Novo capítulo do julgamento da Chacina de Osasco

Postado por Paulo Cezar Soares | Sábado, 20 de Fevereiro de 2021

 

A matéria abaixo foi publicada originalmente no site Ponte Jornalismo e reproduzida pelo site Outras Palavras

Seis anos após o massacre de 23 jovens na periferia de SP, dois ex-policiais vão a júri popular. Em 2019, Justiça havia anulado condenações. Familiares das vítimas cobram indenização do Estado e organizam ato e vigília contra impunidade

Por Beatriz Drague Ramos, na Ponte Jornalismo

Passados seis anos desde a chacina de Osasco, a maior já registrada nas ruas na história do estado de São Paulo, o ex-PM Victor Cristilder Silva Santos e o Guarda Civil Municipal (GCM) de Barueri Sérgio Manhanhã serão julgados em júri popular na próxima segunda-feira (22/2).

No dia do julgamento também será realizada uma vigília organizada pelas famílias das vítimas e organizações sociais, em frente ao Fórum de Osasco, a partir das 9h30. Dois dias antes, no sábado (20/2), os parentes devem se reunir em frente à Estação Osasco da CPTM, a partir das 14h. 

A audiência que deveria ter ocorrido em novembro de 2020 foi adiada após um pedido do advogado dos réus, João Carlos Campanini, que alegou estar com suspeita de coronavírus.

O crime deixou 23 mortos nas cidades de Osasco, Carapicuíba e Barueri, na Grande São Paulo, em agosto de 2015, sendo seis vítimas no dia 8 e 17 pessoas assassinadas na noite de 13 de agosto. Foi a maior chacina já registrada nas ruas do estado, mas não superando o Massacre do Carandiru, que deixou ao menos 111 mortos em 1992.

Oito das vítimas fatais estavam em um bar no bairro Munhoz Junior, em Osasco, quando os agentes de segurança pública chegaram ao local e dispararam contra os presentes. Outras 15 pessoas foram executadas em locais diferentes na mesma região.

Zilda Maria de Paula, mãe que perdeu o único filho, Fernando Luís de Paula, relata que a expectativa com o julgamento é alta. “A esperança é grande, não sabemos se vamos ganhar ou perder, com a Justiça que temos. Está na mão dos jurados, são eles quem decidem tudo”. Segundo ela, um pedido de indenização será feito neste ano, agora que grande parte dos agentes já foram condenados. “Vamos cobrar a indenização só agora, porque queríamos ter a certeza que foi o Estado que matou. Achamos melhor ter o julgamento e as provas”.  

A mãe de Fernando também alega que diversos parentes dos assassinados estão passando necessidades após a chacina, o que se agravou com a pandemia da Covid-19. “As outras mães estão passando muita necessidade com o coronavírus, as que ficaram com os netos principalmente. Nós apenas sobrevivemos, vivemos com essa recordação, não sai da nossa cabeça. Cada um ajuda no que pode, algumas ONGs nos ajudam com doações de cesta básica, produtos de higiene e limpeza. Por isso também vamos protestar na semana que vem”.

Segundo as investigações, os assassinatos foram praticados para vingar a morte do PM Admilson Pereira de Oliveira, em 8 de agosto de 2015, e do GCM de Barueri Jeferson Luiz Rodrigues da Silva, no dia 13 do mesmo mês. Em entrevista à Ponte em julho de 2019 o procurador Maurício Ribeiro Lopes, que representava o Ministério Público, explicou que mensagens de WhatsApp foram fundamentais para ligar os acusados.

Durante o julgamento de julho daquele ano, a acusação afirmou que o início e o fim dos ataques foram autorizados por meio de conversa entre o ex-PM e o GCM no aplicativo de mensagens. Na época, os desembargadores foram unânimes em validar a prova.

As apurações apontaram para três policiais militares como responsáveis pela chacina, Victor Cristilder, Fabrício Eleutério e Thiago Henklain, além do guarda civil Sérgio Manhanhã. Em um primeiro júri realizado em 22 de setembro de 2017, foram condenados os policiais militares Fabrício Eleutério e Thiago Henklain e o GCM Sérgio Manhanhã.

