INTERVENÇÃO NO RIO DE JANEIRO COLECIONA FRACASSOS, APONTA RELATÓRIO

Postado por Paulo Cezar Soares | Quinta-feira, 16 de Agosto de 2018

 

 

Texto publicado no site da revista Carata Capital

 

por Giovanna Costanti

Após seis meses, Observatório da Intervenção mostra resultado da atual estratégia: somente na Baixada fluminense as mortes por ação policial cresceram 48%

 

Fernando Frazão/Agência Brasil

ffraz_abr_050620180060_1.jpg

Mãe de Marcos Vinícius segura o uniforme que o filho usava quando foi morto durante operação na Maré

 

Em seis meses de intervenção federal, o Rio de Janeiro contabilizou 2617 homicídios dolosos, 742 mortos, 31 chacinas e 4850 tiroteios. Até agora, 736 moradores e 51 agentes de segurança perderam suas vidas. Os dados foram revelados na manhã desta quinta-feira 16 pelo Observatório da Intervenção, no documento Vozes sobre a intervenção. De acordo com as informações coletadas em depoimentos e monitoramentos, a ação do governo federal coleciona fracassos. 

“Se o cotidiano já era violento, talvez tenha até piorado”, descreve Tarcísio Lima, morador de Manguinhos, bairro da Zona Norte do Rio de Janeiro. O depoimento, que faz parte do documento, poderia ser de qualquer morador da Baixada Fluminense, de São Gonçalo ou da Rocinha, áreas que concentram os índices de violência mais crescentes desde fevereiro no Rio de Janeiro.

Essas regiões são as principais localidades de onde dispara o aviso “atenção na região” no aplicativo Onde Tem Tiroteio, que alerta moradores do Rio de Janeiro sobre o perigo nas ruas. De 16 de fevereiro até o início deste mês, os cariocas receberam o alerta 3111 vezes em seus celulares.
Só na Baixada, o número de mortes por ação policial aumentou 48% e o número de mortos em autos de resistência atingiu seu maior número, 233 pessoas.

Segundo o Observatório, as regiões mais conhecidas pela violência e pelo tráfico, são as que mais tem sentido na pele as incursões militares. Fato que atesta o verdadeiro caráter do Rio como uma “vitrine da intervenção”.

Com postura ostensiva, a intervenção vem apostando na velha “guerra às drogas” e nas operações “faraônicas”, métodos que, segundo especialistas em segurança pública e moradores das favelas, são falhos, ineficientes e só agravam o quadro de violências diárias e mostram que o Gabinete não enxerga o morador de favelas como um sujeito com direito à segurança pública.

Segundo o Observatório, o quadro é desalentador: homicídios e chacinas continuam extremamente altos, mortes decorrentes de intervenção policial e tiroteios também cresceram. As disputas entre facções e quadrilhas, incluindo milicianos, fugiram ao controle em diversas áreas.

As páginas do documento relembram a morte de Marcos Vinícius, os tiros disparados de helicópteros na Maré, a  não elucidação do crime contra Marielle Franco e a falta de investigação nas chacinas da Rocinha e da Cidade de Deus. São exemplos pontuais - e graves - de uma situação cotidiana que mostra que a intervenção não enxerga o morador de favelas como um sujeito com direito à segurança pública.

“Na concepção militarista de segurança, a favela é considerada área hostil, onde todos são inimigos”, afirma Filipe dos Anjos, conselheiro do Observatório e secretário-geral da Federação de Favelas do Estado do Rio de Janeiro. “A política de extermínio sob a filosofia da guerra é a única opção que o Estado apresenta para os jovens negros e negras, pobres e favelados. Uma ação genocida, racista e fascista”.

O documento também conta com depoimentos de praças das Forças Armadas que preferiram não ter seus nomes identificados. Neles, fica estampado que a intervenção não é vista com bons olhos nem mesmo dentro do Exército.

“Alguns militares também não concordam com a intervenção. Sentem-se ameaçados: nós viramos alvo. É muito desgastante emocionalmente”, afirma um deles. Outro, continua: “A intervenção é ineficaz e mentirosa. Tudo não passa de uma grande perda de tempo, algo para inglês ver. Não se sabe quem ganha, e o quê, insistindo com a intervenção”. O entendimento, nesses relatos, é de que até mesmo dentro do Exército, a ação é vista como uma medida política e não de segurança pública. 

