosso país. A pesquisa também mostrou que a insegurança alimentar grave é ainda maior em domicílios chefiados por negros, mulheres e na região Nordeste. No meio rural, a fome ultrapassa a 7%.

O anúncio ocorreu cinco anos depois de a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e Agricultura (FAO) declarar que o Brasil não fazia mais parte do Mapa da Fome Mundial. Segundo o IBGE, a insegurança alimentar grave no Brasil havia caído de 6,9% da população em 2004, para 5% em 2009 e para 3,2% em 2013.

Muita gente confunde as coisas e correlaciona nossa alta produção de alimentos com a ausência da fome no país

Se fizermos uma simples projeção linear, ou seja, se admitirmos que essa tendência de crescimento verificada a partir de 2013 se manteve, os números em julho de 2020 alcançariam algo como 6,6% da população brasileira de 213 milhões de habitantes, ou seja, cerca de 15 milhões de brasileiros estariam passando fome, hoje!

Na verdade, esses números tendem a ser ainda mais alarmantes, já que não consideram o impacto da crise econômica agravada pela pandemia da covid-19. O aumento do desemprego atingiu 13,7 milhões de pessoas procurando trabalho no final de agosto – alcançando o recorde de 14,3% da forca de trabalho; isso sem considerar os milhões de ocupados informais que vivem com salários miseráveis além de todos aqueles que estavam em “desalento com a pandemia e estão voltando a procurar trabalho”.

Some-se a isso as restrições à distribuição da merenda escolar, pois as escolas permanecem fechadas; e ao desmonte das políticas de segurança alimentar como o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) – quase sem recursos orçamentários – e os estoques reguladores da Conab praticamente zerados. Tudo isso mais o aumento generalizado de preços dos produtos da cesta básica, entre eles a dobradinha arroz-feijão, base do sistema alimentar dos brasileiros durante a pandemia.

Mas a covid-19 não pode ser considerada o principal vilão dessa história, até porque o crescimento da fome registrado pelo IBGE ocorreu antes da pandemia. Os avanços na erradicação da fome se deveram, no passado, à implantação de uma política de segurança alimentar e nutricional a partir de 2003 no primeiro governo Lula, com a aplicação de políticas públicas de transferência de renda, com os aumentos reais do salário mínimo, com a geração de empregos de qualidade e com a implementação da estratégia Fome Zero, como o fortalecimento dos programas já citados anteriormente que hoje estão à míngua.

Mas a covid-19 não pode ser considerada o principal vilão dessa história, até porque o crescimento da fome registrado pelo IBGE ocorreu antes da pandemia

O que de fato aconteceu? Infelizmente, o combate à fome deixou de ser prioridade de governo depois de 2016. Como o Brasil é um grande produtor e exportador mundial de alimentos, muita gente – incluindo o atual presidente da República – confunde as coisas e correlaciona a nossa alta produção de alimentos com a ausência da fome no nosso país. Açúcar, café, suco de laranja, carne bovina e de frango, milho e soja são apenas alguns dos produtos onde o Brasil é o maior (ou o segundo) produtor e exportador mundial hoje em dia. Ocorre que, a fome no Brasil, como na maior parte do mundo, não é oriunda da falta de alimentos produzidos, mas de alimentos consumidos dada impossibilidade dos mais pobres de ter acesso a eles.

Em poucas palavras, não faltam alimentos, mas falta dinheiro para comprá-los! Os dados da FAO mostram que produzimos mais do que o suficiente para alimentar a todos com uma dieta mínima e ainda se joga fora cerca de um terço do que produzimos, acentuando de forma desnecessária o impacto da agricultura no meio ambiente.

Esse não é o único paradoxo do caso brasileiro de existir fome num país com abundância de produção de alimentos. Além disso, temos também 20% da nossa população adulta obesa e outros tantos com sobrepeso. É o outro lado da mesma moeda: comemos pouco e muito mal. Fome e obesidade são dois extremos de um contínuo de má nutrição, que afeta os brasileiros por falta de uma política ativa de educação alimentar.