Em 2 de março de 2018 um outro julgamento aconteceu, nele Victor Cristilder Silva dos Santos foi condenado pelas execuções, com pena de 119 anos, 4 meses e 4 dias de prisão.

Com isso, os quatro agentes foram condenados e presos por crimes de constituição de milícia privada e homicídios consumados e tentados.

Já em agosto de 2019, o Tribunal de Justiça anulou as sentenças de 119 anos, 4 meses e 4 dias de Cristilder e a de 100 anos e 10 meses de Manhanhã, alegando que as provas usadas pela acusação são insuficientes para confirmar a sua participação na chacina. Apesar disso, os dois seguem presos em regime fechado. Também naquele ano, Cristilder, Eleutério e Henklain foram expulsos do quadro da Polícia Militar do Estado de São Paulo.

Acácio Augusto, professor no Departamento de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo e coordenador do Laboratório de Análise em Segurança Internacional e Tecnologias de Monitoramento (LASEnTec-Unifesp), lembra que o lote de munição usado na chacina na Grande SP em 2015 é o mesmo que matou a vereadora Marielle Franco, em 2018. “Isso revela um circuito desse armamento do Estado, que escoa para organizações milicianas. Os agentes foram identificados e são agentes do Estado, PMs e GCMs”.

Para ele isso mostra como há uma regularidade nesse tipo de execução. “Tanto em relação a quem pratica, como em relação a quem recebe. Os meninos executados a esmo são na maioria das vezes os jovens, negros e do sexo masculino”.

Na visão do professor da Unifesp, o movimento de Mães de Osasco, formado após a chacina, é uma resposta que vai além da simples reivindicação de justiça. “É a forma pela qual essas mães sobrevivem a essa tragédia, como elas reinventam a sua existência e fazem do que poderia ser um sofrimento privado uma questão pública. O problema não diz respeito somente a uma mãe que perdeu um filho, mas diz sobre uma sociedade que tolera esse tipo de coisa, esse movimento antinatural, de uma mãe enterrar seu filho”.

Agora a defesa dos ex-policiais busca a anulação das sentenças. De acordo com o advogado de Cristilder e Sérgio, João Carlos Campanini, os acusados são inocentes. “Eles não conheciam e nem tinham contato com os demais policiais. As provas testemunhais, periciais e documentais que contém fotos e vídeos comprovam que a versão da acusação é pura fantasia. A anulação em 2019 se deu após a demonstração da verdade baseada em todas as provas do processo, que só apontam para a inocência de ambos”, contesta.

O advogado ainda sustenta que Cristilder já foi absolvido no processo da chacina ocorrida em 8 de agosto. “Na grande chacina, a acusação afirma que Cristilder foi inserido na prova do crime por correlação balística entre a morte de uma vítima na pré-chacina e as mortes da grande chacina, pois a mesma arma teria sido usada nos dois crimes. Ocorre que em novembro do ano passado, Cristilder foi absolvido no júri popular por negativa de autoria, inclusive a pedido do próprio Ministério Público. Com essa absolvição, o efeito cascata aparece. Se ele não matou na pré-chacina, pela mesma balística, é impossível ter matado na grande chacina”, alega.

Procurado pela Ponte, o Ministério Público do Estado de São Paulo (MP-SP) não respondeu aos questionamentos enviados até a publicação desta reportagem.

Foram mortos em Osasco Rodrigo Lima da Silva, Joseval Amaral Silva, Deivison Lopes Ferreira, Eduardo Bernardino Cesar, Antônio Neves Neto, Letícia Hildebrand da Silva, Adalberto Brito da Costa, Thiago Marcos Damas, Presley Santos Gonçalves, Igor Oliveira, Manuel dos Santos, Fernando Luiz de Paula, Eduardo Oliveira Santos, Wilker Thiago Corrêa Osório, Leandro Pereira Assunção, Rafael Nunes de Oliveira, Jailton Vieira da Silva, Tiago Teixeira de Souza e Jonas dos Santos Soares. Wilker Thiago Correa Osório, Jailton Vieira da Silva, e Joseval Amaral da Silva foram mortos em Barueri, e Michael do Amaral Ribeiro foi assassinado em Carapicuíba.