Mais do mesmo

O despreparo em relação às ações de inteligência e ao planejamento estratégico preocupa o Observatório. Segundo o documento, o Plano Estratégico da Intervenção Federal foi oficialmente divulgado no mês de julho, cinco meses após o decreto que a autorizou. Até esse mês, apenas 11 das 66 metas do Plano Estratégico da Intervenção foram cumpridas.

“As ações já cumpridas focam no patrulhamento ostensivo e no reaparelhamento das polícias, ao passo que medidas voltadas à inteligência e à redução dos crimes contra à vida andam a passo mais lento”, afirma o Observatório.

Samira Bueno, cientista social do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, afirma que, mais uma vez, o governo optou por repetir uma fórmula já saturada. Essa atitude se personifica no aumento das incursões militares para prisões e apreensões, mais violência policial, mais mortes de policiais e também mortes causadas por policiais e o prosseguimento da guerra às drogas.

“Ao invés de priorizar o investimento em inteligência e estratégias capazes de enfraquecer a ação do crime organizado e a corrupção estatal, opta-se, novamente, por mais do mesmo”, comenta Samira.

Pablo ressalta a falta de investigações e de operações que procurem entender a dinâmica do tráfico. Ao contrário, as ações militares focaram-se, durante esses seis meses, operações desarticuladas, com milhares de homens, que visavam a apreensão e a prisão de pessoas que são apenas a ponta mais fraca de um complexo esquema do tráfico e das facções.

O mesmo foi observado em relação às milícias. “Por conta da hipótese da morte da Marielle ter sido fruto das ações de milícias, houve uma tentativa de mostrar que algo estava sendo feito. Prenderam mais de cem milicianos em uma festa. Mas não é fazendo essas prisões que você consegue desarticular completamente esses grupos”, comenta Pablo Nunes, pesquisador do Observatório da Intervenção.

Orçamento

No documento, Julita Lemgruber, coordenadora do Centro de Estudos de Segurança e Cidadania, pontua que as operações envolvem milhares de policiais e soldados, têm um custo altíssimo e gera resultados pífios. “Quando for conhecido quanto custou a apreensão de cada arma ao longo dessas operações, os moradores do Rio de janeiro ficarão estupefatos e frustrados”, avisa. 

A falta de transparência não se refere apenas às estatísticas. O orçamento também é uma dúvida que permanece sem respostas. Em março deste ano, o Governo Federal disponibilizou R$1,2 bilhões para a intervenção. Numa manobra que o Observatório chamou de “obscura e irresponsável”, levando em conta a arbitrariedade com que foi feita e a grave crise fiscal e os cortes em programas sociais.

“Há uma caixa preta sobre o financiamento. Eles dizem que todo esse dinheiro vai ser usado de acordo com o Plano Orçamentário, mas eles não divulgam esse Plano”, afirma Pablo.

Até o final de julho, segundo o Observatório, apenas R$103 mil, dessa verba, haviam sido pagos. Além disso, o que mais preocupa os especialistas entrevistados pelo Observatório, é que não há nenhum detalhamento de como esses recursos serão gastos. “Observamos que processos de compras de fuzis, munições, fardas e veículos - o velho e ineficiente modo de investir em segurança pública - estão sendo iniciados, muitos sem licitação”, afirma o documento.

Falta de transparência

O Observatório usou de muitos meios alternativos para compilar todos os dados, isso porque falta transparência na divulgação dos números oficiais do governo. “Uma política de segurança pública deve ser pública em todos os seus aspectos, inclusive em informação”, afirma Pablo Nunes.

“O Gabinete nega informações e não retorna solicitações. É o oposto do que deveria ser uma política pública. Um regime democrático pressupõe controle da sociedade civil”.

Ainda segundo o documento divulgado, apesar dos pedidos, o Gabinete não deu respostas sobre as mais de 600 mortes decorrentes de ação policial ocorridas desde fevereiro. 

   

 

 
   

 

 

 

 

 

     
     
 

JOGARAM A TOALHA

Postado por Paulo Cezar Soares | Sábado, 11 de Agosto de 2018

 

Dois casais amigos, e um colega de muitos anos que ainda não casou, alega que não quer ter sogra, figura que abomina, abandonaram o Brasil. Moradores no Rio de Janeiro - os dois casais moravam em Caxias, Baixada Fluminense, e meu colega em Copacabana, Zona Sul da cidade.  Um casal foi para o Chile; o outro, para o Uruguai, e o solteirão para a Coreia do Norte. Sua escolha, à primeira vista, pode parecer estranho para muitos. Mas ele conhece o país e garante que as notícias que a imprensa divulga a respeito da Coreia são fake news. O motivo pelo qual todos decidiram deixar o Brasil foi a violência urbana. São pessoas simples, anônimas. Como diz canção, nossa dor não sai no jornal. Não aguentaram mais. Jogaram a toalha.