O governo Bolsonaro segue com o desmonte do que ainda restou da política de segurança alimentar implantada no Brasil a partir do primeiro governo Lula

Com a pandemia, vimos multiplicar os programas de rádio e de TV procurando ensinar as pessoas a fazerem comida em casa. Essa situação emergencial deveria ser uma prática permanente, como parte das ementas escolares já a partir do ensino fundamental. Somos um país de obesos e de pessoas acima do peso porque comemos muito açúcar, sal, gorduras saturadas contidos em alimentos ultraprocessados de baixo valor nutricional e muitas farinhas de todos os tipos de alto teor calórico, mas baixo conteúdo proteico.

Mas porque o governo Bolsonaro segue com o desmonte do que ainda restou da política de segurança alimentar implantada no Brasil a partir do primeiro governo Lula, ainda mais agora quando uma boa alimentação é arma fundamental para prevenir a covid-19? Já está mais do que provado que a obesidade, junto com a idade mais avançada, estão entre as mais graves comorbidades associadas à doença.

Orientar as pessoas a comerem bem, de forma saudável e nutricionalmente balanceada, é dever de Estado. Esse direito humano à alimentação saudável está inscrito na nossa Constituição, e deveria ser zelado por todos os governos, independentemente de afiliação político-partidária. Não encontro outra resposta: existe uma crença cega e dogmática na atual administração federal de que a alimentação é um problema de cada um de nós e que o governo não tem nada a ver com isso. Pior: de que não deve atrapalhar o bom funcionamento da lei da oferta e procura no melhor estilo ultra-neoliberal, onde os mercados são soberanos e devem comandar a economia e a política.

Jose Graziano da Silva foi diretor-geral da FAO e é consultor do Instituto Comida do Amanhã.

Artigo originalmente publicado no jornal Valor Econômico, em 25 de setembro de 2020.

 

 

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Redes sociais: o dilema entre a humanidade e a tecnologia

Postado por Paulo Cezar Soares | Sexta-feira, 25 de Setembro de 2020

Artigo publicado no portal de notícias Vermelho

Estamos presos à conectividade, às redes sociais e aos efeitos que elas produzem e esse é um caminho sem volta.

Por Carolina Maria Ruy *

 

Uma pessoa dentro de um tubo de ensaio. É esta a sensação que o filme O dilema das redes, de Jeff Orlowski, transmite. Não é só uma sensação, eles dizem. É real. E dizem mais. Já se tornou lugar comum a ideia de que, se não pagamos para usar, nós somos o produto. Mas, mesmo que possamos tentar não ser o produto, de nada adianta se a grande massa de usuários continua a ter seus dados vendidos e manipulados, contribuindo, desta forma, para a disseminação generalizada de discursos de ódio e de notícias falsas.

“As redes sociais são um cérebro e seus usuários, os neurônios”, pode parecer uma analogia assustadora, mas é com ela que ex-funcionários do Facebook, Google, Twitter, Instagram definem, no filme, o modus operandi das redes sociais em escala global. É interessante, mas o que me veem à mente é uma metáfora mais vulgar onde os usuários são átomos de uma peça em um tabuleiro de War.

O impacto nocivo das redes sociais na política e nos rumos da sociedade já foi bem documentado no filme Privacidade Hackeada (Karim Amer, Jehane Noujaim, 2019), que releva o uso ilegal de dados do Facebook de pelo menos 87 milhões de pessoas em campanhas para o referendo do Brexit, no Reino Unido, na eleição do presidente Trump, nos Estados Unidos, e na eleição de Jair Bolsonaro, no Brasil.

O tema também é abordado no livro A máquina do ódio (2020), no qual a autora, Patrícia Campos Mello, demonstra como, influenciados pelas redes sociais, eleitores tendem a valorizar políticos extremistas ao invés de moderados. Isso porque: “Só políticos com ideias polarizadoras têm usado as mídias sociais de forma eficiente para manipular eleições”.

O que O dilema das redes mostra, porém, não é um esquema ilegal, mas o funcionamento normal e legal das empresas. Um sistema que parecia se limitar a ficções como as de Aldous Huxley e de George Orwell, com suas obras visionárias, O Admirável Mundo Novo (de 1932) e 1984 (de 1949).