Guardar silêncio

Postado por Paulo Cezar Soares | Sexta-feira, 12 de Fevereiro de 2021

Peço licença ao leitor para tratar de um assunto que, a rigor, não tem nada a ver com a linha edotorial deste blog, mas é de suma importância. Refiro-me ao silêncio.

Para que tanta pressa? Por que tudo tem quer ser rápido?  Por que as pessoas reclamam que não possuem tempo para nada? Desculpa para não fazer algum favor para o outro?Por que a música tem que ser ouvida num volume alto? Por que num bar, numa festa, ou coisa que o valha, as pessoas não param de falar? E falam alto. Por que cultivar o silêncio é um exercício de muitos poucos. Mas ele tem o seu valor. Sempre teve. Prncipalmente agora com a pandemia do coronavívirus, que mudou a rotina da maioria e desencadeou diversos problemas psicológicos?

Dito isso, decidi reproduzir aqui mais um artigo do Frei Beto.

Leia com atenção, concentrado  - e em silêncio. 

Boa leitura!

Artigo publicado no site Amaivos

Por Frei Beto*

Uma riqueza inestimável que estamos perdendo é a do silêncio. Nossa sociedade é ruidosa nos mínimos detalhes. Malgrado o avanço da tecnologia, ainda não se inventaram liquidificadores e britadeiras silenciosos. Há muitas “falas” ao nosso redor. A publicidade de rua esgarça o nosso espírito. Daí ser um deleite para a alma caminhar por uma cidade desprovida de outdoors, como Praga. Como os olhos ficam descansados quando podem apreciar a natureza e a estética dos monumentos arquitetônicos! Como dá prazer fitar o mar que, como dizia Hélio Pellegrino, é o pão do espírito!

Há quem tema o silêncio e, ao entrar em casa, trata de ligar todos os aparelhos: telefone, TV, rádio etc. São pessoas incapazes de escutar o silêncio interior. Sentem dificuldade em “amar o próximo como a si mesmo”. Quem não se gosta tem resistência a gostar dos outros. E desconta neles o mal-estar íntimo. É no silêncio que posso descobrir um Outro que não sou eu e, no entanto, como salientou Tomás de Aquino, funda a minha verdadeira identidade.

A noivos que se preparam para o casamento sempre pergunto: “Vocês são capazes de ficar juntos, em silêncio, sem saudades de uma tesoura de jardineiro?”. Se o silêncio entre o casal pesa, suscita desconfianças e indagações tipo “o que você está pensando?” ou “por que está tão calado?”, é sinal de que a relação não vai bem. Meus pais, aos 60 anos de casados, passavam horas, lado a lado, em silêncio. Ela bordando, ele lendo, na suavidade de quem aprendeu que a profundidade do sentimento dispensa palavras. Como a oração que agrada a Deus.

No litoral capixaba, saí de madrugada num barco com três pescadores. O que mais me impressionou foi o silêncio entre eles, como se temessem precipitar o despertar do dia. Mesmo na penumbra, um adivinhava a vontade e o gesto do outro.

Conheço o silêncio dos monges, embora os conventos atuais, encravados nas cidades, sejam em geral ruidosos. Nas exceções à regra, os religiosos comem em silêncio, caminham pelo claustro sem que ninguém os interrompa, ficam horas na capela deixando-se inebriar pelo Mistério. Hoje, muitos praticam meditação em busca de silêncio. Querem mergulhar no próprio poço e beber da fonte de água viva.

As novas gerações já não aprendem a fechar os olhos para ver melhor. Sabem pouco das grandes tradições espirituais; curvam-se sem reverência; ajoelham-se sem orar; meditam sem contemplar; ignoram que a solidão é um exercício de solidariedade. Não escutam o Mistério, nem auscultam o Invisível. São cada vez mais raros os jovens que fazem a experiência de deixar Deus falar neles, assim como o amado desfruta da presença invisível e, no entanto, envolvente, da amada.