Muitas pessoas famosas já fizeram o mesmo. A lista não para de aumentar. Quando um dia fizerem uma pesquisa séria sobre o fato em tela, muitos irão se surpreender

Confesso: não fiz o mesmo porque ainda não tive condições. Mas estou batalhando e orando por isso.

A rotina da violência carioca

Postado por Paulo Cezar Soares | Sábado, 4 de Agosto de 2018

 

 Realidaee carioca: roubos que maculam ainda mais a imagem da cidade, um deles com conotação internacional. Tiroteio em plena luz do dia, numa via pública, entre facções de bandidos rivais, que acabou ocasionando a morte de um cidadão que estava trabalhando.

O Rio de Janeiro foi tema das manchetes internacionais. Mas, infelizmente, não foi positivo para a cidade, pois o fato foi negativo.

Na última quarta-feira, durante o Congresso Internacional de Matemática, realizado no Riocentro, localizado na Barra da Tijuca, Zona Oeste do Rio, o irariano Caucher Birkar, vencedor da medalha Fields - considerada o “Prêmio Nobel” da Matemática - teve o prêmio furtado, que estava dentro de uma pasta, juntamente com a sua carteira e o celular.

No mesmo dia, um outro roubo: este, numa instituição importante, o Instituto do Patromônio Histórico e Artístico Nacional ( Iphan), localizado na Avenida Rio Branco, centro da cidade. Ladrões roubaram as maçanetas de bronze da porta principal da superitendência do órgão.

Na última quinta-feira, um tiroteio entre traficantes na Avenida Brasil, ocasinou a morte de Luis Carlos Vidal Júnior, motorista do Uber que estava retornando para Bangu, levando os irmãos Mário Gomes, 65 anos, e João Gomes, 64. Mário levou o irmão a uma sessão de fisioterapia  na Abbr, no Jardim Botânico, Zona Sul da cidade e, ao retornar, o carro de Luis Carlos - um Fox preto com os vidros escuros - foi confundido por uma das facções dos traficantes como um veículo inimigo. Vários tiros foram dados. E um deles atingiu a cabeça de Luiz Carlos, que morreu no local. Mário foi atingido na perna. Foi levado para o Hospital Getúlio Vargas, juntamente com o irmão, que ficou em estado de choque e teve que ser medicado.

Os fatos em tela deixam à mostra, mais uma vez, que a crise carioca na área da segurança pública não melhora. Um Estado praticamente entregue à própria sorte. Triste! Muito triste!

O crime amplia seus tentáculos

Postado por Paulo Cezar Soares | Sábado, 28 de Julho de 2018

 

“De tanto ver agigantarrem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto.  (Ruy Barbosa)

Indignação: esse é o sentimento que certamente muitos cariocas sentiram a respeito da prisão do prefeito de Japeri - município da Baixada Fluminense - Carlos Moraes, do Partido Progressista (PP), e do vereador Claudio José da Silva, o Cacau, também do PP. Numa operação da Polícia Civil e Ministério Público com o objetivo de combater o crime organizado na Baixada. todos foram denunciados por ligação com o tráfico de drogas local.O prefeito vai responder por porte ilegal de arma de fogo - na sua casa foi encontrada uma pistola com a numeração raspada, além de dinheiro e munição- e por associação ao tráfico de drogas.

De perfil agressivo e intimidatório, Carlos Moraes xingou e ameaçou os repórteres Diego Haidar (TV Globo) e Adriana Oliveira (Record TV). Os jornalistas cobriam a chegada do político, detido por associação ao tráfico, à Cidade da Polícia, quando ele os xingou e ameaçou: “A gente resolve na Baixada”, disse. Ele teve os direitos políticos suspensos por determinação da desembargadora Márcia Perrini, da 7ª Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio.

Em nota, a Associação Brasileira de Jornalismo Investigativo -Abraji - repudiou a ameaça de Carlos Moraes aos repórteres Diego Haidar e Adriana Oliveira. “Ao intimidar jornalistas no exercício de sua função com o objetivo de coibir a divulgação de fatos, Moraes realizou um ataque direto à liberdade de expressão e ao direito à informação. A associação solicita às autoridades responsáveis que dediquem atenção à segurança dos profissionais, para prevenir qualquer tipo de violência ou nova intimidação”.   