Mais de trinta anos depois do ano de 1984, quando se daria a distopia imaginada por Orwell, o admirável mundo das redes sociais permite acesso fácil e barato à informação, entretenimento, comunicação e até à criação de conteúdo, mas castiga o mesmo globo que conecta, abrindo caminho para políticos e movimentos histriônicos e irresponsáveis em um ambiente de polarização que faria a Guerra Fria corar.

A interessante do filme O dilema das redes está justamente nos relatos duros de pessoas que estavam dentro da engrenagem. Além disso ele conta com o apelo de uma realidade trágica: Brexit, Trump, Bolsonaro e toda a ofensiva obscurantista desafiando a lógica em plena era da tecnologia da informação. Uma realidade que se ergueu justamente sobre as bases expostas no documentário.

Me pergunto como chegamos a este ponto se alarmes sobre os perigos do uso massivo e descontrolado da internet e das redes sociais soam há tanto tempo. Tecnologia que, apropriado ressaltar aqui, foi criada para uso militar e amplamente utilizada na reestruturação do setor financeiro.

Autores que buscaram compreender os fundamentos da sociedade moderna, como Theodor Adorno, Max Horkheimer e Michel Foucault, já problematizavam questões como a reprodução em série, a massificação cultural, a perda da identidade, a vigilância e o controle social. Eles trazem em suas teorias pistas de como o mundo poderia chegar à situação que o filme nos apresenta.

Mas não são apenas estas teorias abstratas as referências. Desde a segunda década deste século o jornalista e ativista Julian Assange tem demonstrado claramente o sistema de controle político e social perpetrado pelas empresas que dominam a internet. Ele disse, por exemplo, no prefácio à edição brasileira do seu livro “Quando o Google encontrou o Wikleaks”, de 2014, que “O Google exemplifica os terríveis perigos da internet corporativa. Desde muito cedo, seus fundadores perceberam que o processamento de informações em grande escala os colocaria no centro de tudo”. E que: “Os brasileiros devem se conscientizar de que, quando usam os ‘serviços’ do Google, estão sendo aliciados para entrar em um relacionamento com uma mega corporação estrangeira global muito milhões de vezes mais poderosa do que eles e sujeita a poucos mecanismos de prestação de contas”.

Assange conta no livro como as redes sociais manipularam as mega manifestações que varreram o oriente em uma série de eventos que se tornaram conhecidos como “Primavera Árabe”.

Trazendo para a realidade brasileira, constatamos que o mesmo fenômeno inflou o nosso Junho de 2013, roubando, naquele momento, o protagonismo de entidades organizadas (e com propósitos). Daquela catarse social, na qual a opinião pública se confundia com likes e retuítes, nasceram as condições para se viabilizar a Lava Jato, a derrubada de uma presidente eleita democraticamente, o governo Temer, a retirada de direitos sociais, a prisão injustificada do ex-presidente Lula e a eleição de um deputado federal caricato e do baixo clero como presidente da República.

Na esteira destas contradições e injustiças sociais Julian Assange, que escancarou o verdadeiro dilema das redes sociais, é tratado pelo establishment como um marginal. Um dilema entre a democratização da informação e da comunicação, por um lado, e o controle político sobre os indivíduos através da apropriação de seus dados nas redes, por outro.

Não há resposta fácil. Estamos presos à conectividade, às redes sociais e aos efeitos que elas produzem e esse é um caminho sem volta. A velocidade da informação e da comunicação já reorganizou o mundo e a tendência é ela se aprofundar. Renunciar também seria uma forma de alienação e de pouco adiantaria. A questão é: seremos um neurônio em um grande cérebro virtual, um átomo em uma peça de War? Nos deixaremos dominar ou dominaremos essas sedutoras ferramentas? Eis o dilema existencial que aflige a humanidade desde que o homem começou a transformar a natureza.