O silêncio é a matéria-prima do amor, ensinava José Carlos de Oliveira, um dos melhores cronistas da história deste país. Mas quem haverá de se lembrar dele se nem somos capazes de cultivar a vida interior?

 

Frei Betto* - Frade dominicano, jornalista graduado e escritor brasileiro. É adepto da Teologia da Libertação, militante de movimentos pastorais e sociais. Foi coordenador de Mobilização Social do programa Fome Zero.

 

 

As crianças e as balas perdidas

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 10 de Fevereiro de 2021

Todo e qualquer carioca minimamente informado conhece a cena: os Pms entram numa favela para averiguar ou tenta resolverr uma situação qualquer, e de repente começam a atirar sem necssidade, e atingem inocentes, muitas vezes, crianças.

Foi o que ocoreu - mais uma vez -  no início deste mês, na localidade de Monan Pequeno, no Largo da Batalha, município de Niterói, Região Metropolitana do Rio. A menina Ana Clara, 5 anos, foi atingida por uma bala perdida e morreu.

A estatística de crianças mortas por balas perdidas não para de crescer .Os casos ficam impunes - a maioria. O que só piora a situação, evidentemente.

Nem com a pandemia do coronavírus o quadro da violência urbana no Rio melhora. Ressalte-se que incursões policiais nas favelas foram proibidas pela Justiça durante o período da pandemia. Exceção para casos especiais e com autorização. Mas, ao que tudo indica, a ordem não está sendo cumprida.

Por que a PM continua cometendo os mesmos erros de sempre? É o desrespeito pela vida humana, pelas leis, falta de treinamento, ou tudo isso junto?

 

Os desinformados da era da informação

Postado por Paulo Cezar Soares | Quarta-feira, 27 de Janeiro de 2021

 

Artigo publicado no site da Carta Maior

Por Thiago Antônio de Oliveira Sá *

 

Quando alerto minha mãe de que uma notícia que ela me enviou é falsa, montagem grosseira, conspiracionismo sem pé nem cabeça, ou de que a “piada” nada ingênua tem o objetivo de desqualificar grupos minoritários, ela sai imediatamente em defesa da fake news, ficando contra mim. Ela justifica a plausibilidade do conteúdo que compartilha: “imagina, foi fulano [de confiança] que me enviou” ou “se tá publicado, só pode ser verdade”.

Com a era da informação, vieram expectativas de um mundo onde o conhecimento seria prontamente acessível, fronteiras geográficas perderiam importância, limitações físicas não seriam obstáculo para o fluxo informacional e a co-presença seria dispensável para várias relações sociais. São avanços inegáveis.

Porém, são muitas as promessas não cumpridas e os estragos trazidos pela sociedade da informação: uberização do trabalho, por meio de “contratação informal” de desempregados por plataformas digitais, a troco de remunerações miseráveis; produções culturais seguem velhas fórmulas da industria cultural, agora abastecida por reações imediatas e coletáveis da audiência; concorrência desleal entre as lojas físicas e virtuais; polarização política; erosão democrática; articulação de bolhas de intolerância e difusão de discursos de ódio. Dispositivos nos vigiam e nos coletam microdados, mapeando gostos para publicidade dirigida. Experimentos psicológicos não autorizados, em escala planetária. Manipulação da opinião pública. Discursos radicais nos chegam conforme nosso perfil, de modo a nos inflamar e a nos engajar pró-tecnopopulistas radicais “contra tudo isso que tá aí”.

Não obstante a produção de sandices e inverdades perigosas, é facílimo veiculá-las e fazê-las chegar aos perfis certos. No fórum do grupo da família do zap, que reúne grandes sábios da pós-verdade, o tio do pavê palestra contra vacinas. O vizinho que bate na esposa odeia os Direitos Humanos. Aquela prima que não terminou a oitava série desmente (com evidências!) o desastre ambiental capitaneado pelo Estado brasileiro. Segundo ela, trata-se de uma farsa da China em associação com a Globo para implantar uma ditadura comunista no Brasil financiada pelo Itaú. O resultado: terraplanismo, antivacinas e outros negacionismos pré-medievais, além da reemergência de discursos fascistas, da articulação de grupos supremacistas e do alinhamento de uma comunidade obscurantista e de extrema-direita global.