A  polícia também tinha um mandado de prisão contra o presidente da Câmara de Japeri, Wesley George de Oliveira (PP), o Miga, que não foi encontrado. É considerado foragido da Justiça.

Policiais do 24º BPM (Queimados) também serão investigados. Durante as investigações foi interceptada uma convrsa de Miga com o Breno. O traficante “diz que está sendo difícil, e pede ao presidente da Cãmara para falar com o seu irmão, que é policial do batalhão, porqie senão o oxigênio (leia-se propina) vai acabar”.

A operação prendeu sete pessoas e apreendeu armas, munições e dólares. Há 57 mandados de busca e apreensão e 38 de prisão. O elo entre a Prefeitura de Japeri, a Câmara Municipal e os traficantes era Jenifer Aparecida Kaiser de Matos, que também foi presa.

 

 

 

 

 

 

   

 

Burocracia e corrupção

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 23 de Julho de 2018

A corrupção é um tema que tem dominado as páginas dos nossos jornais. Num papo informal, ou numa conversa fugaz com um desconhecido qualquer durante um cafezinho, o tema é sempre um assunto recorrente.

Nenhuma instituição está imune à corrupção. Pelo histórico de casos de corrupção, penso que não seria exagero dizer, embora não haja uma pesquisa específica,, a Polícia - civil, militar e federal - e o Detran são os destaques. E o Judiciário tem um baixo conceito perante a população. Fiquemos apenas nesses exemplos. Mas a lista é grande.

E os políticos? perguntará o leitor mais perspicaz. A política e os políticos estão no insconsciente coletivo como não confiáveis sob nenhum pretexto. Deve-se aos políticos o nível de problemas, de degradação que o Rio de Janeiro vive hoje, como de resto, o país.

Mas, a despeito do tema em tela, o maior problema do Brasil não é a corrupção, e sim,  a burocracia. Quanto mais burocracia, mais corrupção. A burocracia cria a corrupção e incentiva sua propagação.

O que tem sido feito para combater a burocracia? Nada! Infelizmente é até estimulada pelos  tecnocratas de plantão, tanto nas empresas públicas, como nas privadas. O fato deixa à mostra, entre outras coisas, o nosso atraso cultural.

Recomendo ao leitor a leitura de um artigo - excelente, diga-se de passagem - intitulado O Telefone, do  saudoso Rubem Braga ( 1913-1990) considerado um dos melhores cronistas que o Brasil já teve.

Em tempo: As privatizações realizadas na área das telecomunicações durante o governo de Fernando Henrique Cardoso, com  empresas vendidas na Bacia das Almas, não melhorou o  setor, uma prova que a privatização não é uma panceia para todos os males. 

Anomia social

Postado por Paulo Cezar Soares | Sexta-feira, 20 de Julho de 2018

 

Tem sido angustiante o nível de abandono e degradação do Rio de Janeiro. Além da violência urbana - mazela carioca de décadas - o Estado enfrenta uma grave crise econômica, fruto da corrupção. Multiplicam-se as quadrilhas de todos os matizes. Os bandidos estão melhorando sua infraestrutura. Muitos utilizam fuzis - alguns até com luneta.  

A intervemção militar, que teve início em fevereiro último, é a prova cabal da incompetência do governo estadual diante do caos da violência. Medida dispendiosa e ineficaz. Os militares jogam para a arquibancada, pois não posssuem projetos e estratégias para um combate eficaz diante da bandidagem.

Diante da violência urbana que piora a cada dia - entre outros graves problemas - aqueles que podem estão deixando a cidade, indo morar em outro país. Desistiram de esperar por dias melhores. O fato tem sido cada dia mais comum.

Peço licença a você, leitor, para uma reminiscência: há alguns anos recebi um convite para deixar o Rio e ir para a França. À época, entre outras coisas, não quis interromper a faculdade de teologia e o trabalho. Por isso, não aceitei o convite. E, como diz o dito popular, se arrependimento matasse………

A partir de então, o Rio vem acumulando problemas, numa escala impressionante, não só na questão da violência urbana, mas em todas as áreas. Uma anomia social. Caso o quadro não mude, e tudo indica que não irá mudar tão cedo, o Rio ficará ingovernável. Um quadro de anomia social. Não só no Rio, mas em todo o Brasil, diga-se de passagem.