 

  * Carolina Maria Ruy

Jornalista e coordenadora do Centro de Memória Sindical

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Após decisão da Justiça, Flordelis não se apresenta para colocar tornozeleira eletrônica

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 22 de Setembro de 2020

Matéria publicada no site do jornal O DIA

Tribunal de Justiça do Rio determinou que a parlamentar seja monitorada e que cumpra recolhimento domiciliar noturno, das 23h às 6h

A deputada federal Flordelis (PSD-RJ) ainda não se apresentou para colocar a tornozeleira eletrônica, como determinado pela Justiça. Na última sexta-feira, o Tribunal de Justiça (TJRJ) determinou que a parlamentar seja monitorada por tornozeleira eletrônica e que cumpra recolhimento domiciliar noturno, das 23h às 6h. As medidas cautelares foram solicitadas pelo Ministério Público (MPRJ) e decididas pela juíza Nearis dos Santos Carvalho Arce, titular da 3ª Vara Criminal de Niterói. Segundo um assessor do gabinete da deputada Flordelis, a parlamentar está em Brasília e se apresentaria quando retornasse ao Rio.

 A deputada federal e sete dos seus filhos são reús no processo sobre a morte do marido da parlamentar, o pastor Anderson do Carmo. No final de agosto, ela foi indiciada como mandante do assassinato, que aconteceu na garagem da casa da família, em Niterói, na Região Metropolitana, em junho de 2019, mas não pode ser presa em razão de sua imunidade parlamentar.

A decisão pelo monitoramento eletrônico aconteceu, segundo a decisão judicial, devido à dificuldade de localização da parlamentar, tanto para a citação no processo, quanto para sua notificação pela Câmara dos Deputados, além da intimidação à uma testemunha após terem jogado um explosivo no quintal dela.

“Foram trazidas aos autos notícias de fatos novos e graves pelo presentante do Parquet, mormente o atentado com artefato explosivo ocorrido na residência da testemunha”, afirma o documento.

Na ocasião, a testemunha afirmou acreditar que “a bomba foi jogada em seu quintal para intimidar a depoente” e também para “passar um recado para Lucas, para que ele calasse a boca e não mais relatasse a verdade”.

Filho afetivo de Flordelis, Lucas Cezar dos Santos de Souza está preso desde junho do ano passado, suspeito de ter participação na morte do pastor Anderson.

A juíza oficiou à Secretaria de Estado de Administração Penitenciária (Seap) solicitando urgência na instalação do aparelho de monitoração. Em nota, a Seap confirmou o recebimento da notificação da decisão judicial na sexta-feira.

Testemunha se sente insegura

Testemunha do processo, a empresária Regiane Rabello, cuja casa foi alvo de uma bomba na madrugada de 4 de setembro, é dona da oficina onde trabalhava Lucas dos Santos de Souza, filho de Flordelis que está preso acusado de comprar a arma usada para matar o marido da deputada. Segundo a empresária, quando ainda trabalhava para ela - antes do crime, portanto - Souza recebeu uma mensagem pelo Whatsapp com o plano para matar Anderson do Carmo.

Ele teria mostrado o plano à patroa. Por apresentar esse relato à polícia, Regiane teria sido jurada de morte por Adriano dos Santos Rodrigues, outro filho de Flordelis, também preso pelo crime. Em depoimento ao MP-RJ, Regiane afirmou supor que a explosão da bomba foi uma tentativa de intimidá-la e disse temer tanto Rodrigues como a própria Flordelis, que segue solta.

    
   

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Mas, afinal, o que é Inclusão Social?

Postado por Paulo Cezar Soares | Sexta-feira, 18 de Setembro de 2020

Publicado no site Contém Amor ( contem amor.com.br)

Leonardo Borges

A Inclusão Social é o ato de dar a todas as pessoas, independentemente de suas diferenças, os mesmos direitos e oportunidades. Integrar à sociedade grupos sociais historicamente à margem do processo de socialização, não tendo o devido acesso a direitos sociais mais básicos como educação, emprego digno, moradia, saúde e alimentação adequada.

Assim, a inclusão social é uma tentativa de corrigir a exclusão de alguns grupos como negros, indígenas, pessoas com deficiência, homossexuais, travestis e transgêneros, bem como aqueles em situação de vulnerabilidade socioeconômica, como pessoas em situação de rua e pessoas de baixa renda.