A internet é território livre onde quaisquer idiotas, sem mínimas credenciais, espalham seus absurdos àqueles predispostos a aceitá-los, uma vez que eles expressam e reforçam alguma crença que já têm. E quanto mais absurdo, mais viraliza. Algoritmos não têm responsabilidade comunicativa; apenas conectam predileções.

Mais informação não significa mais conhecimento, mais esclarecimento; isto é uma falácia. Sobretudo quando a manipulação das redes não é democrática nem regulamentada, mas controlada por empresas com enorme poder político e financeiro (Facebook, Apple, Twitter, Amazon, Google, etc). O paradoxo moderno seria impensável pelos iluministas: o obscurantismo floresce no rastro do desenvolvimento científico e tecnológico. Tanto acesso só aumentou a ignorância. Os desinformados são produto da era da informação.

 * Thiago Antônio de Oliveira Sá é sociólogo, doutor em Sociologia e professor
 

Crescimento sem qualidade

Postado por Paulo Cezar Soares | segunda-feira, 25 de Janeiro de 2021

 Não raro, os jornais que ainda restam no Rio de Janeiro, estampam nas suas páginas a frase - traficantes evangélicos.

Não eciste isso! Ou o cidadão é traficante ou é evangélico. Não se misturam.

A frase em tela surgiu há alguns anos, a partir de diversos atos de intolerância religiosa, protagonizados por traficantes que invadem  recintos sagrados das religiões de matriz africana.

Vários envolvidos com o tráfico de drogas frequentam igrejas evangélicas, cujos pastores são fundamentalistas, desprovidos dos mais elementares conhecimentos biblícos e, claro, sem estofo cultural.

Não estão preocupados com a conversão de ninguém, muito menos  daqueles que trilham o caminho do crime. Na verdade, de uma forma ou  de outra, tentam usufruir de alguma maneira com a presença de  traficantes que vão à igreja, principalmene na questão dos dízimos e das ofertas.

Isso deixa à mostra a dimensão da crise que envolve o universo evangélico brasileiro, o que ficou explicíto na eleição do presidente Bolsonaro.

Como um cristão pode apoiar um adepto da tortura, das armas, e que durante a campanha, entre outras coisas, abasou das manipulações e mentiras políticas nas redes sociais?

Abrir uma igreja evangélica é mais fácil que abrir um botequim. Neste, pelo menos, o cidadão não será enganado.

Nem sempre o crescimento numérico consegue produzir qualidade. E os evangélicos são uma prova disso.

Não é pandemia, é sindemia

Postado por Paulo Cezar Soares | Terça-feira, 19 de Janeiro de 2021

 

Publicado originalmente no site Amaivos

 Por Frei Betto

É possível erradicar a pandemia de Covid-19 e preservar o capitalismo? A resposta à pergunta foi dada em setembro de 2019, na prestigiosa revista científica The lancet, por Richard Horton, professor da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres e da Universidade de Oslo.

Em artigo intitulado Não é uma pandemia, longe de se posicionar ao lado dos negacionistas, Horton afirma que ocorre mais do que uma pandemia, há uma sindemia, conceito forjado em 1990 pelo epidemiologista Merrill Singer.

Sindemia significa que a doença infecciosa não pode ser encarada isoladamente. Ela se entrelaça com fatores sociais, políticos e econômicos, como desigualdade social, distribuição de riqueza, acesso a bens essenciais, como moradia e saneamento.

O problema, portanto, não é apenas a Covid-19. É o capitalismo sindêmico que, em tudo, prioriza a perversa lógica da acumulação privada da riqueza. Temos visto isso no Brasil, tanto nas propostas que com frequência aparecem na grande mídia, de privatização do SUS disfarçada de parceria público-privada, quanto na corrida empreendida pela iniciativa privada para importar vacinas que estariam ao alcance somente de quem possui recursos para frequentar hospitais e clínicas particulares.

Os ricos podem pagar pela vacina e, assim, furar a fila dos que merecem prioridade, como profissionais da saúde e idosos. Mas investirão também na imunização de seus motoristas, faxineiras, cozinheiras e cuidadores de piscinas?

É sabido que endemias, como a gripe aviária e a SARS (Síndrome respiratória aguda grave), tiveram origem na criação intensiva de animais em cativeiro e destinados ao consumo humano, e nos processamentos da indústria alimentícia.

No livro Grandes granjas, grandes gripes, Rob Wallace, epidemiologista especialista em agroecologia, descreve como são processados os animais consumidos por humanos e como isso facilita o surgimento de novas modalidades de vírus. O capitalismo transformou a natureza em laboratório, onde são aplicados todos os tipos de procedimentos para forçar o aumento da produção e do monopólio sobre os bens naturais, como é o caso dos transgênicos e das sementes “suicidas”, aquelas que o agricultor não consegue reproduzir e se vê obrigado a adquiri-las das gigantes dos venenos agrícolas, como a Monsanto.

Santiago Alba Rico, filósofo espanhol, no artigo Capitalismo pandêmico ressalta que, hoje em dia, há mais mortes causadas por infecções hospitalares que gripes, apesar de todos os protocolos higiênicos adotados. Se ocorre em hospitais, diz ele, imagina nas granjas! O que esperar de animais submetidos a confinamento, iluminação permanente, coquetéis de antibióticos e rações químicas? Wallace afirma: “Ao tornar a natureza capitalista, o capitalismo passa a ser considerado algo natural”.

À debilidade de nossas defesas imunológicas frente às novas ondas virais, acresce-se o apartheid produzido pela desigualdade social. Os “laboratórios naturais” de granjas, currais e frigoríficos geram vírus que infectam sobretudo aqueles que, por razões sociais e etárias, possuem menos defesas naturais: os pobres e idosos. Como diz Rico, “os vírus passam de animais maltratados a humanos maltratados, numa sinergia potencialmente apocalíptica”.

Desde que a OMS declarou o caráter pandêmico da Covi-19, em março de 2020, diferentes países adotaram diferentes maneiras de tentar deter o seu avanço. A China investiu em controle social e tecnológico. A União Europeia adotou medidas sanitárias combinadas com restrições que reduziram a mobilidade e o consumo. EUA e Brasil decidiram priorizar a economia em detrimento de vidas humanas.

Eis um falso dilema: salvar vidas ou a economia? A pergunta embute a odiosa discriminação de classe social, já que só os privilegiados podem se dar ao luxo de ficar confinados em casa e, ao mesmo tempo, trabalhar via online e consumir graças às entregas em domicílio. A questão encobre a sentença de morte aos mais pobres, já que o desconfinamento será inevitavelmente praticado por quem só sobrevive se sair à rua e utilizar transporte coletivo.

A lógica capitalista reforça a sindemia ao aplicar a moderna separação entre Estado e religiões à suposta separação entre economia e política (daí a ênfase na autonomia dos bancos centrais). Como se uma esfera pudesse se distanciar minimamente da outra. E outro dualismo, introduzido pelos negacionistas, é ignorar a palavra da ciência. Isso favorece a relativização das medidas restritivas recomendadas pelos cientistas.

Mais uma vez o capitalismo fala mais alto, já que ignorar a ciência permite não destinar recursos públicos a auxílios emergenciais, hospitais de campanha, importação de insumos sanitários e vacinas etc.

Somado à descredibilidade da política, esse negacionismo favorece as aglomerações, em especial a indiferença dos jovens frente à ameaça do vírus. Para eles, tudo se explica por alguma teoria conspiratória, como o “comunavírus” denunciado pelo chanceler brasileiro Ernesto Araújo.

Frei Betto  - Frade dominicano, jornalista graduado e escritor brasileiro. É adepto da Teologia da Libertação, militante de movimentos pastorais e sociais. Foi coordenador de Mobilização Social do programa Fome Zero.