Ao falarmos sobre inclusão social, estamos também falando da Declaração Universal de Direitos Humanos que passou a estabelecer pela primeira vez, em 1948, a proteção universal dos direitos humanos, e conceitos como liberdade e a igualdade entre as pessoas passou a ganhar espaço no debate.Também estamos falando da nossa Constituição Federal de 1988, que assimilou a importância pela busca do direito à igualdade e, consequentemente, da inclusão social dos grupos sociais mais à margem, ao ordenar que nenhum cidadão pode ser submetido a qualquer forma de discriminação.

A inclusão social, nesse contexto, transformou-se em um objetivo e uma forma de luta. Assim, há atualmente inúmeros movimentos sociais – raciais, feministas, de grupos homossexuais, de religiões de matriz africana e outras, de portadores de necessidades especiais – que reivindicam do poder público e da sociedade de modo geral, políticas públicas efetivas que visam combater as diferenças históricas e sociais.

Nesse sentido, as políticas públicas amplas devem ser voltadas ao exercício da Inclusão Social, devendo superar as diversas formas de desigualdades sociais, culturais, educacionais e econômicas e, viabilizar a democratização de diversos espaços e serviços para aqueles que não possuem acesso a eles.

Abaixo, alguns exemplos de políticas públicas para inclusão social:

  • Cotas em universidades públicas e concursos públicos para negros e indígenas oriundos de escolas públicas e para estudantes de escolas públicas em geral;
  • Inclusão de pessoas com deficiência física ou de atrasos cognitivos em escolas regulares;
  • Programas de assistência social a pessoas de baixa renda e pessoas em situação de vulnerabilidade social, como pessoas em situação de rua;
  • Programas de profissionalização de jovens oriundos de famílias carentes;
  • Programas de assistência psicossocial e profissionalização de homossexuais, transexuais e travestis;
  • Acessibilidade para pessoas com deficiência, como cegos, surdos e cadeirantes, em espaços públicos ou espaços coletivos geridos pela iniciativa privada, além da acessibilidade em calçadas e passarelas do passeio público.

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Protejam o Padre Júlio Lancellotti

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 16 de Setembro de 2020

Fonte: site GGN

Desta vez, um candidato na cidade de São Paulo colocou a vida do padre em risco incitando seus seguidores contra ele. 

Novamente o mesmo problema sério: o Padre Júlio Lancellotti sofre ameaças. Desta vez, um candidato na cidade de São Paulo colocou a vida do padre em risco incitando seus seguidores contra ele.

Diante deste novo quadro de ameaças à vida do padre, foi criado um abaixo assinado para que o poder público tome providências para a apuração das ameaças contra ele bem como para proteção de sua vida. O apoio é feito através do site Change.

Padre Júlio Lancellotti tem um trabalho admirável junto aos despossuídos. Está na luta há décadas para proteção e recuperação de pessoas que perderam o rumo e a crença na vida. Por isso mesmo é vítima de propagadores de ódio, que veem no seu trabalho abnegado um alvo fácil para suas investidas contra a cidadania.

Leia o manifesto a seguir.

Nós, abaixo assinados, cidadãs e cidadãos brasileiras e de outras nacionalidades, engajados em movimentos sociais e populares, defensores do respeito à dignidade humana e, acima de tudo, do respeito à vida, ao mesmo tempo em que nos solidarizamos com o Padre Júlio Lancellotti pelas ameaças que vem sofrendo, exigimos das autoridades competentes as garantias necessárias à integridade física dele, daqueles que o auxiliam e dos que por ele são assistidos.

Exigimos ainda a completa apuração e consequente identificação não apenas dos autores das ameaças e insinuações maldosas que lhes são dirigidas, como também dos possíveis mandantes de tais fatos e dos reais motivos que se escondem atrás de tais ameaças.

Lembramos que uma sociedade democrática precisa respeitar acima de tudo as diferenças entre seus membros, não sendo possível admitir gestos que se caracterizam como de verdadeiros jagunços ou mesmo de milicianos, normalmente alimentados por posições fascistas e intolerantes.

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